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No relato de uma garota em seu primeiro dia de trabalho como mototáxi ou no fluxo dos pensamentos de uma mulher prestes a se aposentar, a escritora Jarid Arraes narra histórias com tamanha sensibilidade que a gente sempre fica na dúvida se aquilo tudo é ficção ou aconteceu de verdade. Em seus contos, cordéis e poesias, ela escreve sem rodeios, com uma escolha precisa de palavras que cativa milhares de leitores – entre eles, várias pessoas da redação da ELLE. Não à toa, a equipe fez festa com a notícia de que Jarid Arraes é a nossa mais nova colunista.

A escritora já é colaboradora conhecida dos leitores da ELLE. Logo na estreia do site, em maio de 2020, ela falou sobre o isolamento social em tempos de Covid-19. No volume 1 da edição impressa, lembrou da importância de recuperar a obra de escritoras negras brasileiras. Mais recentemente, contou como o grupo coreano BTS a ajudou a atravessar a pandemia.

Nascida em Juazeiro do Norte, no Ceará, Jarid tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel e é autora de, entre outros livros, Redemoinho em dia quente, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional e do APCA de Literatura, na Categoria Contos, além de finalista do Prêmio Jabuti. Desde 2014, vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita para Mulheres.

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Em sua coluna "Cadeira na calçada", no site da ELLE, Jarid vai tratar todo mês, sua coluna de um tema diferente, que pode ir de fatos do cotidiano a assuntos da cultura pop. "Gosto de escrever sobre o que nos une, mesmo com todas as nossas diferenças", adianta ela na entrevista a seguir.

Há alguns anos, você disse que não queria ser uma escritora inacessível, que queria ser amiga dos seus leitores. Com a ampliação do alcance do seu trabalho, você tem conseguido manter essa troca com o público?

É um pouco mais difícil acompanhar todas as resenhas que saem, por exemplo, mas continuo no meu constante esforço de responder os comentários e mensagens. Acho que, acima de responder mensagens nas redes sociais, está a relação direta com os leitores quando nos encontramos – algo que espero que a gente possa fazer em breve – e também na entrega do meu trabalho com a mais genuína sinceridade criativa. Existem motivos pelos quais meus leitores acompanham o meu trabalho e eu procuro mostrar minha gratidão a essa amizade. Algo que sempre faço é presentear os leitores que compram meus livros em pré-vendas e eventos de lançamento; eu sempre crio um brinde especial, algo que penso que eu também gostaria de ter, como um pôster, um marcador bem diferente, cards de ilustrações e coisas do tipo, porque quem apoia meu trabalho em momentos como esse está fazendo um movimento de acreditar em mim e na minha literatura. Então, considero todas essas coisas uma forma de me manter próxima, relacionável e disponível para trocas.

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Você já citou Lady Gaga como uma influência e é uma grande fã do BTS. Como você incorpora a cultura pop no seu trabalho?

Sou muito influenciada pela cultura pop, pela estética da cultura pop, especialmente por música e por conceitos artísticos de músicos. No caso da Lady Gaga, já escrevi sobre como enxergo cada um de seus álbuns como livros, porque em cada álbum existe uma proposta coesa, com personagens que ela cria para si, e uma narrativa que ela assume não só nas letras, mas nas performances, nas roupas que usa e nos vídeos que faz. É muito fácil ser influenciada artisticamente pela Lady Gaga. O BTS é uma influência mais recente na minha vida, mas o BTS também tem essa característica maravilhosa de apresentar conceitos complexos e mensagens profundas ou muito assertivas em suas obras. No BTS dá pra encontrar de tudo, desde a abordagem de questões sociais urgentes, até psicanálise e referências mitológicas. Eu me inspiro na forma como esses artistas se relacionam com seus ouvintes e fãs e também me inspiro em suas éticas de trabalho. No meu caso, a influência pode ser desde uma roupa que a Gaga usa, até um trecho de rap de uma música do BTS. O jogo de palavras, as metáforas que ela e eles fazem, muitas vezes apenas algumas palavras, tudo isso provoca um tipo de faísca em mim e me vejo escrevendo e me expressando em sintonia com esses artistas. No meu livro de contos, Redemoinho em dia quente, a Lady Gaga está presente em um dos contos, e estou construindo propostas relacionadas ao BTS. Na Lady Gaga e no BTS eu encontro muita inspiração literária.

