Maison Margiela, inverno 2026
Em desfile na China, Glenn Martens, diretor criativo da Maison Margiela, destaca a importância do processo de criação com roupas amassadas, corroídas e propositalmente imperfeitas.
Desde a sua fundação em 1988, a Maison Margiela nunca havia apresentado uma coleção fora de Paris. Até hoje (01.04). Pela primeira vez, a grife organizou um mega desfile na China, mais especificamente em Xangai, no último dia da semana de moda local.

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação
Leia mais: Paris Fashion Week: Maison Margiela, verão 2026
A apresentação aconteceu em uma doca de containers, com os convidados sentados dentro de alguns deles. A cenografia é simbólica e representa, sobretudo, o potencial comercial chinês. As roupas, no entanto, expressam qualidades menos industriais e colocam a manualidade no centro da narrativa. De um modo geral, é tudo sobre a construção e desconstrução elementares aos processos criativos da marca.
Entre peças de prêt-à-porter e de alta-costura, os tratamentos de superfície são o grande destaque, tanto nos itens usuais quanto nos impraticáveis – algumas criações não serão comercializadas, já afirmou a maison. A alfaiataria recebe camadas ultrafinas de jersey coladas sobre o tecido plano, criando uma ilusão de segunda pele. Um dos corpetes é feito de fios de aço inoxidável e um vestido longo foi criado com 500 pedaços de porcelana, como um mosaico. Uma tapeçaria do século 19 ganhou bordados de lantejoulas metalizadas antes de ser moldada sobre o corpo com moulage.

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação
Leia também: Maison Margiela Artisanal, 2025
Um dos visuais dourados ostenta aplicações de folhas de ouro, e seu bustiê foi desenvolvido a partir de uma técnica de molde sobre joias antigas. Colares, pulseiras, aneis e brincos encontrados em mercados de antiguidades foram agrupados sobre um busto. O conjunto de acessórios foi coberto por látex e a borracha que resultou no formato negativo dos itens vintage virou roupa.
Em forte contraste com o cenário, uma das principais inspirações foi o conceito de um mercado de pulgas. A explicação tem a ver com o reaproveitamento e ressignificação que informam o processo criativo da maison. Não à toa, um traje original da era eduardiana foi reutilizado com aplicação de cera de abelha para dar a impressão de congelamento de movimento.
Daquele mesmo período vêm vestidos de renda, com pequenas mangas bufantes, golas altas e colos destacados. A combinação de texturas corroídas e superfícies envelhecidas reflete o atual desejo da moda de se reaproximar do toque humano e se afastar da uniformidade digital. Aqui, essa imperfeição proposital também está ligada ao legado da marca.

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação
Leia também: Glenn Martens é nomeado diretor criativo da Maison Margiela
Há ainda um tom sombrio e melancólico no ar. Os looks de organza são quase fantasmagóricos, com camadas do tecido tingidas por aerógrafo e drapeadas para criar um efeito enrugado – esta técnica é uma assinatura de Glenn Martens desde os tempos como diretor criativo da Y/Project, entre 2013 e 2024.
As máscaras escondem a identidade dos modelos para concentrar a atenção nas roupas, como propôs Martin Margiela desde o início. Ao mesmo tempo, os acessórios reforçam a sensação de fragilidade e contenção. O caminhar também provocava desconforto. Além da visão comprometida, alguns look pareciam bastante rígidos. Vale lembrar que a tensão é um recurso assumido por Glenn, desde a sua estreia, em julho do ano passado, quando cobriu alguns rostos com plástico e metal.

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação

Maison Margiela, inverno 2026. Foto: Divulgação
Leia também: Maison Margiela Artisanal, verão 2024
Todo o aspecto conceitual não deixa de lado o objetivo comercial. Na passarela, isso fica evidente com acessórios de forte apelo de venda, como a bolsa box, de base retangular e alças tote, além dos consagrados sapatos Tabi e dos novos modelos heel-less, em que o salto permanece oculto na própria estrutura do calçado.
Afinal, a decisão de desfilar na China integra uma estratégia de expansão da marca na Ásia. O Japão já é o seu principal mercado consumidor e, desde a entrada da casa no território chinês, em 2019, já foram abertas 26 lojas físicas. Embora o perfume lidere as vendas, a empresa identifica um amplo potencial de crescimento com o vestuário.
Nesse contexto, a agenda de ativações no país vai bem além do desfile. Ao longo do mês, quatro exposições ocupam cidades distintas para dividir com o público, de forma gratuita, o que a maison tem de mais forte: A primeira abre em Xangai na sexta-feira, dia 3, reunindo 58 originais da linha Artisanal, a ala de alta-costura da grife. Pequim recebe uma mostra dedicada às tradicionais máscaras, enquanto a história do icônico calçado Tabi será contada em Chengdu e a da técnica bianchetto, que recobre objetos com tinta branca, ganhará destaque em Shenzhen.
O retorno à capital francesa, porém, já está marcado: em janeiro de 2027 no calendário de alta-costura e em setembro do mesmo ano para o de prêt-à-porter.
Leia também: Martin Margiela, o homem invisível que transformou o jeito de se fazer moda
Para ler reportagens e séries especiais, assine a ELLE View, a área exclusiva da ELLE para assinantes.



