Fotos Cortesia | Gucci
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A principal notícia você já sabe: para a nova coleção da Gucci, chamada Aria, o diretor de criação Alessandro Michele deu uma hackeada na silhueta da Balenciaga. Foi assim que o italiano descreveu a tão esperada parceria entre as duas grifes (ambas do grupo Kering). Porém, se me permitem, gostaria de sugerir outras duas palavras que caracterizam bem o desfile da manhã desta quarta-feira,15.04: mixagem e sampleamento.

Segundo o dicionário, mixagem é a junção e combinação de sinais sonoros recebidos de fontes distintas, mas vale para imagem também. Sampleamento também tem origem musical e diz respeito à base determinada música. Esse sample, pode então ser reaproveitado – e remixado – de mil e uma formas.


É o que rolou na trilha do desfile, por exemplo: uma combinação de várias músicas que reverenciam a Gucci (Gucci Gang, do Lil Pump, Green Gucci Suit, do Rick Ross and Future, Gucci Flip Flops, do Bhad Bhabie & Lil Yachty e Gucci Coochie, do Die Antwoord com Dita Von Teese, só para citar algumas).

Em termos estéticos, foi o que Michele fez ao se apropriar de elementos visuais da Balenciaga. Trata-se de uma guccificação de elementos bem característicos do trabalho de Demna Gvasalia. A silhueta é o ponto principal aqui: ombros pontudos e salientes, a bota-meia e a alfaiataria precisa surgem decorados com aquele gloss vintage e lúdico tão característico de Michele. Tem também as bolsas, modelos originais de cada grife estampados com o monograma da outra.

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A ideia é tão interessante e seu potencial criativo, tão grande, que dá vontade de ver bem mais do que a customização de peças icônicas e o sample de logos. Ainda assim, a parceria tem seu valor histórico. Provavelmente, é a primeira vez que duas grandes marcas de luxo do mesmo nível trabalham juntas. O mais comum é vê-las associadas a etiquetas menores ou de outros segmentos, como foi o caso da The North Face x Gucci e de quando a Balenciaga se juntou a Crocs, a Levi's ou a Juicy Couture.

O que pega em muitas mixagem, contudo, é que o resultado final nem sempre é tão novo. E tudo bem, tem toda uma linha de pensamento sobre como, atualmente, a novidade está mais no processo do que no produto. A Gucci de Michele se encaixa um pouco nisso. Desde sua estreia, lá em 2015, ele se vale de um grande mix de elementos, referenciais, estilos, culturas e períodos históricos diferentes. Dessa vez não é diferente. É só um tanto mais nostálgico. É que, em 2021, a Gucci comemora seu centenário. E parece que a data deixou o estilista um tanto mais apegado ao passado do que de costume.

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"Celebrar este aniversário significa homenagear o ventre materno de então, mas também o devir outro. O legado, mas também a possibilidade de sua reflexão posterior", escreveu ele. "Cruzando esse limiar, saqueei o rigor inconformista de Demna Gvasalia e a tensão sexual de Tom Ford; demorei-me nas implicações antropológicas daquilo que brilha, trabalhando no brilho dos tecidos; celebrei o mundo equestre da Gucci, transfigurando-o em uma cosmogonia fetichista; sublimei a silhueta de Marilyn Monroe e o glamour da velha Hollywood; sabotei o charme discreto da burguesia e os códigos da alfaiataria masculina."

A fala, ou melhor, a escrita já entrega a colagem de referências mil. As botas e acessórios de montaria, tão emblemáticos da Gucci dos anos 1950 e 60, chegam carregados de elementos fetichistas, numa leitura sexual bem parecida com a que Michele apresentou no inverno 2019. Sobre o tema da sensualidade, tem as lembranças de Tom Ford, mas do estilista americano vem também boa parte da alfaiataria, numa silhueta mais fluida (o terno de veludo vermelho do primeiro look é uma reedição do modelo desfilado por Ford, no inverno 1996, e usado por Gwyneth Paltrow no VMA daquele ano). Para o tapete vermelho, cada vez mais à vontade e criativo ultimamente, tem o perfume vintage de uma Hollywood antiga com os sonhos de uma juventude, por hora, sem festa.


Nada disso é exatamente novo, é verdade. O que não quer dizer que não seja belo, tampouco interessante. Na moda, está rolando um momentinho mais dedicado a lembrar do que inovar, e existem mil explicações para isso – da criatividade baqueada pela falta de convívio social aos problemas econômicos. E Gucci se encaixa aí. Quem vibrava com as reflexões e questionamentos de Michele (bem cabeçudos, mas calcados na cultura pop), sentiu a diferença.

O vídeo (lindíssimo), dirigido por Floria Sigismondi, é uma aula na construção de grandiosidade – e emoção – a partir de peças, em sua maioria, pensadas para ter alta performance nas lojas. Fala da história da marca, fala sobre o presente, imagina um futuro – cheio de toque, beijo, liberdade, sexo e amor. Mas isso é narrativa cinematográfica. O foco de um desfile de moda, pelo menos em tese, é a roupa. São elas que contam a história. São elas as palavras que escrevem a mensagem.

É aquele famoso toma lá, dá cá: perde em termos estéticos e filosóficos, ganha na esperteza e sagacidade comercial. Está uma coleção com uma oferta inteligente de produtos (vide a parceria com a Balenciaga). Não custa lembrar que, mesmo antes da pandemia, o crescimento da etiqueta já vinha em ritmo mais lento do que o observado anos antes. Com a Covid-19, as vendas da grife foram severamente impactadas – caíram 20% em comparação a 2019, segundo relatório anual do grupo Kering. E é importante ter isso em mente na análise do desfile.




Intrigas familiares, o forte apelo sexual trazido por Tom Ford, disputa pesada entre holdings de luxo e o rico mix de referências de Alessandro Michele são alguns dos capítulos que marcaram o primeiro século da marca italiana.

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