Você é filha e neta de cordelistas e xilogravadores. Poderia contar um pouco sobre a influência de seu pai e seu avô no seu trabalho?

Meu pai e meu avô foram muito importantes para que eu criasse uma relação mais profunda com a literatura. Os primeiros livros de poesia que li foram os livros deles, foi assim que me apaixonei pela literatura. Também foi muito importante a decisão de começar a publicar meus escritos por meio da Literatura de Cordel. O Cordel é muito influente na minha escrita, tanto sua melodia quanto sua estética.

Você se mudou para São Paulo em 2014. A adaptação foi difícil? Como é sua relação com a cidade?

Eu amo São Paulo e não consigo pensar em nenhum outro lugar do Brasil onde eu gostaria mais de viver. Sempre soube que me adaptaria bem, eu me identifico muito com a cidade, tenho acesso a muitas coisas, mas a mudança foi uma necessidade de carreira. Infelizmente tudo está no sudeste e se eu continuasse no sertão as coisas seriam muitas vezes mais difíceis. Já sofri bastante discriminação regional por aqui, e continuo sofrendo. Até mesmo jornalistas que falam do meu trabalho acabam cometendo erros grosseiros, reduzindo meu trabalho a um imaginário que eles ainda têm dum sertão que é unicamente seco e exótico. Meu trabalho é uma constante luta para que esses clichês sejam desmascarados.

E como ficou sua relação com Juazeiro agora? A distância mexeu com sua escrita de alguma forma?

A distância me ajudou a olhar com mais generosidade e gratidão. Lá dentro eu já era muito próxima das diversas expressões de cultura popular, da arte, da linguagem do sertão, mas de fora eu consigo enxergar melhor todos os contornos e poesias que existem ali. Foi uma necessidade minha, um processo, uma caminhada. Hoje estou num lugar muito bom e cheio de afeto, escrevo o meu sertão, invento e desinvento, coloco nossas cores, que são muito vivas e estridentes, e uso nosso sotaque como estética literária. Sinto saudade de muita coisa, tento matar aos poucos quando viajo pra lá.

As redes sociais foram um instrumento importante para divulgar seu trabalho. Como você lida com elas hoje?

Meu trabalho com as redes sociais foi o que possibilitou minha chegada até aqui. Eu aprendi tudo sozinha, dando tudo de mim, e passei por períodos muito exaustivos. Mas sempre valeu a pena, porque de alguma forma o retorno sempre chegava. Eu consegui dialogar com quem queria ler aquilo que eu escrevia, soube chegar nos lugares – online – certos. Hoje a intensidade é menor, mas as coisas continuam parecidas. Ainda preciso divulgar meu trabalho sem descanso, ainda não tenho tempo para pausar, não tiro férias, tenho que pensar em como tirar as melhores fotos dos meus livros, e quais trechos das obras vou escolher para compartilhar, ainda passo horas e horas respondendo entrevistas que muitas vezes me perguntam as mesmas coisas de seis anos atrás. Eu aprendi definitivamente que eu só posso contar comigo mesma para que meu trabalho chegue até os leitores. Depois que chega, então, eu tenho uma rede linda de leitores que são muito amigos e me ajudam.

Você criou o clube de escrita para mulheres em 2015. Esse projeto continua?

