Moda

Marc Jacobs, o ícone pop da moda

Em seus quase 40 anos de trajetória, Marc Jacobs nunca teve medo de seguir seu próprio "feeling" em uma carreira criativamente audaciosa. Relembre a história do estilista nova-iorquino, da infância sofrida à marca Heaven, sua mais nova aposta.

Reprodução Instagram @themarcjacobs
  • Em 1984, aos 21 anos, Marc Jacobs foi o mais jovem estilista a receber um prêmio CFDA até então. Logo em seguida, criou a sua marca homônima;
  • Diretor criativo da Perry Ellis desde o final dos anos 1980, o estilista foi demitido após seu visionário desfile para o Verão 1993, inspirado na cena musical grunge, dividir a crítica e ser um desastre comercial;
  • Entre 1997 e 2013, ajudou a transformar a Louis Vuitton, tradicionalmente conhecida por malas e baús de viagem de luxo, em uma grife de moda contemporânea desejada por todos;
  • Em paralelo, sua marca autoral chegou a ter 280 lojas espalhadas por mais de 50 países pelo mundo;
  • Em 2020, Jacobs lança a Heaven em parceria com a jovem designer Ava Nirui;
  • Acompanhe a sua trajetória abaixo.

A Origem de Marc Jacobs

Figura pop da moda marcada pela criatividade, exuberância e rebeldia, Marc Jacobs não teve uma infância muito tranquila. Nascido e criado em Nova York, passou um período conturbado sob os cuidados da mãe, que tinha transtorno bipolar e não se medicava corretamente, após a morte do pai quando ele tinha 7 anos. O estilista, ainda hoje, conta em entrevistas que esse foi um período bastante traumático, no qual precisou assumir a responsabilidade por seus dois irmãos mais novos e, recorrentemente, via a mãe ser internada às pressas.

Foi só na adolescência, depois que seus irmãos foram para um orfanato e Jacobs foi morar com a avó paterna, Helen, que as coisas começaram a melhorar para ele. Suas primeiras lições de moda vieram dela, que fazia questão de trocar o guarda-roupa a cada estação, com sapatos e bolsas que combinassem, e ensinou que ter um suéter de qualidade valia muito mais do que ter 10 meia-boca. Helen foi a primeira a incentivá-lo a seguir na moda e vivia dizendo aos vizinhos que um dia seu neto seria um estilista famoso.

Jovem prodígio

A ligação forte com a juventude em seus trabalhos talvez se deva ao fato de que ele se tornou um adulto muito cedo. Aos 15 anos, já badalava na lendária discoteca Studio 54. Formou-se aos 18 na High School of Art e Design e seguiu direto para a prestigiada Parsons School Of Design. O projeto final do curso de moda foram três suéteres oversized, assinados em conjunto com a avó. Com essas peças, foi considerado o jovem talento do ano, além de ser reconhecido por premiações como a Chester Weinberg e o Perry Ellis Gold Thimble.

Jacobs logo começou a produzir do seu jeito "nada cartesiano", como avaliam as pessoas mais próximas. O seu processo criativo, dizem, se assemelha muito com o de uma colagem viva, mas com tecidos, cores e formas – ela vai simplesmente acontecendo. E foi com esse jeito que ganhou notoriedade e também, logo cedo, um CFDA (Council of Fashion Designers of America's) para chamar de seu. Virou o mais jovem designer a receber o título até então. Na época, ali em 1984, se juntou com o empresário e grande amigo Robert Duffy (a cabeça organizada que o acompanhou até 2015). Nascia ali a Marc Jacobs, a sua marca homônima.

PERRYS ELLIS E O GRUNGE

No final dos anos 1980, o estilista foi chamado à Perry Ellis para coordenar a seção de vestuário feminino da marca. Enquanto esteve na tradicional casa norte-americana, chegou a contratar um estilista assistente. Seu nome? Tom Ford. Jacobs comenta da curiosidade com bom humor, afirma que Ford não era nem um pouco o homem elegante que todos conhecem hoje e estava muito mais para um mauricinho sem bom gosto.

