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Cultura

O mergulho ancestral de Djamila Ribeiro

Nossa colunista revisita o passado e reverencia sua própria história em seu novo livro, Cartas para minha avó.

Divulgação/Flavio Teperman
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Quando recebeu a tarefa de escrever mais uma obra – um livro sobre a criação de filhos nos mesmos moldes de O pequeno manual antirracista (2019), Djamila Ribeiro não tinha ideia de qual caminho seguir. Mas ao entrar em contato com seu mundo infantil em busca de inspiração, escreveu, de uma vez, 32 páginas. Porém, em vez de um beabá da educação, contava ali sua própria história.

Em seu quarto livro, Cartas para minha avó, nossa colunista sai de seu papel mais conhecido – de filósofa, ativista, feminista e escritora best seller – e faz um verdadeiro mergulho em sua trajetória e ancestralidade. Ao revisitar suas memórias, Djamila escreve à avó, Antonia, algumas das mais importantes passagens de sua vida. Ao longo de 200 páginas, a autora relembra a infância e juventude ao lado dos pais em Santos, litoral de São Paulo, as primeiras festas, o despertar do feminismo, a chegada à universidade e da única filha, Thulane. Fala também de assuntos áridos, como assédio por parte de um primo, a morte dos pais e, claro, racismo. O resultado é um relato sincero, delicado e emocionante, que traz à tona um lado vulnerável e desconhecido do grande público.

Sucesso dentro e fora da academia – suas obras Lugar de fala (2017) e Pequeno manual antirracista foram um dos temas de Quem quer ser um milionário?, quadro do programa Caldeirão do Huck –, Djamila conversou com a ELLE e contou como foi este processo de resgate.

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Foto: Reprodução

Por que você sentiu a necessidade de escrever um livro sobre suas memórias?
Um pouco antes da pandemia, meu editor, Ricardo Teperman, propôs que em meu terceiro livro para a Companhia eu falasse sobre a criação de filhos, seguindo a linha do Pequeno manual antirracista. Fiquei com aquilo na cabeça, mas não tinha muita certeza do caminho a seguir. Um dia sentei e comecei a escrever sobre as minhas experiências de vida. Quando vi, já tinha prontas 32 páginas. Talvez isso já estivesse reprimido em mim, pois não foi tipo "vou escrever sobre as minhas memórias'', foi tudo muito natural. Em resumo: fui atender um pedido e saiu uma coisa completamente diferente. Mas acabei gostando do caminho que o livro tomou.

Quais obras e escritoras te inspiraram a escrever esse livro?
Eu sou muito fã da Toni Morrison. É uma autora que me marcou desde quando a li pela primeira vez, aos 20 anos e me marca ainda hoje. Maya Angelou, de quem sou muito admiradora também. No Brasil, acadêmicas como a Sueli Carneiro e Luiza Bairros, que foram muito importantes na minha formação e Lélia Gonzalez, que é a base do meu pensamento. Das ficcionistas, Carolina Maria de Jesus – inegavelmente – e Conceição Evaristo, que assina a orelha do livro e é uma autora belíssima, muito marcante na minha formação.

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Você sempre teve o hábito de escrever? Como foi revisitar sua história?
Herdei isso do meu pai. Tenho muitos cadernos de anotações da adolescência e do início da minha fase adulta, com fatos que aconteciam comigo, relacionamentos ou como eu estava me sentindo naquele dia. Algumas passagens foram dolorosas e muito difíceis de reviver. Mas no geral, foi muito interessante revisitar essa época da adolescência. Me peguei várias vezes pensando "o que será que aconteceu para ter escrito isso?".

O título do livro já deixa muito clara sua ligação com sua avó. Por que você escolheu homenageá-la, em vez de, por exemplo, de sua mãe?
Acho que eu precisava voltar um pouco mais na minha ancestralidade. Minha avó foi uma figura muito importante na minha vida, eu tinha 13 anos quando ela morreu. Minha mãe era muito brava, então a minha avó sempre ocupou esse lugar de refúgio, de afeto, colo... Também era uma presença muito forte. Ela era do candomblé, benzedeira e foi a figura responsável pelo nosso caminho espiritual. As mulheres da minha família, inclusive minha bisavó, que eu não conheci, se foram muito cedo. Sempre senti muita falta da presença delas, então foi importante dar esse passo atrás.

No livro, você conta várias passagens da sua vida que deixam à mostra uma Djamila mais vulnerável. Como foi sair dessa posição?
Muita gente se surpreende comigo: "Nossa, mas você não é séria, é tão tranquila". Não é o que geralmente as pessoas esperam de mim. Romper com esse lugar que as pessoas me colocam e que sempre me foi exigido foi bom. Foi um processo intenso comigo mesma, e eu precisava me libertar dessas amarras. Senti que era o momento de falar um pouco dessa história, de quem foram essas mulheres na minha vida, de celebrar esse feminino porque fui muito criada para me afastar disso.

