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A crise da Covid19 tem causado dois tipos de mortes no Brasil: pela doença e também pela fome. Mais da metade dos brasileiros não se alimenta direito, alertam pesquisas recentes. Em abril, foi divulgado o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia, um estudo realizado em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020.

Os resultados mostram que nos três meses anteriores à coleta de dados, apenas 44,8% dos lares tinham seus moradores e suas moradoras em situação de segurança alimentar. Isso significa que em 55,2% dos domicílios os habitantes convivem com a insegurança alimentar, um aumento de 54% desde 2018 (36,7%).

Em números absolutos, isso representa uma multidão de 116,8 milhões de brasileiros sem comida suficiente, um número que supera a soma da população dos estados do Sul e do Sudeste: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Desses, passam fome 19,1 milhões, o que representa 9% da população brasileira. Para ter uma ideia do tamanho, é o correspondente a toda população das cidades do Rio e São Paulo juntas.

Um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado no dia 8 de abril revela que, durante a pandemia do novo coronavírus no Brasil, a população que vive abaixo da linha da pobreza aumentou consideravelmente. Segundo os dados divulgados, o número, que era de 9,5 milhões em agosto de 2020, quase triplicou: saltou para mais de 27 milhões em fevereiro de 2021.

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O caos sensibilizou parte da outra metade do país que, apesar de sofrer sérios abalos, consegue se alimentar. Têm surgido diversas ações espontâneas dedicadas ao combate à fome. Por exemplo, a Unidos do Bem, capitaneada pelo empresário Carlos Kaufmann, dono do buffet Villa Glam, em Moema, bairro nobre paulistano.

Em março do ano passado, ao ver lotadas de insumos a despensa e as geladeiras de seu bufê por causa de dezenas de eventos adiados, o empresário teve uma ideia: usar sua infraestrutura, equipe e alimentos para distribuir marmitas pela cidade.

Assim, mantinha seus funcionários empregados e alimentava a população de rua – que ficou ainda mais vulnerável, uma vez que a maioria costuma fazer suas refeições graças à generosidade de donos de bares e restaurantes, que precisaram fechar as portas na quarentena.

O projeto iniciou com 50 quentinhas por dia, em 30 de março de 2020. Como uma corrente do bem, amigos foram chegando e o espaço se transformou em uma verdadeira fábrica de marmitas, que funcionava de domingo a domingo. Mobilizou mais de 260 voluntários que, em maio, alcançaram o pico de 3.200 refeições distribuídas diariamente.

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A proposta da turma é ajudar a acabar com a fome em São Paulo. A ação que começou de forma orgânica, no boca a boca, acabou se profissionalizando e gerou a Associação Unidos do Bem, formalizada em setembro.

A "fábrica de marmitas" no bufê se manteve até outubro. Depois, a proposta foi transferir esse molde de produção para cozinhas comunitárias nos bairros carentes paulistanos, com a expertise da Associação Unidos do Bem.

Na cozinha do Villa Glam, chefs voluntários ensinam líderes de entidades parceiras, que atuam diretamente nas comunidades, a preparar refeições balanceadas, utilizando especialmente a soja, uma proteína com um custo mais acessível e muito nutritiva e saborosa, se devidamente preparada. "Também fizemos parcerias com ONGs e logo vamos começar oficinas para treinar moradores da comunidade para atuar no ramo da alimentação. Nosso intuito é ensinar a pescar e não apenas 'dar o peixe'", diz Kaufmann.

Hoje, a Unidos do Bem arrecada cestas básicas por meio de um drive-thru mensal e um site para doação. Tudo é distribuído para 20 associações parceiras, alimentando cerca de 3 mil pessoas por dia. Somente em março, a turma conseguiu quase 10 toneladas de alimentos, que provisoriamente lotaram a pista de dança do Villa Glam. "Como boa parte do meu setor, meu negócio também foi abalado pela crise. Mas é impossível não olhar para o entorno, perceber a fome e não se comover. Percebo o crescimento da Unidos como algo além de mim, além dos voluntários, vejo como um movimento divino", acredita Kaufmann.

Chefs em ação

Movimento semelhante ocorre na Zona Norte paulistana. Um dos mais premiados restaurantes do Brasil, o Mocotó está localizado na Vila Medeiros, um dos bairros com os piores Índices de Desenvolvimento Humano da cidade de São Paulo (ocupa o 56º lugar de 73 distritos). Como todos os estabelecimentos da cidade, o time precisa lidar com o abre e fecha à mercê das evoluções e regressões das fases vermelha, amarela e verde pautadas pelo coronavírus. Diante de tantas oscilações, um único cenário é certo: todas as manhãs, pelo menos 100 pessoas formam uma fila que vai bem além da porta do local e dobra o quarteirão. São mães, pais e crianças da vizinhança, pessoas que perderam o emprego ou tiveram a vida ainda mais dificultada devido à crise do coronavírus, todos em busca de uma marmita para saciar a mais básica das necessidades: alimentar-se.

Na quentinha preparada pela "família Mocotó", entram alimentos orgânicos e iguarias como shimeji, o mesmo cardápio que alimenta Rodrigo e seus funcionários. O chef entende bem esse drama. Cresceu ouvindo que o sonho do pai, seu Zé, era ser rico o suficiente para poder comer até matar sua fome. Para aplacá-la, migrou de Pernambuco para São Paulo e abriu uma pequena Casa do Norte na Vila Medeiros, que se tornou berço do hoje premiado Mocotó. "Assim que veio a pandemia, percebemos o impacto devastador e, em 21 de março de 2020, colocamos em prática o programa Quebrada Alimentada", diz a historiadora Adriana Salay, casada com Rodrigo e idealizadora da ação ao lado do chef.



