SPFW N55: Walério Araújo, Fernanda Yamamoto, Santa Resistência e Greg Joey

Últimos desfiles da semana de moda paulista têm homenagens a Elke Maravilha e Maria Padilha, roupas feitas para personalidades específicas e um jovem talento em evolução.


Walério Araújo. | Foto: Agência Fotosite
Walério Araújo. Foto: Agência Fotosite



A SPFW N55 não foi de grandes emoções. Terminado no último sábado (28.05), o evento passou rápido, sem brilho e com público reduzido. Reflexo da realidade financeira de muitos negócios de moda no país, as apresentações foram protocolares, as coleções enxutas e sem riscos. Ousadias, experimentações e tecidos sofisticados não são bem-vindos quando a conta raramente fecha. Es lo que hay.

Porém, mesmo em tempos bicudos, tem quem saiba dar um bom show com roupas que vão além do que espera o mercado e passam longe da apática tendência de básicos e itens com aparência simples.

 

Walério Araújo

“Não é a Lady Gaga não, tá?”, avisa Walério Araújo, em um camarim com o teto baixo demais para os acessórios de cabeça que criou. As peças são interpretações de elementos que marcaram e fizeram parte da vida de Elke Maravilha (1945 – 2016). 

Tem a famosa tiara pontuda, os chifres com a emblemática cabeleira, um chapéu com pérolas gigantes pendendo para frente, outro em formato de peixe (ela era pisciana), do lustre da sua casa, da forma de pudim que usava como cinzeiro (abarrotado de bitucas) e do seu gato Calunga, batizado por Zé Pilintra da Calunga – “toda vez que ia na casa dela, olha para estante e o bicho estava lá me olhando, feito uma escultura”, relembra o estilista.

Walério conheceu Elke pouco depois que se mudou de Pernambuco para São Paulo, aos 20 e poucos anos. A artista pediu a uma amiga em comum que o apresentasse. Daí para frente, não se desgrudaram mais. Viraram amigos, confidentes, colaboradores. “Viajamos juntos, dormimos na casa um do outro. Todo mundo me pedia para ser apresentado à Elke, até Riccardo Tisci jpediu”, relembra.

Mais do que isso, se tornaram a melhor versão do clichê do criador e sua musa. Ele fez muitos de seus looks e ela o inspirou das mais variadas maneiras, profissional e pessoalmente. “Aprendi a me impor, me respeitar e ser quem eu sou, do jeito que sou com Elke”, conta. Uma de suas criações favoritas, é um vestido todo de pérolas que a artista chama de vestido de noiva. Para este mais recente desfile, o estilista reproduziu a peça e mais tantas outras.

A apresentação é como linha do tempo. Começa com interpretações de visuais usados pela modelo nas passarelas de Clodovil e Zuzu Angel, vai para os palcos do Chacrinha (que também ganha sua própria versão) e termina com o que Walério criaria para ela se a diva estivesse por aqui agora. 

Daí vem as silhuetas dramáticas, os adereços de cabeça grandiosos, as botas que ultrapassam os joelhos e encostam nas virilhas e as cores da bandeira LGBTQIA+. E, é importante ressaltar, com uma qualidade de costura e acabamento em plena evolução, como já notada na temporada anterior

“É a homenagem que deveria ter feito para Elke Maravilha em vida”, diz Walério, emocionado.

 

Santa Resistência

Mônica Sampaio, diretora de criação e fundadora da Santa Resistência, já deixou claro que gosta de suas passarelas bem animadas. Depois do samba da apresentação passada, a atual é caliente, apaixonada e em clima espanhol. É que as inspirações da coleção foram duas Marias: Maria de Padilla, amante de Dom Pedro I de Castela, e Maria Padilha, pomba-gira, a entidade das religiões de matriz africana simboliza a mulher passional, livre de convenções, de padrões sociais, de morais e éticas castradoras, livre do domínio dos homens. Daí a profusão de babados, rendas, rosas e uma cartela de cores dividida entre o preto e o vermelho.

 

Fernanda Yamamoto

O show no desfile de Fernanda Yamamoto foi intimista e pessoal. Nesta temporada, a estilista propôs uma inversão do processo criativo convencional: em vez de fazer uma coleção e depois ir atrás de um casting para desafiá-la, primeiro procurou quem queria vestir para, então, desenhar as roupas. Cada item foi pensado e construído exclusivamente para cada um dos personagens – amigos e clientes fiéis da marca ao longo dos seus 14 anos. 

O resultado era visível nos movimentos, caminhar e na maneira como aquelas peças se relacionavam com os respectivos corpos e personalidades. O denominador comum são os plissados, volumes e formas geométricas. Na paleta de cores, preto, cinza e branco com algumas pinceladas de cores vivas, como verde e rosa. 

Pela primeira vez os itens desfilados serão vendidos como peças únicas. Posteriormente, também serão desdobrados para uma outra coleção, “menos conceitual e mais comercial”, como disse Fernanda.

 

Greg Joey

No segundo desfile da Greg Joey, de Lucas Danuello, o clima é mais leve do que o da estreia. E tem motivo: a principal inspiração é o filme “Afogando em números”(1988), todo ambientado à beira mar. Daí a cartela de cores suaves, com muito tons pastel, e a seleção de tecidos com base de algodão tão finos que chegam a ser semitransparentes. Tudo, claro, na silhueta alongada, que já é assinatura do estilista, e decorado com plissados. 

As camisas – de todas as formas – seguem como destaque. As estampas geométricas agora trazem uma série de números em referência à quantificação e qualificação numérica de quase tudo em nossas vidas – até do que não devia. E tem ainda boas propostas de vestidos camisolas de seda, que podem, quem sabe, representar uma boa categoria de produtos para a marca.

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