O Clube da Escrita Para Mulheres continua até hoje, são seis anos de muitos encontros e de muitas escritoras que estiveram comigo, e com a Anna Clara De Vitto, a outra coordenadora do Clube, e com os exercícios em grupo, as conversas pós encontro pelos bares de São Paulo, com todo essa mistura conseguiram perder o medo de compartilhar o que escreviam, tiraram da gaveta e várias hoje já publicaram livros e obras nos mais diversos formatos. O Clube é algo muito precioso e, se depender de mim, vai existir para sempre. Nos encontros quinzenais fazemos exercícios de escrita juntas e todas são livres para compartilhar ou não, porque não temos um modelo de hierarquia, eu e a Anna Clara não estamos lá para ensinar nada, estamos lá para dar suporte, somos mais duas entre tantas. O Clube tem seu próprio método, que criei em 2015, e já mudou de casa muitas vezes. Atualmente estamos na Biblioteca Mário de Andrade.

Durante esse período de pandemia, o que foi o mais difícil para você? E teve algum lado bom?

Estou desde 11 de março de 2020 sem sair de casa, exceto para médicos. No ano passado comecei o tratamento contra um câncer durante a pandemia, o que foi muito difícil, porque fui sozinha aos compromissos médicos, vivi um isolamento dentro do isolamento. Hoje olho para 2020 e reconheço minha coragem e até admiro como consegui me manter calma nesse contexto do tratamento de saúde. Eu realmente estava muito calma. O que foi e ainda é mais difícil é a falta de contato com os leitores e com os amigos escritores. Eu gostaria muito de ter eventos presenciais, de alongar a conversa até um karaokê. Gostaria também de ir a parques e museus e fazer as coisas que eu sempre gostei de fazer, coisas que fazem parte da minha relação com São Paulo e que também alimentam minha criatividade. Eu realmente não vejo nenhum lado bom nesse período de pandemia e acho horrível quando gente famosa fala absurdos do tipo, como se fosse possível agradecer por algo, ou como se fosse aceitável mostrar uma vida totalmente fora da realidade dos brasileiros para contar como supostamente evoluíram durante o isolamento - com piscina, praia, dinheiro, etc. O que eu tive foi muita sorte, não só porque consegui cuidar da minha saúde, mas também porque encontrei coisas que tornaram o dia a dia possível, como o próprio BTS, assim como falei no meu texto aqui para a ELLE. Também coloquei minha concentração, a que consegui ter, em escrever meu primeiro romance.

Você fez a organização do livro Poetas negras brasileiras. Já tem data de lançamento? Há algum outro projeto que você esteja trabalhando no momento e possa adiantar pra gente?

A antologia Poetas negras brasileiras será lançada ainda em julho e teremos uma live de lançamento no dia 25. É um projeto lindo, que levei anos para organizar e concluir, porque são 70 poetas, mais de 600 poemas recebidos para que eu pudesse fazer a curadoria, projeto gráfico, enfim. Eu participei também de algumas antologias, publiquei contos em revistas, no meu blog da editora, lançamos a nova edição do meu livro Um buraco com meu nome e agora estamos trabalhando no meu primeiro romance. Espero que ele seja publicado no primeiro semestre de 2021, vai ser um passo muito importante para mim e espero que meus leitores fiquem ainda mais próximos depois dessa leitura.

Para terminar, o que os leitores podem esperar da sua coluna na ELLE? Que temas você pretende abordar?

Meu desejo é falar sobre nossas questões humanas e isso pode vir por meio da cultura pop, da literatura, de fatos do cotidiano, de questões sociais. Gosto de escrever sobre o que nos une, mesmo com todas as nossas diferenças, e há temas, dores, alegrias, perguntas, há coisas que nos juntam. Eu acredito nessa identificação que podemos ter uns com os outros. Espero escrever coisas que sejam notavelmente sinceras, esse será meu objetivo. E estou sempre aberta a sugestões e diálogos. Obrigada, pessoas queridas da ELLE, por me acolherem nesse espaço tão bonito e rico em possibilidades.

Para ler o primeiro texto de Jarid Arraes como colunista da ELLE, clique aqui.

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