Ralph Lauren: a trajetória do designer que criou uma marca que é sinônimo de estilo de vida
Aos 87 anos, um dos maiores nomes da moda, Ralph Lauren segue ampliando o seu império de lifestyle.
Poucos estilistas alcançaram a façanha de redefinir a forma como nos vestimos, impactando, ao mesmo tempo, silhuetas, comportamentos e modelos de negócio. Ralph Lauren é uma dessas exceções. Talvez ninguém tenha resumido melhor o seu impacto na moda do que Audrey Hepburn, em 1992, quando lhe entregou o Lifetime Achievement Award (prêmio pelo conjunto da obra) do Council of Fashion Designers of America (CFDA), em Nova York. Na ocasião, a atriz afirmou: quando algo é bonito, elegante e, ao mesmo tempo, funcional, “você diz que é ‘muito Ralph Lauren’, e todo mundo entende na hora”. É que o designer nova-iorquino transformou o próprio nome em sinônimo de qualidade, estilo e distinção.

O estilista Ralph Lauren e a atriz Audrey Hepburn, em 1990. Foto: Getty Images
O começo
Ralph Lifshitz nasceu em 1939, no Bronx, em Nova York. Filho de Frank e Frieda Lifshitz, imigrantes judeus vindos da Bielorrússia, ele cresceu vendo o pai trabalhar como pintor de sinagogas. A família morava em um apartamento simples, onde o jovem dividia o quarto com os outros três irmãos.
O sobrenome Lauren foi adotado na adolescência como uma forma de escapar do bullying que a família sofria devido à sonoridade de Lifshitz em inglês. Na juventude, a sua grande paixão era o cinema. Diante das telas, Ralph se projetava no lugar dos galãs e dissecava o visual de Fred Astaire, Humphrey Bogart e Cary Grant. O fascínio pela elegância dos astros de Hollywood esculpiu a visão estética que, décadas mais tarde, se tornaria a espinha dorsal de seu império.
Ralph Lauren cursou administração por dois anos, mas abandonou a faculdade para servir ao Exército entre 1962 e 1964. Ele nunca se formou em moda, mas era conhecido pela intuição afiada sobre o que vestir. “Ralph sempre teve faro para o estilo”, conta Jerry Lauren, seu irmão mais velho, no documentário biográfico Very Ralph (2019), da HBO Max. “Ele encontrava uma jaqueta militar no Bronx e, de repente, todo mundo dizia: ‘Nossa, isso é muito descolado!’”.

Ralph Lauren mostrando sua primeira coleção de gravatas. Foto: Getty Images
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Ainda em 1964, Ralph virou vendedor na etiqueta de gravatas Beau Brummell Ties, após uma breve passagem pela alfaiataria Brooks Brothers. Insatisfeito com a oferta de roupas que encontrava para trabalhar, ele encomendava itens sob medida – inclusive as próprias gravatas. A necessidade pessoal virou negócio três anos depois: aos 28 anos, convenceu o chefe a deixá-lo lançar uma nova divisão de gravatas, vendida inicialmente a partir de uma única gaveta da empresa, em um showroom no Empire State Building.
Batizada de Polo, a linha contrariava a estética slim da época – popularizada pelos publicitários da Madison Avenue, os chamados Mad Men. As opções de Ralph eram largas e feitas à mão com tecidos nobres. “Por que eu queria uma gravata larga? Eu as via no cinema, e não encontrava nas lojas”, explica o designer, no documentário. A aposta deu certo: no primeiro ano de operação, a empreitada faturou 500 mil dólares, conquistando novas vitrines, como as lojas de departamentos Paul Stuart, Neiman Marcus e Bloomingdale’s.
A carreira
Para Ralph Lauren, produzir só gravatas não bastava: ele queria também uma camisa, um blazer, uma calça – o look completo. Em 1968, nasceu a sua primeira coleção de roupas masculinas, composta de um terno branco de flanela e camisas sociais feitas de tecidos até então reservados a peças esportivas.
No ano seguinte, batizou a companhia de Polo Fashions e, em 1970, a Bloomingdale’s abriu a primeira boutique de sua história dedicada a um único estilista dentro da loja. Ralph supervisionou cada detalhe do espaço, dos painéis de madeira aos provadores. No mesmo ano, conquistou o seu primeiro Coty Award, principal prêmio de moda estadunidense da época, na categoria masculina.
O alinhamento entre visão criativa e apelo comercial rendeu frutos de forma acelerada. Em 1971, a Polo já estava avaliada em 4 milhões de dólares e a sua primeira loja física foi aberta na badalada avenida Rodeo Drive, em Beverly Hills, Los Angeles – o começo de uma rápida expansão nacional ainda naquela década, em cidades como Houston, Atlanta, Dallas, Detroit, Chicago, Palm Beach e Fort Lauderdale.

Ralph Lauren beija sua esposa após um desfile, em 1990. Foto: Getty Images
Foi também em 1971 que o logotipo do jogador de polo a cavalo apareceu pela primeira vez no punho de uma camisa feminina, peça que inaugurou as produções para as mulheres. Em 1972, foi lançada a camisa polo de malha piquet. Disponível em cores vibrantes, o best-seller imediato se consolidou como um dos itens mais copiados da história.
A expansão para o guarda-roupa feminino respondeu a uma demanda orgânica: as clientes frequentemente admiravam as coleções masculinas e perguntavam se ele não faria algo semelhante para elas. A maior musa dessa transição foi a esposa de Ralph, Ricky Lauren. Ela personificava um ideal de beleza: uma mulher de atitude natural, que combinava calça jeans, camisa branca com mangas dobradas e a jaqueta emprestada do namorado.

