Quem são os Antwerp Six?
E como Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Marina Yee, Dirk Bikkembergs, Dries Van Noten e Dirk Van Saene – conhecidos como os Antwerp Six – influenciaram a moda.
O ano era 1986. Formados pela Academia Real de Belas-Artes da Antuérpia no início daquela década, Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Marina Yee, Dirk Bikkembergs, Dries Van Noten e Dirk Van Saene alugaram uma van e dirigiram da Bélgica até Londres para mostrar suas coleções na feira British Designer Show, precursora da London Fashion Week. Eles ficaram conhecidos como os Antwerp Six (seis da Antuérpia) e o que mostraram na capital britânica e, mais tarde, em Paris viria ser uma das transformações mais influentes e duradouras da moda do fim do século 20 até hoje.
Os Antwerp Six em 1987.
Foto: Cortesia MoMu

Como e por que são perguntas que guiam a recém-inaugurada exposição The Antwerp Six, no Museu de Moda da Antuérpia (MoMu), em cartaz até janeiro de 2027. “Eles ajudaram a moldar a história recente da indústria. Temos um imenso orgulho de poder reunir o trabalho desses estilistas icônicos para trazer uma visão única e aprofundada de seu legado e influência”, escreveu a diretora da instituição, Kaat Debo, em comunicado oficial.
O movimento é equivalente à chegada dos japoneses a Paris, no início da década de 1980 – as roupas rasgadas, disformes e desconstruídas de Rei Kawakubo (da Comme des Garçons) e Yohji Yamamoto foram um absoluto choque para o establishment francês. Os belgas não possuíam uma estética unificada, mas compartilhavam de uma mesma ideia e filosofia que ia na contramão do glamour e da ostentação da época.

O grupo em 1985. Foto: Cortesia MoMu
Suas roupas eram práticas, ainda que nada minimalistas. Havia uma rejeição às convenções e ao que se acreditava ser o único caminho para fazer um desfile ou uma coleção. Eles pregavam a independência de suas visões artísticas acima de tudo. Mesmo depois da consolidação de seus negócios e carreiras, poucos (quase nenhum) recorreram à publicidade e celebridades para vender suas peças. O importante era ser fiel ao que acreditavam.
Parte dessa postura é fruto do aprendizado que receberam na universidade. A graduação dos seis da Antuérpia coincide com a contratação de Linda Loppa como diretora do departamento de moda da Academia Real de Belas-Artes. Foi ela que estruturou o curso de maneira a incentivar os alunos a desenvolverem pensamento crítico e linguagem própria. Na época, o governo belga também estava determinado a promover a manufatura local e sabia que, para tanto, era necessário investimentos também em cultura e educação (de moda, inclusive).
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Em 2013, os seis da Antuérpia foram assistir ao desfile de graduação da faculdade em que se formaram. Foto: Getty Images
Apesar das variáveis a favor, o sucesso não foi conquistado sem esforço. Na primeira feira em que participaram em Londres, o grupo foi posicionado no segundo andar do centro de exposições Olympia, longe do fluxo principal de convidados. Foi quando Marina Yee teve a ideia de distribuir panfletos no piso térreo para atrair os compradores. Funcionou. Foi assim que a loja de departamentos Barney’s New York fez seu primeiro pedido. Eles adquiriram a coleção masculina completa de Dries Van Noten e algumas peças de Ann Demeulemeester e Walter Van Beirendonck. A abertura de multimarcas a novos criadores e etiquetas independentes é outro fator decisivo no sucesso dos Antwerp Six.

O desfile de verão 2020 de Dries Van Noten. Foto: Getty Images
Aquelas estreias foram o pontapé inicial de trajetórias bastante distintas. Dries Van Noten foi quem construiu um dos legados mais sólidos e consistentes. Sua aptidão para a combinação de cores e estampas vibrantes virou sua marca registrada e a etiqueta cresceu de maneira independente por décadas. O estilista se tornou um dos nomes mais respeitados do mercado, mantendo o controle criativo da grife mesmo após a venda de parte majoritária de suas ações para o grupo espanhol Puig, em 2018. Em 2024, Dries anunciou sua aposentadoria, encerrando um ciclo histórico e passando o bastão para seu pupilo Julian Klausner. No dia 25 de abril, o fundador da casa inaugura a Fondazione Dries Van Noten, em Veneza, um espaço dedicado às artes (assunto para o Volume 23 da ELLE Brasil).

A apresentação de inverno 1999 de Ann Demeulemeester. Foto: Getty Images
Ann Demeulemeester estabeleceu um DNA romântico acentuado pelo uso recorrente do preto. Sua label virou sinônimo de uma sensibilidade sombria e poética, vestindo e inspirando jovens por gerações. Em 2013, ela deixou o comando da grife, que desde 2023 é liderada pelo italiano Stefano Gallici.

