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Hoje a ELLE vai ouvir travesti novamente! Meu nome é Leandra Du Art (@leandrinhadu) e dispenso apresentações para chamar sua atenção. Eu quero que olhem para o meu corpo, atentamente, um corpo trans, um corpo que busca hackear espaços como estes para sobreviver às estatísticas no país que elimina pares dos meus aos montes. A licença para caçar corpos como os meus, endossada pelo ódio instaurado em nosso país, nos obriga a criar estratégias para nossa existência minimamente digna. Hoje, dia 29 de janeiro, é o dia da visibilidade trans e quero que leiam atentamente e se lembrem de uma travesti.

Enfrentamos olhares pesados e preconceituosos na superfície. "Dizem" que a travesti é uma sobrevivente, seu brilho ofusca guerras, seus cabelos cobrem lágrimas, suas maquiagens escondem feridas, seu sorriso sela a maldade despejada em seus braços. O impacto que a sociedade humana não quer sofrer é o desconforto que muitos dizem temer. Somos a provocação nítida do preconceito deles.

Lutamos contra a mãe natureza para conquistar o equilíbrio de nossos corpos e almas, pagamos o mais alto preço para tentar nos adequar, na esperança de viver, talvez, livremente. Condenadas a centenas de anos às esquinas: é a única alternativa que resta para a maioria de nós. Muitas vendem seus corpos para homens sem brilho, pois não podem trabalhar como as demais pessoas, já que não são aceitas. E, quando são, elas têm uma sociedade inteira que não é preparada para vê-las ocupando tal lugar.

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Nos tornamos segredos de homens, o material mais procurado em sites de pornografia no Brasil – o mesmo país que responde pelo mais alto índice de assassinatos de travestis em todo o planeta terra. Somos consumidas e mortas pelos mesmos homens que nos procuram em segredo. Somos forçadas a ver as pessoas com outros olhos, preparando sempre para nos decepcionar, programadas para não nos entregarmos facilmente. Para as mais experientes, sofrer por amor acontece raramente, só que constantemente elas sofrem caladas pela falta dele.

O nosso único e maior desejo é que sejamos um dia mais respeitadas, ouvidas, que possamos ocupar espaços sem causar desconforto em quem está do lado. Mas não duvide: enquanto isso não acontece, seremos com o maior orgulho o desconforto. Incomodaremos o quanto pudermos nessa busca por ser mais feliz, livre, liberta, sobrevivente. Pois isso é ser Travesti.

Leandrinha Du Art é escritora, fotógrafa, feminista e ativista PCD e LGBT.


Formada em arquitetura, a maquiadora, educadora em beleza e mestre em filosofia Magô Tonhon combina seus múltiplos saberes para injetar diversidade e inclusão no mercado em que atua.


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