Um beijo que tivesse um blue

Sobre o mistério dos planetas e uma conjunção astral.


Ilustração: Marcela Scheid



Júpiter e Saturno estão se beijando no céu. Se reencontraram depois de 800 anos. Expansão e restrição, é o papo que corre por aí. Ninguém entende bem o que possam ter em comum, mas parece que tem um lance grande que eles podem fazer juntos. Dançam At Last com a Etta James. “The night I looked at you I found a dream that I could speak to”. A noite em que eu olhei pra você, achei um sonho pra conversar, ou mais ou menos isso. Um sonho que troca ideia. Os sonhos falam sempre, mas não é assim que batem papo. Como é bom ter com quem dizer as coisas, nem toda vez pelas coisas, às vezes só pra poder dizer. Júpiter é expressão da criação. Saturno é engenharia criativa. Juntos eles falam de amor, o grande assunto do universo, mesmo quando se fala de outras coisas, mesmo com todo o não dito. Saturno às vezes quer dividir os nomes e botar tudo numa caixinha de placas que constrói diariamente, como um grande dicionário interestelar. Júpiter tem outro método, mas se relaciona com a importância do registro que leva além, permite consulta. Saturno dá os limites do aprendizado, educação de base. Júpiter reúne as vozes, amplifica a mensagem, dá o passo seguinte. Quando se beijam é eterno, nem sempre romanticão. Saturno precisa ver a porta de saída, mas não quer ir embora. Júpiter abre janelas, vai transbordando. Saturno é mais Saturno ainda com Júpiter, porque Júpiter também amplifica o entendimento do outro, deixa o outro ser quem é. Júpiter com Saturno saca que pra ser grande é preciso ser, e pra ser é preciso limitar, contornar com as mãos, com os olhos, com palavras, tempo e desejos. Observa as mãos de Saturno, enxerga escultura. Saturno olha com cuidado quando Júpiter apresenta seu mar de afetos. Quando vê a grandeza dos propósitos, Saturno fica feliz, gosta do que tem rumo. É pra isso que Saturno trabalha tanto com limites, pra firmar as bases de belezas estelares. Demorou 800 anos pra se acharem assim como agora desse jeitinho. Dias, décadas, séculos. Mas do ponto de vista das estrelas o tempo não é só isso. Júpiter gosta de fazer o melhor de Saturno prosperar, frutificar. É uma super onda. Uma super onda é bonita de se olhar mas tem de se posicionar bem. Esse encontro pega os seres humanos com um hit amoroso, não melado. Dois planetas tão lindos juntos que quem olha da Terra quer logo chamar de estrela-guia. E daí se não for. Esse tipo de cobrança a essa hora da noite não faz o menor sentido. Limite não é prisão, e existe a poesia. A madrugada mudou e com ela as medidas de tudo. Corpos celestes, constelações, uma Roberta Flack suave de fundo. As pessoas têm medo desse beijo astral, por isso tanta explicação, alguns querem se apegar a verdades do passado, querem botar na ponta do lápis. Saturno curte fazer história e contas, mas organiza de uma outra maneira, bem mais bonita, sua lógica às vezes é mal compreendida. Limites justos não são apertados. Júpiter é realce, quer ver crescer, prosperar. O lance com o limite é a qualidade dele, de onde ele sai, como é construído e por quem, com que intenção. Isso influencia gentes e mundos. Cósmica, a claridade da manhã. O Sol. Júpiter e Saturno se olham ouvindo Etta James, levando o sonho pra conversar. Ela canta que o sonho tinha a ver com uma pessoa, tanto que falar com a pessoa era tipo falar com um sonho em si. A letra não diz sonho de quem, que sonho, só um sonho, notem esse detalhe. Um sonho que ela pode chamar de dela porque bateu, um sonho compartilhado. Encostou o rosto e sentiu que tinha algo dela ali, não sabe dizer o quê exatamente, sente uma brisa de liberdade. Pessoas e sonhos misturados, mas não coincidindo, se relacionando mas não se fundindo em uma coisa só. Júpiter e Saturno ouvindo os sons da Terra, mexendo com sonhos em conexão, dançando e dando uns beijos, traçando uns planos, lançando movimentos de grande mudança, renascendo. Serve pra um, dois e dois bilhões, todos diferentes, todos iguais. Tá no céu ainda essa tour, mas quando sair o efeito é duzentos anos. Pensar grande é por aí. É preciso dar um jeito.

2021 vai ser sobre lutar e sonhar na prática, poesia de todo dia, mão na massa que alimenta, barco no mar, trabalho e entrega, amor no que a gente vive e faz.

Mando notícias.

Um beijo, V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

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