Inverno 1997 de Walter Van Beirendonck. Foto: Cortesia MoMu
Já Walter Van Beirendonck seguiu como o mais experimental do grupo. Ele nunca se acomodou: continuou explorando cores vibrantes, narrativas políticas e referências às culturas pop e queer. Paralelamente, teve papel fundamental como educador na Academia Real, influenciando novas levas de criadores.

Verão 2008 de Dirk Bikkembergs. Foto: Cortesia MoMu.

Inverno 1989 de Dirk Van Saene. Foto: Cortesia MoMu.
Dirk Bikkembergs foi um dos pioneiros do sportswear de luxo, integrando códigos dos uniformes de futebol às suas roupas. A label cresceu significativamente nos anos 1990 e 2000, especialmente a linha masculina. Dirk Van Saene, por outro lado, trilhou um caminho mais discreto. Seu trabalho é conhecido pela alfaiataria precisa e uma silhueta deslocada do corpo. Embora tenha mantido sua grife ativa, nunca buscou escalar a produção, preferindo se aliar a pequenas confecções.

Convite do desfile de verão 1988 de Marina Yee. Foto: Cortesia MoMu.
Marina Yee, a mais misteriosa da turma, era também a mais rebelde. Gostava de desconstruir e ressignificar peças vintage, antecipando as discussões sobre upcycling que hoje dominam o mercado, e nunca se adaptou completamente ao sistema da moda. Após interromper as atividades de sua marca no início da década de 1990, ela retornou somente em 2003. Durante toda a sua carreira, alternou entre criação de coleções, projetos artísticos e figurinos para teatro e ópera. Também foi professora da Academia Real de Belas-Artes de Gante, uma das escolas mais antigas da Bélgica. Marina morreu em novembro de 2025, vítima de um câncer.
Sua influência na indústria se reflete ainda nas criações de Martin Margiela, um dos nomes mais célebres a passar pela Academia Real de Belas-Artes da Antuérpia. Os dois mantiveram um relacionamento por um período e ele a reconhece como uma de suas principais inspirações. Margiela, aliás, é frequentemente visto como uma espécie de membro secreto dos Antwerp Six: contemporâneo ao grupo, ele se formou em 1979 e se mudou para Paris um ano antes da emblemática viagem de van a Londres. Entre 1984 e 1986, o estilista trabalhou como assistente de design de Jean Paul Gaultier e, em 1988, fundou sua própria etiqueta. Em seu primeiro desfile, Marina estava na plateia. “Quando os primeiros looks entraram na passarela, ela começou a chorar. Era ela ali”, lembra Geert Bruloot, curador da exposição e fundador da multimarcas belga Coccodrillo, uma das maiores apoiadoras dos seis, em uma entrevista ao The New York Times, publicada em novembro de 2025.
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A entrada da exposição The Antwerp Six, no MoMu. Foto: Cortesia MoMu.
A influência contínua dos Antwerp Six
A influência dos seis da Antuérpia reverbera até hoje. Grande parte dos nomes que estão atualmente em cargos de chefia nas maisons de luxo se graduou em faculdades belgas, como La Cambre, LUCA School of Arts, Brussels Institut Saint-Luc, além de, claro, a Academia Real de Belas-Artes da Antuérpia. São eles Demna (Gucci), Matthieu Blazy (Chanel), Raf Simons (codiretor da Prada), Anthony Vaccarello (Saint Laurent), Meryll Rogge (Marni), Antonin Tron (Balmain), Glenn Martens (Diesel e Maison Margiela), Pieter Mulier (Versace), Haider Ackermann (Tom Ford), Julien Dossena (Rabanne) e Julian Klausner (Dries Van Noten).
“Acho que é bom ser um pouco outsider”, falou Linda Loppa em entrevista publicada no WWD no fim de março. “Acredito que o nosso sistema educacional seja diferente e menos voltado a moldar. É tudo mais aberto e interdisciplinar”, explicou Pieter Mulier na mesma reportagem. “Nós éramos apenas crianças doidas vindo da Bélgica. Nós mostramos que moda pode vir de qualquer lugar”, acrescentou Dries à revista Vanity Fair em reportagem veiculada naquele mesmo mês. Raf Simons, hoje codiretor criativo da Prada e mentor de Pieter, já disse que os Antwerp Six (e Martin Margiela, claro) foram grandes inspirações e o motivaram no começo de sua carreira. “Não existe uma diretriz rígida sobre como se comportar como um estilista belga. Cada um segue a sua própria intuição e seu modo de criar”, completa Meryll Rogge, agora na Marni, ao WWD.
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