Hoje, o Quebrada Alimentada atende 350 famílias cadastradas da região (o que significa atender cerca de 1.400 pessoas), distribuindo, além das marmitas, cestas básicas. Em 2021, a distribuição de alimentos em quilos tornou-se o principal. "Doar alimentos em quilos, como arroz, feijão, macarrão e molho de tomate, não garante a mesma qualidade de nutrição de uma marmita. Mas é uma opção mais procurada pela população vulnerável, especialmente a partir de 2021, por atender mais pessoas da família", acredita Adriana. Ela e Rodrigo bancam metade dos custos do projeto. Os demais gastos são cobertos por doações. Entre os apoiadores mais fiéis, estão o grupo Fasano e o Arturito, da chef Paola Carosella.

O casal ainda não tem definido o futuro da Quebrada, mas tem certeza de que o projeto permanecerá pelo menos durante o próximo ano. "A fome sempre foi um problema histórico do Brasil, mas, hoje, as três instâncias do governo – prefeitura, governo do estado e federal – não têm como prioridade o combate à miséria. A sociedade civil precisa se unir para minimizar tantos prejuízos de tantos desgovernos", acredita Adriana, doutoranda em História pela Universidade de São Paulo, que escreve uma tese sobre a fome.

Retrocesso

"Já havia dez anos que não focávamos na arrecadação de alimentos. Estávamos indo para um segundo momento da Ação, que mirava a capacitação para o mercado de trabalho, quando percebemos, já na crise de 2016, que o Brasil retrocedia rapidamente ao mapa da fome", diz Daniel Souza, presidente da Ação da Cidadania.

Em janeiro do ano passado, a equipe decidiu voltar a atuar no recolhimento de cestas básicas, com a campanha Brasil Sem Fome, e desde então não parou. Até o momento, a cruzada arrecadou 7,8 toneladas de alimentos, que beneficiaram 2 milhões de pessoas em 26 estados brasileiros.

Daniel é filho do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que criou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida em março de 1993. Foi um marco para acordar a consciência e a responsabilidade adormecidas na sociedade brasileira. A proposta é deixar de esperar ações estruturais do Estado e estimular o gesto imediato e solidário de cada brasileiro pessoa para acabar com a fome no Brasil. A partir dessa ação, outras surgiram com essa mesma lógica de tomar iniciativas e também pressionar o governo.



"Estamos em uma tempestade perfeita, com a junção de um governo que faz vista grossa aos problemas sociais e uma pandemia mortal. Nossas ações representam uma gota no oceano diante do que o poder público poderia e deveria fazer. Mas não há outra opção: precisamos nos unir e estancar a sangria da fome, um problema que afeta diretamente ou indiretamente toda a sociedade brasileira", diz Daniel de Souza.

Confira como ajudar os movimentos contra a fome

Ação da Cidadania

Movimento criado em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que visa acabar com a fome, a miséria e fortalecer a cidadania. Clique aqui para fazer sua doação.

Anjos da Noite

Grupo composto por pessoas de todas as idades, de várias denominações religiosas que voluntariamente doam, além do seu tempo, alimentos, roupas, agasalhos, calçados, cobertores a pessoas em situação de rua. Clique aqui para mais informações.

A Arte do Aliment(o)ar

A estilista e designer Bruna Pegurier e o chef Pedro Pineda se juntaram para arrecadar fundos para a ONG Gastromotiva, que leva alimentação para a população vulnerável. As pessoas que fizerem doações pela plataforma Sharity vão concorrer ao sorteio de cinco esculturas de porcelana, criadas pela dupla, que reproduzem o formato de tradicionais massas italianas. Para fazer sua doação e concorrer às peças, clique aqui.


Foto: Divulgação


Banco de Alimentos

A ONG combate o desperdício e alimentar milhares de pessoas em situação de insegurança alimentar. Clique aqui para mais informações.

Movimento Panela Cheia Salva

Diante desta situação de calamidade, a CUFA, a Gerando Falcões e a Frente Nacional Antirracista, com o apoio do União SP e cooperação da Unesco, uniram esforços para criar o Movimento Panela Cheia em busca de arrecadar recursos para a compra de cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade. Clique aqui para mais informações.

O Amor Agradece

Grupo de voluntários que se organizam para preparar e distribuir marmitas para preparar e distribuir marmitas para pessoas em situação de rua. Clique aqui para mais informações.


Quebrada Alimentada

Movimento liderado pelo chef Rodrigo Oliveira e sua esposa, a historiadora Adriana Salay, que beneficia cerca de 1400 moradores da periferia de São Paulo. Clique aqui para fazer sua doação.

Unidos do Bem

Associação de voluntários sem qualquer vínculo político ou religioso que alimenta cerca de 3.000 pessoas por dia em São Paulo ao abastecer e treinar cozinhas comunitárias. Clique aqui para doar uma cesta básica.

Mães Sem Fome

A L'Oreal Brasil criou o programa "Mães Sem Fome", que visa ajudar famílias que foram afetadas pela pandemia de coronavírus. Serão doadas 5 mil cestas básicas a mulheres chefes de família nas comunidades do Complexo da Maré, Morro da Providência, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e também em São Paulo.

Quem quiser colaborar com o programa, pode participar por meio da campanha de financiamento coletivo "Tem Gente Com Fome", organizada pela Coalizão Negra por Direitos. O dinheiro arrecadado é revertido não só para o projeto "Mães Sem Fome", mas para uma variedade de ações emergenciais voltadas ao auxílio daqueles que foram mais prejudicados pela Covid-19.

Esta reportagem foi atualizada em 23 de julho de 2021.




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