Em 1992, Marc Jacobs assinou uma de suas mais importantes coleções. Ou, pelo menos, uma de suas mais controversas. Trata-se da Grunge Collection, para a Perry Ellis, que parte da crítica adorou, mas a própria empresa odiou pelo desastre comercial. A coleção não foi completamente entendida na época, fugia completamente do exagero plástico que foi os anos 1980, mas Jacobs antecipava o fato de que a moda de luxo criaria uma obsessão não só com o grunge, mas com as roupas que viriam das ruas pelos próximos anos. O grunge, aliás, depois acabou guiando toda a estética dos anos 1990. Sem essa previsão, a Perry Ellis demitiu o estilista, mas, no mesmo ano, em 1993, Jacobs abocanhou mais um CFDA.

FOCO E SUCESSO NO AUTORAL

Daí em diante, Marc Jacobs segue com tudo na etiqueta própria, com direito a Naomi Campbell e Linda Evangelista desfilando na parceria só para celebrar o retorno do designer à produção autoral. A marca foi independente até 1997, quando os sócios decidiram vender a maioria das ações para o conglomerado francês de luxo LVMH. A intenção era expandir os negócios e conseguiram: chegaram a 280 lojas espalhadas por mais de 50 países pelo mundo.

Marc Jacobs virou um daqueles nomes que mesmo quem não conhece moda certamente já ouviu falar. Ele vestiu as meninas mais cool dos tapetes vermelho, como Winona Ryder e Sofia Coppola. Criou várias marcas registradas, como a bolsa Stam, o vestido de gola Peter Pan, entre outros hits fashionistas.

Os seus desfiles, com atenção boa para o cenário e a presença de celebridades na fila A, sempre foram os mais aguardados de Nova York, tradicionalmente fechando o calendário. "Eu não posso costurar a alegria em um pano, mas acho que há algo dentro do processo em que a energia continua a crescer e de tal forma se amplifica e é transferida para esses minutos que compõem o desfile", comenta ele próprio sobre a emoção de suas apresentações.

Linda Evangelista desfila de chap\u00e9u azul festivo e terninho branco para Marc Jacobs em 1993

Linda Evangelista no desfile de celebração do retorno de Marc Jacobs ao autoral em 1993

Rose Hartman / Getty Images

Naomi Campbell desfila de chap\u00e9u de anivers\u00e1rio dourado e macaquinho preto para Marc Jacobs em 1993

O Marc Jacobs Show 1994 também contou teve Naomi Campbell na passarela

Rose Hartman / Getty Images

Marc Jacobs na Louis Vuitton

Não à toa, no final dos anos 1990, o designer foi nomeado diretor artístico da Louis Vuitton. O acúmulo de funções, a fama e o excesso de responsabilidades viraram problema. Na virada do milênio, foi amplamente divulgada a sua reabilitação – que, inclusive, não foi a única. Mas o casamento entre Jacobs e Vuitton ficou para história como um caso de sucesso, principalmente pelas colaborações que o estilista fez com grandes artistas.

Em 2001, criou com Stephen Sprouse a marcante estampa Monogram Grafite que até hoje é revisitada pela etiqueta. Com Takashi Murakami, em 2005, veio a Monogram Multicolore e as bolsas estampadas com o logo colorido da LV viraram um must-have que marcou a década. A parceria com Richard Prince, em 2007, resultou na coleção de bolsas Monogram Aquarel. Em 2012, se uniu à Yayoi Kusama para criar roupas, sapatos, bolsas e acessórios com a icônica estampa de bolinhas da artista japonesa.

A despedida da Louis Vuitton veio na Semana de Moda de Paris em 2013. Em seu desfile final, o estilista apresentou uma coleção quase que inteiramente preta com bastante brilho e transparência (a exceção foram algumas peças em jeans azul) encerrando 16 anos de parceria de sucesso com um grande espetáculo. Vale ressaltar que Marc Jacobs ficou marcado como um dos responsáveis por transformar a tradicional casa de luxo, famosa por malas e baús de viagem, em uma grife de moda contemporânea desejada por todos.

Divulgação

Resultado da parceria de Marc Jacobs e Stephen Sprouse, a Monogram Graffiti é revisitada até hoje

Marc by Marc Jacobs e o Luxo acessível

Ao longo da primeira década dos anos 2000, o estilista se desdobrou em mais uma linha, a Marc by Marc Jacobs. O foco eram peças mais acessíveis, como jaquetas militares e vestidos prairie, e também souvenirs, incluindo camisetas com a logomarca, chaveiros e bolsas. A ideia era justamente atrair um público mais jovem e tornar a moda de luxo, de certa forma, mais democrática.

