Carta da editora

Os fantasmas se divertem?

Carta da Editora Avatar Renata

 

Halloween é fantasia, é festa, é ELLE View vestida de vilãs fashionistas – personificadas por Gabb, sociólogo e influenciadora digital (assim mesmo, no masculino e no feminino) que a moda ama odiar. “Me sinto confortável no papel de vilã. Acho que estava faltando esse humor”, me disse ela durante a sessão de fotos que você confere em Minha malvada favorita. Há quase dez anos criando conteúdo online, Gabb furou a bolha no ano passado, depois de aparecer no Domingão do Huck, conquistou fãs do calibre de Adriana Varejão, clientes como a Coca-Cola (que adora, toma 2 litros por dia, por sinal) e vai até participar de novela em 2025.

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Gabb caracterizada como Cruella. Foto: Juliana Rocha

Halloween é tempo ainda de dar boas-vindas aos medinhos que não fazem mal – maquiagens sinistras que vão embora no dia seguinte, lendas urbanas, que sabemos serem inofensivas, ainda que nossa criança interior trema diante da possibilidade de uma loira no banheiro. Mas também é uma boa hora para pensar no medo real, aquele que muitas vezes assombra nossas vidas, de maneira silenciosa. “O monstro de hoje não está mais debaixo da cama, mas à espreita nas telas, consumindo lentamente a autoconfiança e o bem-estar de toda uma geração”, escreve nossa colunista Nathalia Levy. “Mulheres enfrentam um verdadeiro pesadelo online, seja com suas inseguranças adolescentes sendo manipuladas e alimentadas desde cedo, resultando em um ciclo vicioso de performatividade, seja sendo alvo de ataques diretos.”

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Sinal dos tempos, até a ficção parece emular receios quase sempre exclusivos das mulheres. Você vai ver em O corpo que a gente habita como Hollywood e cia. está esbarrando em temas como gravidez indesejada e relações abusivas, em formato de filme de terror. Se na tela, o pânico é engravidar do capiroto, fora dela, o pavor é ver o retrocesso em relação ao aborto, para ficar apenas no exemplo dos Estados Unidos.

Já na moda, essa onda retrógrada aparece de forma conservadora, demure, como explica o jornalista Caio Delcolli na matéria Muito recatada, muito atenta, que relaciona um vídeo viral à recente expansão da direita calcada na religiosidade, que tem aparecido, inclusive, nas eleições municipais.

Tirando a vilã do armário

Mas a mesma moda que sufoca pode ser a que liberta. Em Clã renovado, Rafaela Fleur conta como a figura da bruxa, antes vista como um símbolo de opressão e perseguição, vem sendo ressignificada por mulheres modernas como um emblema de poder, resistência e desconstrução de padrões. Ser uma bruxona, afinal, é abraçar conhecimento, envelhecimento e amizade entre as mulheres. Tem coisa melhor?

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Aliás, até as it-girls do momento têm um quê subversivo. Cansadas da busca pela perfeição clean girl, mil procedimentos, muitas de nós se voltam para uma beleza que faz as pazes com frizz, olho borrado e até suor. Agradeça à Charli XCX e leia mais sobre isso em Baguncinha boa!, escrita por Amanda Cavalcanti.

Depois, aproveite para extravasar e rir um pouquinho relembrando as vilãs de novela (e seus bordões) que marcaram época. De Carminha, oi oi oi, avenida Brasil, à Odete Roitman, Milene Chaves lista dez delas e contextualiza de onde vem o fascínio por personas duvidosas.

Para terminar e lembrar que o medo é universal, mas também relativo, delicie-se com A hora do pesadelo, crônica de Roberta D’Albuquerque, que brinca com o medo do medo. O medo da redatora-chefe, por exemplo, é que ninguém a leia. Fica aqui comigo?

Um beijo e até a próxima edição,
Re Piza