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Hoje, 30.11, o Fashion Revolution Brasil lança a quarta edição do Índice de Transparência da Moda. O projeto analisa como 50 grandes marcas e varejistas de moda brasileiras divulgam suas políticas e práticas sociais e ambientais. São usados mais de 200 indicadores baseados em pautas como igualdade racial e de gênero, ações frente à crise climática, combate ao trabalho análogo ao escravo etc. Neste ano, a média geral foi de 18%, o que implica em uma queda de 3 pontos percentuais em relação ao ano anterior, algo que pode ser explicado devido a revisão metodológica da pesquisa. Apenas uma marca atingiu pontuação acima de 70%, sendo que outras 17 etiquetas (34%) zeraram.


Isso significa que dentre as cinco seções que dividem o relatório (políticas e compromissos; governança; rastreabilidade; conhecer, comunicar e resolver; e tópicos em destaque), a maioria das etiquetas teve métricas baixas que sinalizam como elas são pouco transparentes sobre seus impactos, sejam positivos ou negativos. Ainda, a divulgação de iniciativas não significa, necessariamente, que elas estejam acontecendo ou ainda qual sua efetividade nas empresas. O Índice é capaz de apurar e organizar apenas os dados públicos e comparáveis.

Dentre as pontuações mais elevadas, estão a C&A, com 70% (queda de 4% em relação a 2020), seguida pela Malwee, com 66% (queda de 2% em relação a 2020), Renner e Youcom, ambas com 57% (queda de 2% em relação a 2020), Adidas, que estreia na análise brasileira com 53%, e Havaianas, com 52% (queda de 3% em relação a 2020). Já as 17 empresas analisadas que não divulgam informações sobre suas práticas, são Besni, Brooksfield, Caedu, Carmen Steffens, Cia. Marítima, Colcci, Di Santinni, Fórum, Kyly, Leader, Lojas Avenida, Lojas Pompéia, Marisol, Moleca, Nike, Sawary e TNG.

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O projeto, criado pelo Fashion Revolution Global, em 2016, acontece no Brasil desde 2018 e, neste ano, contou com o apoio financeiro da Laudes Foundation e do Sebrae, e parceria técnica da ABC Associados, consultoria especializada em metodologias para análises do desempenho e perfil de empresas no campo da sustentabilidade empresarial.

Segundo Eloisa Artuso, coordenadora do Índice no país, nos últimos meses as métricas do relatório passaram por uma revisão detalhada. ''Temos ouvido muitas pessoas relatarem o sentimento de frustração em relação à velocidade das mudanças na indústria da moda. Dada a emergência climática e a persistência dos abusos dos direitos humanos no setor, a transformação é urgente e imediata. Nós escutamos e compartilhamos dessas frustrações'', explica ela, que também é designer estratégica e pesquisadora de sustentabilidade.

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''Por isso, tomamos uma série de medidas para fortalecer a metodologia e impulsionar as marcas e varejistas a irem além da publicação de suas políticas e compromissos, para uma maior divulgação pública sobre a implementação e os resultados de suas ações'', completa. Ao olhar para o Índice Global, que analisa 250 grandes marcas, do varejo ao luxo, os resultados também são desanimadores: em 2021, a média geral foi de 23%, mantendo o resultado de 2020. Mesmo com a queda percentual de 2020 para 2021 na versão brasileira, Eloisa avalia que o Índice tem influenciado diversas companhias do setor a reverem processos internos e a divulgarem melhor suas práticas.

A rede produtiva da moda é muito fragmentada, mas algumas tecnologias, como o blockchain, podem ser aliadas das empresas para que haja algum tipo de rastreabilidade. Vale reforçar que transparência não significa sustentabilidade. É importante usá-la como uma ferramenta para mudanças, não como um fim em si mesma. Por isso, é no mínimo emblemático que marcas relevantes do setor divulguem pouco ou nada sobre o que estão fazendo, de acordo com suas responsabilidades, para cessar problemas tão graves como a crise climática, desigualdade ou racismo. ''Em todo caso, já sabemos o que deve ser feito, o que precisamos, agora, é de ação'', finaliza Eloisa.