O figurino do filme O Grande Gatsby (1974), foi assinado por Ralph Lauren. Foto: Getty Images
O cinema foi fundamental para consagrar a Polo no imaginário popular. O figurino de O Grande Gatsby (1974) teve peças da marca. Três anos depois, Diane Keaton vestiu coletes e gravatas assinados por Ralph Lauren no clássico Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen. Em 1976, Ralph se tornou o primeiro designer a vencer o Coty Award nas categorias masculina e feminina no mesmo ano.
A partir daí, a Polo transcendeu o vestuário para virar uma etiqueta de estilo de vida. A grife inovou ao lançar perfumes para homens e mulheres simultaneamente em 1978. Dois anos depois, a empresa passou a se chamar Polo Ralph Lauren. E, em 1983, quebrou outro paradigma com a Home Collection, traduzindo a sua estética refinada para lençóis, móveis e decoração de interiores.
A materialização máxima do universo RL ocorreu em 1986, com a inauguração da flagship na histórica mansão Rhinelander, na esquina da Madison Avenue com a 72nd Street, em Nova York. O prédio neoclássico de 1898 foi restaurado para evocar a atmosfera de uma residência de campo aristocrática. “Não estou apenas vendendo roupa”, disse Ralph à revista da grife, na ocasião. “Estou vendendo um mundo, uma filosofia de vida.”

O produtor e rapper Dr. Dre com uma das criações do estilista, em 1996. Foto: Getty Images
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Ironicamente, a etiqueta pensada para a elite gerou um impacto inesperado nas ruas. Em 1988, duas gangues do Brooklyn se uniram para formar os Lo Lifes, grupo que se vestia da cabeça aos pés com peças (frequentemente furtadas) da casa. Para a juventude periférica nova-iorquina, ostentar o logotipo da Ralph Lauren virou uma forma de reivindicar status. A apropriação por parte dessa comunidade foi sacramentada em 1994, quando o rapper Raekwon, do grupo musical Wu-Tang Clan, usou um corta-vento da grife no clipe de “Can it all be so simple” e selou uma relação duradoura da label com o hip-hop.
Na década de 1990, a habilidade de Ralph em transitar entre mundos distintos ficou ainda mais evidente com a criação de duas linhas. Em 1993, nasceu a Double RL (RRL) – batizada em homenagem ao rancho do casal no Colorado. Tratava-se de uma imersão no workwear estadunidense, na cultura vintage e no visual de militares e garimpeiros do século 19: jaquetas de couro envelhecidas, jeans selvedge japoneses, mantas de inspiração navajo e peças com sinais de desgaste. No ano seguinte, veio a Purple Label, o contraponto de máximo luxo. Com foco no mais alto padrão da alfaiataria, a etiqueta provou a amplitude da marca, que agora abraçava desde a rusticidade do Velho Oeste até a sofisticação sartorial italiana.

Ralph Lauren na Bolsa de Nova York, em 1997. Foto: Getty Images
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Em 1997, a companhia abriu capital na Bolsa de Nova York (sob o código de identificação RL), firmando-se como uma das poucas grifes de moda na época a se tornar uma corporação de capital aberto bilionária. Em 2008, a Polo Ralph Lauren se tornou a marca oficial dos uniformes da delegação dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Pequim, parceria que segue firme até hoje. E não parou por aí: a label também expandiu o seu universo para a gastronomia. O primeiro restaurante RL abriu em Chicago em 1999, o Ralph’s chegou a Paris em 2010, e o Polo Bar estreou ao lado da flagship de Nova York em 2015 – cada um recriando, à mesa, a mesma narrativa aspiracional das vitrines.

A delegação dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Pequim, usando uniformes assinados por Ralph Lauren. Foto: Getty Images
Além do sucesso profissional, Ralph Lauren trava uma batalha pessoal publicamente. Em 1987, no auge da carreira, ele passou por uma cirurgia para retirar um tumor benigno no cérebro, vivência que o aproximou da filantropia. Após a morte da amiga e editora Nina Hyde por câncer de mama em 1990, ele fundou centros de pesquisa e instituiu a campanha Pink Pony, uma rede global de combate à doença. Seu impacto inegável na moda foi oficializado em 2025, quando se tornou o primeiro estilista da história condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil do país.

Foto: Getty Images
O boom recente
Se o legado da marca é grande, a consistência da etiqueta também é comprovada pelo momento atual. Segundo relatórios da própria empresa, a Ralph Lauren faturou 8,1 bilhões de dólares no ano fiscal de 2026, alta de 15% em relação ao ano anterior. Foi a primeira vez que a receita da companhia ultrapassou a marca dos 8 bilhões. Por trás dos números, existem alguns fenômenos culturais que ajudam a explicar o sucesso: o retorno do estilo preppy e old money, duas tendências que fazem parte do vocabulário que Ralph passou décadas construindo.
Aos 87 anos (completados recentemente), o fundador segue ativo nas cadeiras de presidente executivo do conselho e diretor criativo da grife, mantendo a palavra final sobre o império que ergueu. Em uma indústria na qual seus contemporâneos já se foram ou aposentaram, ele continua assinando cada coleção como fazia há 60 anos: com a mesma certeza de quem sabe que história quer contar.

Ralph Lauren, verão 2027. Foto: Getty Images

Ralph Lauren, verão 2027 masculino. Foto: Getty Images
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