Como assim?
Meu pai me incentivou a estudar, já minha mãe lavou o meu uniforme, arrumou o meu cabelo, cozinhou para mim… Meu pai me criou dizendo coisas como: "Você vai ser independente". Que bom! Mas durante muito tempo, fui uma mulher que desprezou o feminino, o cuidado comigo. Achava que isso era coisa de mulherzinha. Chegou uma fase da minha vida que eu pensava: "Jamais vou ser como a minha mãe". Então, acho que esse livro também foi um reencontro importante para celebrar esse feminino e fazer as pazes com essa situação que fui ensinada a rejeitar. Vi que não precisava ser um conflito. Podemos ser várias coisas na mesma pessoa.

Divulgação/Flavio Teperman

Isso tem a ver com terapia? Você acha que ela te ajudou a acessar este lugar?
Interessante esse paralelo… Não faço terapia tradicional há muitos anos, hoje faço terapia holística. Sem dúvidas, acho que me ajudou. Minha terapeuta notou o quanto minha energia estava em desequilíbrio, a feminina muito baixa e a masculina sempre muito alta. E quando comecei a fazer os tratamentos, fui entendendo melhor e percebi que tudo bem gostar de coisas ditas "femininas". Hoje consigo celebrar essa energia. Fui inclusive forçada a olhar para mim e entender por que desprezava esse lado. Junto com a terapia holística, a religiosidade que herdei da minha avó também ajudou nesse processo. A dimensão espiritual é fundamental para mim.

Você perdeu a sua avó e seus pais muito jovens e diz que segurou o choro e a tristeza por muito tempo. Como foi revisitar o luto e esses momentos que precisam de coragem?
Acho que demorei para viver o luto por conta da cobrança de ter de ser forte. No enterro da minha mãe, lembro de alguém dizendo: "Ah, você tem que ser forte". Eu era muito jovem e a gente realmente acha que a vida segue. Vivi lutos sucessivos – da minha mãe em um ano, do meu pai no outro – de maneira equivocada, me boicotando e não assumindo a tristeza. Depois de anos, entendi que eu tinha o direito de sofrer. Só percebi que precisava de ajuda quando li o Livro da saúde das mulheres negras, organizado pela Jurema Werneck. Cuidei do meu pai sozinha durante meses e revisitar esse período foi doloroso, mas na época, não tinha muita noção disso. Quando coloquei no papel, me dei conta do quanto foi duro e de como muitas coisas não estavam resolvidas. Ao mesmo tempo, era importante humanizá-lo, porque ele, como pai, foi diferente do marido. Mesmo com todas as suas questões, ele era um ser humano, que tentou viver do jeito que foi possível para ele.

Podemos dizer que foi terapêutico, como fechar um capítulo?
Foi um processo doloroso, mas ao mesmo tempo curativo. Escrever para a minha avó foi uma maneira de organizar essas memórias, que são difíceis, mas que hoje falo com tranquilidade. Tenho saudade dos meus pais, mas não sofro, entendo que faz parte da vida. Venho de uma religião em que acreditamos na vida ancestral. Ao mostrar essa vulnerabilidade, a gente vê como essas histórias são universais. Senti que também seria importante para outras mulheres negras poder falar das nossas experiências como memória mesmo, que foram tão apagadas. Falar dessas mulheres, das nossas famílias, do que a gente passou, é importante pois o caminho para nós não é fácil. Por isso é que devemos elaborar e cuidar de nossas dores. Senão, adoecemos. Tenho certeza que minha mãe adoeceu e morreu jovem por não conseguir elaborá-las.

O livro funciona como uma maneira de quebrar este ciclo?
Sim! É um convite para que a gente fale, chore, para que a gente não tenha que ser forte o tempo todo. Quebrar este ciclo é fundamental para nos humanizar, todas. Num trecho do livro, eu falo que ao "almanizar" minha avó e minha mãe, eu me humanizo. O livro é um convite a entender nossas mães, que muitas vezes foram brutalizadas e faziam as coisas dentro do que sabiam e achavam certo. Muitas vezes, a gente sentia raiva delas. Olhá-las com essa generosidade é uma forma de curar essas linhagens ancestrais que carregam muitas dores e romper essas amarras. É importante a gente pensar como mulheres negras pela perspectiva, também, do afeto.

"Escrever para a minha avó foi uma maneira de organizar essas memórias, que são difíceis, mas que hoje falo com tranquilidade."

Você percebe na sua personalidade herança dos seus pais?
No sentido de militância organizada, sim. Meu pai era estivador, sindicalista e foi um dos fundadores do Partido Comunista em Santos. Ele sempre foi muito crítico, um homem autodidata e muito culto, que não teve a oportunidade de concluir o ensino médio, mas tinha uma biblioteca com mais de 300 livros. Então, desde cedo eu e meus irmãos vivemos nesse ambiente. Mas minha mãe também foi uma figura importante. Ela me iniciou no candomblé quando eu tinha 8 anos, e foi a grande guardiã desses saberes ancestrais de matriz africana, coisa que meu pai não tinha.