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Confira os destaques do Índice de Transparência da Moda Brasil 2021:

Crise climática

Mesmo o Brasil tendo se comprometido publicamente, na COP26, em mitigar o desmatamento, a realidade é outra. Uma pesquisa recente do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), aponta que o aumento das emissões brutas de gases de efeito estufa no país, em 2020, foi de 9,5%, sendo que globalmente o número foi de 7%. Segundo a análise, o principal fator a contribuir com a elevação nacional foi o desmatamento – prática que nunca teve índices tão elevados na Amazônia desde 2006.

A produção de fibras naturais, como algodão e viscose, podem ter relação direta com o desmatamento e um relatório recente revelou como o couro é outro elo entre o crime ambiental e as grandes companhias, do luxo ao fast-fashion. Mesmo assim, o Índice de Transparência aponta que nenhuma marca divulga um compromisso mensurável e com prazo determinado para o desmatamento zero. Ademais, apenas três empresas (6%) divulgam evidências de implementação de práticas agrícolas regenerativas em uma ou mais fontes de matéria-prima de sua cadeia, e 14% das marcas publicam se estão rastreando a fonte de uma ou mais matérias-primas específicas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já sinalizou que é vital manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 °C. Contudo, no Índice, apenas 32% das marcas analisadas publicam uma política sobre energia e emissões de gases de efeito estufa para suas operações próprias, 30% apresentam uma política sobre o mesmo tema para seus fornecedores, e 22% divulgam um compromisso mensurável e com prazo determinado para descarbonização.

Igualdade de Gênero

A cadeia produtiva da moda, no Brasil, é composta por 60% de mulheres. No mundo, o percetual pode chegar a 80%, conforme a Organização Internacional do Trabalho. Mesmo assim, muitas ainda recebem menos do que homens ocupando os mesmos cargos. A presença feminina em cargos de liderança de grandes marcas de moda no mundo é de apenas 15%, conforme análise de 2016 realizada pelo Business Of Fashion. Além disso, o Índice aponta que diversos relatórios mostram que discriminação, assédio e violência são comuns ao longo da cadeia de fornecimento têxtil e de confecção.

Dada a gravidade do problema, poucas das marcas analisadas no relatório divulgam como fazem para mitigá-lo. Apenas 16% das empresas divulgam informações sobre programas de desenvolvimento de carreira voltados para a redução da desigualdade entre gêneros e promoção de oportunidades para o crescimento e evolução das mulheres e só 6% das marcas publicam dados sobre violações trabalhistas relacionadas a gênero na cadeia de fornecimento.

Sobre a diferença salarial entre mulheres e homens dentro da empresa, 12% das empresas divulgaram tais dados e apenas 24% das marcas publicam, anualmente, a distribuição de gênero por cargo dentro das suas próprias instalações. O Índice ainda afirma que notou, durante a apuração, ''que algumas marcas divulgam somente dados genéricos sobre a quantidade de mulheres em posições de liderança ou no quadro geral da empresa, mas não dados que abranjam diversos níveis hierárquicos, como os de funcionárias, vendedoras, gerentes, supervisoras e nível executivo''.

Igualdade racial

No Brasil, 56% da população se autodeclara negra (preta ou parda), mas esse grupo ainda é atingido pelo racismo estrutural. Dados do IBGE mostram que pessoas negras são a maioria da força de trabalho no país, mas pessoas brancas recebem em média duas vezes mais. A taxa de analfabetismo entre pessoas negras é maior do que o dobro da taxa de analfabetismo entre brancos da mesma idade. As pessoas negras são a maioria na linha da pobreza ou pobreza extrema, em ascensão no país. Mesmo com a escancarada desigualdade racial e com as movimentações do Vidas Negras Importam, em 2020, a indústria da moda brasileira pouco ou nada faz contra o racismo.

No Índice, 24% das marcas analisadas publicam suas ações com foco na promoção de igualdade racial entre seus funcionários, um leve crescimento comparado a 2020 (18%). Apenas três marcas (6%) divulgam informações sobre programas de desenvolvimento de carreira voltados para a redução de desigualdade entre raças e promoção de oportunidades de crescimento para funcionários negros. 12% das empresas publicam a divisão por cor ou raça de seus funcionários, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2020.

Nenhuma marca publica as diferenças salariais de seu quadro de funcionários sob a perspectiva racial, resultado igual ao do ano anterior, e nenhuma marca divulga as diferenças salariais e distribuição por cargo, sob a perspectiva racial, nas instalações dos seus fornecedores.

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