Um raio-x no espantalho do inverno 2026 de alta-costura da Chanel
Confira os significados, simbolismos e detalhes do look de número 15, que lembra a figura de um espantalho, no inverno 2026 de alta-costura da Chanel.
Havia um espantalho no inverno 2026 de alta-costura da Chanel. Vocês devem ter visto. Em todo caso, era o 15º look. Ele foi usado pela modelo Natasha Poly e parecia composto de jaqueta e chapéu de palha, camisa de flanela xadrez e calça jeans. Só que não era bem assim.
A jaqueta, na verdade, é de ráfia (e supermacia). As extremidades têm tranças de plumas amarelas e os nove botões de cerâmica ilustram, cada um, uma etapa do ciclo de vida de um girassol – do broto até a flor seca. Já o tecido da calça é uma trama de tweed que imita denim. A camisa é do mesmo material, com adição de bordados quadriculados. Ambos são feitos pelo ateliê Lesage.

Look 15 da coleção de inverno 2026 de alta-costura da Chanel. Foto: Divulgação

Detalhe da jaqueta de ráfia do inverno 2026 de alta-costura da Chanel. Foto: Divulgação

No zoom, as manualidades criadas pelo ateliê Lesage. Foto: Divulgação
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Para entender tudo isso, vale voltar algumas casas. O segundo desfile couture de Matthieu Blazy como diretor criativo da Chanel teve como ponto de partida uma coletânea de contos de fadas que ele encontrou na biblioteca do apartamento de Gabrielle Chanel. Saíram dali as plantas trepadeiras, as flores, animais e personagens que decoraram a cenografia, as roupas e os acessórios.
O nome da coleção é Gaby and the Beanstalk, em alusão ao título em inglês de João e o pé de feijão. Para o designer, aquela história não é diferente da fundadora da maison. Como João, ela teve uma origem humilde e, com persistência e determinação, ascendeu social e profissionalmente conquistando sua galinha dos ovos de ouro.

Detalhe do tweed da camisa do look 15 do inverno 2026 de alta-costura da Chanel. Foto: Divulgação

A trama que imita jeans do look 15 do inverno 2026 de alta-costura da Chanel. Foto: Divulgação
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Outras fábulas também alimentaram a imaginação de Matthieu, como Cachinhos dourados e os três ursos, O gato de botas e O patinho feio. Há botões e bolsas metálicas esculpidas no formato de uma raposa adormecida ou de uma galinha sobre um ninho dourado. Mas é difícil não pensar em O maravilhoso Mágico de Oz.
No livro de L. Frank Baum, publicado em 1900, o Espantalho vive preso no alto de uma estaca para afastar os corvos do milho maduro, até ser libertado por Dorothy. Ele é descrito como amável e generoso, embora levemente desajeitado. No desfile, traços do personagem podem ser lidos nas pequenas imperfeições.

Detalhe dos botões de cerâmica em formato de Girassol. Foto: Divulgação
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As barras dos vestidos e calças, muitas vezes, são desfiadas. Algumas tramas têm fios soltos ou espaçados para ressaltar o processo manual e deixar visível o que existe por baixo. Há relatos de que Coco Chanel cortava e alfinetava tanto suas roupas (todas costuradas e ajustadas direto no corpo) que as superfícies acabavam desgastadas. E ela adorava.
A imperfeição deliberada traz textura e humanidade. O assunto, aliás, já foi pauta do Volume 24 da Elle Brasil. Na reportagem, a editora assistente de moda Giuliana Mesquita explica como tecidos surrados, silhuetas deslocadas e visuais menos calculados são uma resposta às automatizações e artificialidades de nossos tempos.
Em Oz, o Espantalho anseia por um cérebro: “Se a minha cabeça continuar cheia de palha em vez de miolos, como vou conseguir saber alguma coisa?”. A ironia é que, ao longo de toda a jornada, é ele quem demonstra mais sabedoria, arquitetando os planos para livrar o grupo dos perigos. No final, o Mágico lhe entrega um cérebro que, na verdade, é apenas um punhado de farelo. O segredo está no efeito placebo, pois o personagem nunca precisou de mais inteligência, apenas da confiança e autorreconhecimento.
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