Esses dois lados sempre foram equilibrados?
Hoje sim, mas durante muito tempo já tiveram conflitos. Falo isso no livro. Por exemplo: por ser comunista, meu pai era absolutamente contra o Carnaval e não deixava a gente ir de jeito nenhum. Ele amava samba, tinha todos os vinis, mas dizia: "Filha minha não vai sair em escola de samba, filha minha vai estudar". Já minha mãe, apesar de brava, adorava e nos levava escondido. Também íamos ao candomblé que ele não gostava, mas não se opunha. Já tive conflitos do tipo "faço filosofia e sou do candomblé", mas hoje sou bem resolvida. E agradeço por minha mãe e minha avó, que foram as grandes guardiãs desses conhecimentos na família.

E da sua avó o que você percebe que herdou?
Além da questão da espiritualidade, acho que a minha avó me trouxe muito esse lugar do afeto. Como mãe, ela não demonstrou isso pelos filhos, mas ela mostrava isso para os netos, sobretudo, na minha relação com ela. Ela quebrou alguns ciclos e se eu consigo ser assim hoje com a minha filha Thulane, acho que é muito pela minha avó ter me criado dessa maneira tão afetiva.

Como é para você ser vista como uma porta-voz sobre as questões do racismo? Você gosta desse papel?
Quando comecei a ser ativista, não era o que eu sonhava ser, as coisas foram acontecendo e as pessoas vão nos colocando nessa caixinha. Demorei para me perceber assim. Quando fui ganhando visibilidade, era como se eu tivesse fazendo o que eu sempre fiz. Ao mesmo tempo, gosto de me humanizar, de postar uma foto tomando um drink, por exemplo. Senão, parece que a gente só pode ser de um jeito, falar sobre determinado assunto e agir sob demanda. Fico feliz quando as meninas se identificam, acho importante ser referência e mostrar outras possibilidades de existência como mulher negra. Quando converso com ativistas mais velhas, elas dizem: "É importante que a sua geração seja mais humana, que curta mais a vida, porque muitas ativistas mais velhas morreram muito cedo". É preciso encontrar este equilíbrio e reivindicá-lo. Como diz o ensaísta, dramaturgo e ativista americano James Baldwin, "Você tem que decidir quem você é e forçar o mundo a lidar com você, não com a ideia de você."

"Já tive conflitos do tipo 'faço filosofia e sou do candomblé', mas hoje sou bem resolvida."

Como você essa novas gerações? Acha que elas são mais combativas?
São vários fatores. Sou professora na PUC-SP e tenho alunos negros que vieram do ProUni, que moram na periferia, têm mais oportunidades e hoje podem estudar na universidade. Temos a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro‐Brasileira, apesar de não ser aplicada como deveria. Tudo isso são políticas públicas frutos de muitas lutas históricas do movimento negro. Acho que as discussões sempre existiram, mas hoje acabam se proliferando. Uma das mudanças mais radicais nesse sentido é a questão racial, que está no debate público a ponto da mídia hegemônica ter que falar sobre isso. Acho que nesse sentido, essa geração teve muitas conquistas. Essa geração das redes sociais faz um trabalho muito importante, mas ao mesmo tempo em que eu admiro essa coragem de ir para cima, olho de maneira crítica. É preciso ter responsabilidade com o que se fala e entender que nada veio "de mão beijada". É importante reconhecer nossas lutas e referenciar as pessoas que vieram antes.

Nunca se falou tanto sobre ancestralidade. Nos vemos hoje querendo saber mais sobre nossas origens e de nossos antepassados, e os testes de DNA estão se popularizando cada vez mais. Como você vê esse movimento?
É muito importante, até porque a gente não sabe de onde vieram nossos ancestrais, fica uma lacuna na construção da nossa identidade como povo negro no Brasil. Um descendente de italianos, sabe de onde veio seu bisavô. Mas como Ruy Barbosa destrui os documentos referentes à escravidão, não sei se os meus ancestrais eram da Nigéria ou de Guiné-Bissau. Meu pai – que era de uma geração do movimento negro que incentivava os ativistas a dar nomes africanos aos filhos, como forma de fazê-los sentir pertencimento – retirou meu nome e da minha irmã, Dara, de edições do Jornegro, um jornal pertencente à militância negra. Anos depois, foi de lá que tirei o nome da minha filha, Thulani, que significa "a pacífica" em suaíli. Acho que essa busca que vemos hoje é uma maneira de tentar suprir essas ausências, sobretudo aqui no Brasil.

Você já fez o teste?
Fiz, e o resultado mostrou que a maioria dos meus ancestrais veio da Nigéria. É interessante saber e sentir-se conectado, mas ao mesmo tempo, a gente não sabe exatamente quem foram essas pessoas. Mas como diz o meu babalorixá Rodney William, o candomblé vem para nos reconectar com tudo o que a escravidão tirou. Talvez eu não sinta mais tanto esta lacuna porque a religião restabelece esses laços e nos devolve a realeza que o colonialismo nos arrancou.


Divulgação/Flavio Teperman

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