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Já são sete anos de história. A primeira formação da Teto Preto foi em 2014, e, desde então, o grupo formado nas noites das fervidas festas paulistanas vem tomando os corações dos amantes da música disruptiva e da montação. Ao propor uma brasilidade que mistura o techno ao jam session, estilo de improviso do jazz, eles se preparam para expor a quarta formação, composta de Laura Diaz (Carneosso), Mari Herzer, Matheus Câmara e William Bica. A estreia, não por coincidência, será na Casa de Criadores, nesta quarta-feira (28.01), às 20h.


O quarteto irá apresentar quatro faixas inéditas: Queda pro alto, Jóia, Para sempre vou te amar e Give my money back. Para o dia 07.08, está previsto um show com as melhores músicas do grupo, em comemoração aos oito anos da festa Mamba Negra, onde boa parte dessa história começou. A Teto ainda se prepara para lançar um segundo álbum, Fala, em maio de 2022.

Para marcar o novo começo, um editorial exclusivo foi fotografado por Tatá Guarino. Nas fotos, os integrantes usam um mix de peças de estilistas renomados da cena underground, como Fábia Bercsek, FKawallys, Jalaconda, Anna Operman, BoldStrap, Allan Lenhel e ARTEMISI. Quem assina o styling é ANeco Oblangata, a beleza é de Mika Safro. A direção criativa, de arte e produção do ensaio são de Eduardo Araújo Silva DUDX (@silvaraujoeduardo) e Isabela Alzira.

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Eduardo Araújo, Isabela Alzira e Laura Diaz são, também, responsáveis pelo conceito da sessão. A cantora está no grupo desde o dia zero e conta, em entrevista à ELLE, sobre o novo momento da Teto Preto e sua visão a respeito da moda nacional.

Como surgiu a nova formação do grupo?

O Loïc (Koutana, ex-integrante) está lançando sua carreira solo. Com a saída, ficou esse enorme espaço para preenchermos criativamente. A Mari e o Matheus, que chegaram, são dois produtores, músicos e artistas da Mamba. A nova formação é, também, um espaço para eu desenvolver mais a performance da dança, tomar os palcos e o coração das pessoas. A pandemia trouxe várias mudanças; foi um momento gostoso apesar das tretas, porque viajamos bastante até 2019 e início de 2020, rodando o mundo com nossa música. Mas, foi o momento de a gente se enclausurar. Voltamos a ensaiar na garagem, duas vezes por semana, e estamos na composição do segundo disco, chamado Fala. Estamos trabalhando bastante próximos da Mamba. Eu, inclusive, moro com o Matheus, e é legal essa formação 100% Mamba. Também é fantástico ter outra mulher na banda depois de tanto tempo. Acredito que seja uma vitória geracional da cena. A gente topa tudo, vamos atrás do que parece ser uma bagunça e vamos tocar em lugares inusitados. Acho que estamos mais punks nessa volta.

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O que podemos esperar das novas faixas e dessa nova fase do Teto Preto?

Teremos essas duas estreias, na Casa de Criadores e com esse ensaio, que materializa muito do que vamos produzir e trabalhar. Ele tem a ver com as imagens que lançamos, como uma transição dos figurinos que se expandem para a banda e desenvolvem as outras personas. A outra formação era carregada na minha performance e na de Loïc, foi uma delícia e enorme privilégio. Então, agora é legal essa transição porque o Teto é uma banda. Essa mudança na formação e no front me deu coragem para buscar um trabalho mais rigoroso de corpe e coreografia com a bailarina e coreógrafa Juana Chi. Já vamos apresentar um pouquinho desse trabalho nestas duas lives. Ter essa mudança de como os produtores se colocam, esse dinamismo entre os instrumentos e em nossa propria dinâmica. Nesse show da CdC, vamos apresentar quatro músicas inéditas que dão o gosto do disco, e para o show oficial, preparamos com carinho um repertório com reajanjos inéditos. Ainda neste ano, esperamos conseguir lançar mais de um single com clipe para preparar o segundo disco que prevemos para o início de 2022.

Sobre o que falam as quatro músicas?

A primeira faixa se chama A queda para o alto. É sobre Anderson Herzer, tio de Mari, e seu livro, que é um dos primeiros relatos de um homem trans no Brasil. É uma obra maravilhosa, permeada por violência, mas muita vontade de viver, com uma poesia singela e contundente. Ano que vem o livro completa 40 anos. Sentimos que o Anderson entrava como uma figura como a de Safo, no (álbum) Pedra Preta. Ele também estará presente no segundo disco. A segunda faixa é Jóia, do Caetano. Tocamos no começo da banda e fizemos um novo arranjo maravilhoso. A terceira é Para sempre vou te amar, que escrevi pro Loïc. Por fim, a última é Give my money back. Ela já havia aparecido em improvisos na história do Teto e é a primeira em inglês que vamos lançar. Tem um arranjo super elétrico e pensamos em quando for possível voltar para o mundo. Quando o Teto viaja para os lugares, sempre nos conectamos com os artistes da cena queer local e não queremos só o reconhecimento e sermos usamos como a 'cota da cena LGBTQIA+'. Queremos dinheiro e poder pagar nossas contas, aluguel e etc.