Deu certo por um tempo, com direito a desfiles na Semana de Moda em Nova York e coleções que compreendiam um guarda-roupa inteiro, mas em 2015, dois anos após todo um trabalho de renovação da etiqueta, ela foi descontinuada. Uma avaliação feita em 2018 pela Exane BNP Paribas mostrou que Marc Jacobs não havia feito tanta grana na última década quanto já tinha conseguido fazer. A receita foi estável, mas perdas anuais por volta dos 50 milhões de euros foram contabilizadas, o que pode ter motivado o fim da Marc by Marc Jacobs.

Novo fôlego com a Heaven

Atualmente, apesar de a empresa manter apenas cinco lojas, três delas em Nova York, uma em Los Angeles e outra em Paris, há várias investidas para uma mudança bastante positiva nos negócios do estilista. Uma delas aconteceu em 2019, quando a coleção Redux Grunge Collection reeditou 26 peças do show para a Perry Ellis de 1993. E, agora, um novo fôlego parece vir com tudo por meio da Heaven, coleção categorizada pelo próprio estilista como "polissexual", feita em parceria com a jovem designer Ava Nirui.

Inspirada em "sonhos subversivos adolescentes, uma juventude queer, de ravers doces e clubbers ácidos, além de uma fantasia psicodélica", a Heaven se explica como "uma linha de meninas que são meninos e meninos que são meninas, além daqueles que são nenhum, são o espaço negativo, a euforia suburbana de personagens multifacetados".

Talvez essa mistura toda não dê para entender, assim, logo de cara, mas a gente garante que não poderia ser nada mais Marc Jacobs. Sua parceira, Ava Nurui, conhecida como @avanope no Instagram, é uma designer e curadora que ficou conhecida por brincar tanto com os logos de algumas marcas que foi chamada pra fazer parcerias com elas.

A Heaven, que nasce desse encontro, para além de toda aquela série de categorias que citamos ali em cima, pode ser resumida como uma linha que tem a juventude como preceito básico. E isso significa uma reunião de referências que batem — e muito — com esse período tão específico da vida, geralmente conturbado, mas repleto de descobertas. A marca presta homenagem, por exemplo, aos filmes de Gregg Araki, ao streetstyle de revistas como a FRUiTS, do fotógrafo Shoichi Aoki e às identidades mil de Cindy Sherman.

Tem uma mochila na coleção em referência à stylist Katie Grand, parceira e musa de Jacobs, que além de fundadora da publicação Love foi também editora sênior da Dazed and Confused, um dos grandes nomes da moda que valoriza a visão jovem do mundo. No site da marca, você encontra de camisetas e suéter de margarida, assinatura de Jacobs, à produtos como um livro Lolita, de Vladimir Nabokov, um DVD de Virgens Suicidas, de Sofia Coppola.

A Heaven parece conseguir conversar com o adolescente de hoje em dia, com aquele adolescente que Marc Jacobs influenciou no auge dos anos 2000, e até mesmo com o adolescente da época de quando o próprio Marc Jacobs foi um. E esse olhar para uma juventude que atravessa os tempos tem tudo a ver com uma característica importantíssima do designer, que é a sua boa capacidade de captar a vibração do tempo.

Marc Jacobs como figura pop

E algo é certo. Marc Jacobs não perde o seu posto de influenciador. Ele acumula prêmios CFDA, entre eles um Lifetime Achievement. É um designer com direito à placa na calçada da fama da moda, no New York City Garment District, em Nova York, além de ter sido condecorado como Chevalier des Arts et des Lettres por sua contribuição à moda francesa.

Nas redes sociais, hoje em dia, usa o cabelo lilás comprido até a nuca, após um tempo apostando nos fios penteados para trás presos com presilhas, adora salto fino, botas plataforma e unhas cheias de pedrinhas brilhosas. Tá nem aí para o que a sociedade espera de um homem com 57 anos de idade. E diz que tem muita história para contar. Repetiu a mesma frase em duas entrevistas recentes. Estamos atentos para o que ainda pode vir!

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O estilista nova-iorquino resgata a inspiração no movimento grunge — a mesma que fez com que ele fosse demitido da Perry Ellis no começo de sua carreira —, para lançar uma nova marca em colaboração com a criativa Ava Nirui.



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