PFW: Chanel, verão 2027
Matthieu Blazy continua deixando as roupas e o universo da Chanel cada vez mais leve, agora incorporando novas silhuetas e materiais.
Hoje (06.10) faz exatamente um ano que Matthieu Blazy apresentou sua primeira coleção como diretor criativo da Chanel. De lá para cá, o que ele conquistou não é pouca coisa.
Na temporada passada, as lojas da marca tiveram uma movimentação superintensa após a chegada dos seus primeiros produtos. Dali em diante, começaram a pipocar sapatos bicolores de bico quadrado, os jeans venderam feito água, as bolsas viraram objeto e as camisas Charvet idem.
A crítica e a imprensa também amaram as roupas de Matthieu. Mais ainda sua visão sobre a maison e a moda de luxo como um todo. É um olhar abrangente, positivo, generoso até – no sentido de nos oferecer novos entendimentos, conhecimentos, criatividade e possibilidades.
Como vimos no desfile de verão 2027, na noite de ontem (05.10), esse ponto de vista não para de se expandir.

Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação
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A metáfora por trás dos 95 pássaros suspensos no cenário tinha a ver com alçar voos, liberdade. No caso, liberdade de vestir o que e como quiser. E de criar também. Sem tantas amarras ao passado ou aos tais arquivos que assombram marcas históricas.
Não que a coleção desconsidere o legado de Gabrielle Chanel. É só uma interpretação mais aberta, espontânea e atual sobre ele. A apresentação, aliás, foi construída em cima de diferentes momentos, reais e imaginados, da vida da estilista.
![]() Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação |
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O primeiro bloco é dedicado à infância da couturière, no fim do século 19. Começa com um vestido branco, meio lingerie e a bolsa 2.55 original (a primeira) de Coco, em si. Na época, ainda sem muita autonomia, ela era obrigada a usar o que todo mundo vestia: trajes eduardianos, com espartilhos e um tanto de decorações. Tudo o que ela odiava e veio a abolir tempos depois.
Não se trata de uma abordagem histórica, não exclusivamente. O olhar para o passado também se explica por desejos do presente. As saias esguias – com fendas frontais e traseiras para melhor movimentação –, e as jaquetas com amarrações ajustáveis nas costas, tipo um corset, são uma demanda de parte da clientela que não se dá bem com a silhueta quadrada e solta que Matthieu tomou para si na Chanel.
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A segunda parte do desfile cobre o período em que Gabrielle já tinha sua maison, fazia as próprias roupas e experimentava com o guarda-roupa masculino. Aqui o terreno é conhecido. Vários códigos das coleções anteriores do Matthieu são reeditados, aprimorados e ficam cada vez mais leves.
É interessante prestar atenção em como ele vai transicionando e, às vezes, fundindo a silhueta acinturada do século 19 com as formas soltas e geométricas do começo do século 20. O melhor, porém, são as peças de tricô. Matthieu já havia trabalhado com a técnica antes, mas não dessa maneira. Pela primeira vez, a famosa jaqueta Chanel foi feita com essa trama.
Alguns vestidos e blusas, inteiramente bordados, parecem rígidos e superdelicados, mas são bem maleáveis e resistentes. Isso é possível porque a equipe do estilista desenvolveu um novo maquinário capaz de tramar fios, pérolas e outros materiais tudo junto, num tecido só.
![]() Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação |
![]() Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação |
![]() Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação |
![]() Chanel, verão 2027. Foto: Divulgação |
Essas peças são bastante elásticas, o que amplia as possibilidades de uso, manuseio e transporte. Dá para dobrar e colocar na mala, sem amassar. Algumas saias e jaquetas de tweed têm as mesmas qualidades. Quer dizer, não o de tweed tradicional, mas uma versão muito parecida, também feita com um maquinário desenvolvido pela equipe e parceiros da marca. Trata-se de um processo de franzimento de organza ou seda que depois é comprimida para se assemelhar ao tal tweed.
Assim chegamos ao terceiro, último e melhor bloco do desfile: o que Gabrielle faria e vestiria no futuro? Ou pelo menos agora? Vale lembrar que a estilista entrou para a história ao influenciar não só a maneira como as mulheres se vestem e se comportam, mas por refletir em roupas e na moda toda uma revolução cultural. Fez isso não apenas criativa e conceitualmente, como tecnicamente. É aquela velha máxima do design como algo para solucionar problemas, facilitar a vida.
Chanel, verão 2027.
Foto: Divulgação

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Matthieu executa exatamente isso. E sem pesar a mão em intelectualismo, narrativas complicadas ou fantasias mirabolantes. A sequência final de tailleurs é um ótimo exemplo. Os conjuntos variam nos comprimentos das saias, nos acabamentos, tecidos e complementos: camisa Charvet encurtada, blusa de seda, top de tricô ou sem nada por baixo – só a jaqueta sobre a pele, com barriga de fora. Além de fresco, sexy, é divertido. Aliás, todo o processo criativo do estilista e sua equipe parece ter sido bem prazeroso.
Quando Matthieu imagina várias fases da vida de uma mesma mulher e, por consequência, várias versões dessa mesma pessoa, reflete também vários tipos de mulheres e possibilidades de elas se relacionarem com a Chanel. E com a moda também.
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