E o que você, como Laura, espera dessa nova trajetória?

Sinto que eu e a banda ganhamos na loteria cósmica. Acho que é muito forte que a Teto exista e resista, tendo coisas para dizer e sempre se reinventando. Um lançamento sempre trouxe novidades e só estamos começando. Tem uma característica da personalidade das pessoas que estão na formação atual: cada um traz sua própria identidade que se soma ao universo da banda. Sinto a canção brasileira muito presente, o punk, talvez um pouco do grime, o tecnomelody… se preparem, porque vai ser muito legal. A Teto sempre foi underground, mas tirando uma onda do pop. Quando fazemos isso, falamos que a grana está rolando nesses lugares. Nosso desafio é acessar esses lugares sem abrir mão do nosso som e de fazer o que queremos. Então, estamos sempre cutucando essas discussões do cenário mainstream.

Vocês irão se apresentar na Casa de Criadores, evento de moda autoral que também tem uma veia disruptiva. Estão animados? Já conheciam ou eram próximos da Casa?

Amo e sempre amei a Casa. É muito fértil para noves artistes, noves estilistes, mulheres e pessoas LGBTQIA+. O evento vem trilhando um caminho fantástico de transcender os limites da discussão da moda. Estamos discutindo arte, política, música… A Casa, como poucos espaços da moda, vem se atualizando e criando uma conversa viva. A Fábia (Bercsek) é muito importante na vida do Teto e veio do evento. Nossa banda já performou lá e fomos bem recebidos e acolhidos por André (Hidalgo) e sua equipe. No ano passado, integrei o equipe de edição, promo e finalização da Casa de Criadores à convite de Eduardo Araújo, diretor criativo da Casa de Criadores. Tive o privilégio de trabalhar ao lado da parceira e também multiartista Isabela Alzira. Neste ano, me sinto em casa, acolhida e representada nesse time de pessoas. Sinto prazer e admiração.

Como a Teto usa a moda nas performances, músicas e na própria construção da banda?

Acho que quem fala que não discute moda está mentindo ou é ignorante. Todas as questões, em nossa sociedade, passam por ela. A gente faz uma música que é indissociável da moda, da política e do figurino. Na figura de Carneosso, eu trouxe essa discussão de cara. Como cantora e musicista, me identificando como uma mulher cis, entendo que, ao menos no Brasil e na indústria, ainda somos um pedaço de carne. Tudo o que não deve ser censurado, é. Então, sempre jogo com essa questão da nudez sem necessariamente sensualizar. O corpe da mulher só pode existir na indústria desde que esteja em função de algum fetiche, do patriarcado e da manipulação. Acho que quando coloco essa discussão da nudez, é quase como se fosse uma maneira de a gente se empoderar dessa violência que nos é imposta até mesmo antes de sairmos do útero.

Como você enxerga a implicação da moda, a partir disso?

Acho que a moda é uma ferramenta na construção da identidade de cada um, e a discussão central devia ser essa, de ninguém estar no direito de definir o que o outro é ou deve fazer. Espero que a moda possa se desenvolver mais para um caminho não-binário. Parece que ainda estamos em séculos passados, porque ainda temos a roupa de mulher e a roupa de homem. Minha dica para a moda é, melhorem. Em segundo lugar, ela poderia falar mais de corpos plurais. Acho que se as próprias marcas não tomarem essa iniciativa, o mercado não vai mudar.

Qual cenário você visualiza na moda brasileira?

Quem me apresentou a Fábia foi Igi Ayedun, uma das guerreiras que tem abalado o mundo da arte e da moda. E quando comecei a ter o contato com a Fábia, minha impressão foi de que é impossível fazer moda no Brasil, assim como fazer música e cultura. A moda é uma indústria, então, acho que deve haver ações federais, que pensem na linha de produção. Admiro as marcas que estão resistindo mesmo nesse cenário complexo. Além disso, para remunerar decentemente os envolvidos, é preciso muita integridade, mas vemos isso desaparecer quando as marcas ficam grandes. Diria ainda que, para falar de moda, temos de falar da indústria têxtil. Mas, acho que de alguma maneira os corpes estranhos e iniciativas periféricas estão na vanguarda. Falta para os branques e as pessoas que têm privilégios de fato incluírem pessoas pretas no processo de produção, e não só para utilizar de 'bandeira'. Você vê muito isso na política da lacração, mas quando procura como as coisas são de fato produzidas, vê a fragilidade. Mas, não vamos falar de quem é uó, vamos falar de quem está firme.

Este texto foi atualizado em 28 de julho de 2021.

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