Chanel, inverno 2026 alta-costura
Em sua segunda coleção de alta-costura para Chanel, Matthieu Blazy aposta na leveza máxima, pequenos detalhes e na proximidade com o corpo (e com a cliente) para transformar o dia a dia em conto de fadas.
Nunca imaginei que Gabrielle Chanel vivesse um conto de fadas. Ela perdeu a mãe quando era criança, foi abandonada pelo pai num orfanato, teve um tanto de decepções amorosas, viveu uma guerra. Não é exatamente o que se entende como conto de fadas. Pelo menos não na versão bonitinha dos filmes da Disney. Matthieu Blazy, o diretor criativo da marca, tem uma visão diferente. Para ele, a trajetória da couturière é a perfeita representação de João e o pé de feijão. Até que faz sentido: a menina pobre que deu seus pulos, subiu na vida, ficou riquíssima e se tornou uma das mulheres mais influentes do século 20.
Pois bem, para o inverno 2026 de alta-costura da Chanel, Matthieu trabalhou dentro desse universo lúdico e fantástico. Daí o cenário com as flores gigantes e alguns elementos que decoram a coleção. Os saltos dos sapatos são em formato de flor, galinha, ovo, feijão, borboleta. As minibolsas com correntes repetem alguns desses motivos, e muitos deles também aparecem bordados nas roupas. Quase todos fazem referência a alguma fábula: além do João e o pé de feijão, tem O gato de botas, A galinha dos ovos de ouro, O patinho feio e Cachinhos dourados e os três ursos.

Chanel, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação
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Diz que a inspiração veio de um livro que o estilista achou na biblioteca do apartamento da Gabrielle. Ainda assim, não é algo completamente novo no seu repertório. Em janeiro, sua estreia na couture já trazia um pouco desse clima. O desfile até começou com uma música do desenho animado da Disney A bela adormecida.
Parte do sucesso das criações do Matthieu na Chanel vem de uma sensação de alegria e diversão meio inocente, meio infantil. É tudo simbólico e literalmente leve, fácil e despretensioso. Outra boa sacada é não pesar a mão nas interpretações das referências.
![]() Chanel, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação |
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Aqui, o pano de fundo são os contos de fadas, mas o foco é na realidade. Quando a apresentação parece enveredar para o mundo da fantasia, depois dos looks de ráfia tipo espantalho, a trilha sonora muda e entra a voz de uma mulher com uma lista sem fim de afazeres.
É interessante como a música altera nossa percepção. Daí para frente, não eram mais os bordados nem João escalando o pé de feijão no salto de um sapato que chamavam atenção. Eram a silhueta geométrica dos conjuntos de saia e jaqueta sem mangas, a lingerie por baixo de tecidos transparentes, o tailleur marrom, os vestidos pretos de aparência simples, o corte das calças, o movimento das saias.
Como Matthieu falou em algumas entrevistas, a aventura mesmo é a rotina diária. A fantasia vai ficando nos detalhes: nas bijoux percorrendo as golas e barras, num decote decorado nas costas ou em pequenas preciosidades que quase ninguém vê, exceto quem usa. É só prestar atenção nos forros para notar que eles são ilustrados ou trazem textos que, supostamente, poderão ser customizados pelas clientes.
![]() Chanel, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação |
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![]() Chanel, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação |
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Depois de uma certa idade, a magia vem das sensações que uma roupa pode proporcionar. O que não quer dizer que ela precise ser mirabolante, pelo contrário. É sobre se sentir bonita, confortável, confiante, segura. É sobre poder se movimentar à vontade, sem uma calça apertando sua cintura ou uma jaqueta segurando seus braços. É sobre a relação da peça com o corpo. E na alta-costura, esse diálogo é elevado à máxima potência. Não só pela construção impecável – qualidade excpecional é o mínimo nesse métier –, mas pela maneira como cada item é pensado e executado para que uma pessoa não apenas vista, mas viva com aquela roupa.
Por isso, Matthieu gosta de ressaltar a estrutura e a leveza de suas criações ao revelar camadas interiores entre bordados, superfícies tramadas ou translúcidas. Um bom exemplo é o look de abertura: um tailleur sem mangas feito de guipure com pequenas contas que lembram feijões sobre uma musseline de seda rosa-claro. O efeito é como se déssemos um superzoom numa trama de tweed até conseguir enxergar através dela.

Chanel, inverno 2026 alta-costura. Foto: Divulgação
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Ah, e por que o vestido de noiva não fechou o desfile como é de praxe na alta-costura? Porque, segundo o estilista, esse conto de fadas é o de Gabrielle Chanel, que nunca casou mas nos deu uma das peças mais emblemáticas da história: o little black dress.
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