Cadastre-se em nossa newsletter para ler este e outros artigos.

Doses semanais de moda, beleza, cultura e lifestyle, além, é claro, de todas os lançamentos da ELLE!
Inscreva-se gratuitamente.

  • ASSINE NOSSA NEWSLETTER
  • O melhor da ELLE direto no seu inbox! Inscreva-se gratuitamente.
  • INSCREVA-SE AQUI
Colunistas

Nada será como antes

Para alcançar um estado de transformação social e coletiva, no entanto, é preciso percorrer os caminhos do aprimoramento interno.

Ilustração @gusbalducci
PUBLICIDADE

A questão que flutua sobre as cabeças humanas nesse período de poucas certezas, muito negacionismo e pressa para que tudo se resolva logo é:

O que aprendemos com a Covid-19?

As respostas são variadas. Aprendemos de um tudo. E não aprendemos nada.

Diante da negação da gravidade do problema, por exemplo, aprendemos o quão nocivo é para o coletivo a falta de coragem para encarar as agruras. Os negacionistas estão tentando se proteger da realidade que salta aos olhos e é comprovada pelas estatísticas que apontam a quantidade de pessoas que morrem diariamente no mundo todo. Mas será que aprendemos a derrubar essa mesma postura negacionista nos nossos assuntos pessoais? Quem nega o visível é porque não tem coragem de lidar com o que ele apresenta. Alguns estão lidando com as fatalidades exaltando uma felicidade que, de tão insustentável, se torna tóxica. Aprendemos a não camuflar nossas angústias com felicidades fugazes como o consumismo ou a atenção exacerbada a vida alheia? Outros estão entregues ao desespero, ou pior, à desesperança. Será que esse período nos ajudou a entender que assumir a desesperança é convidar o caos para ser protagonista de nossas vidas?

Em meio a tudo isso, na busca por algum caminho seguro para minha sanidade, me deparei com os dizeres da Monja Coen: em entrevista para Fernanda Lima, no programa da GNT sobre espiritualidade, ela me deu um insight falando sobre Ichi-go/ Ichi-ê. Gostei e me identifiquei tanto que fui aprender mais. Encontrei o livro Ichigo-ichie, dos escritores Francesc Miralles e Héctor García. Esse livro apresenta o conceito japonês milenar citado pela monja, que propõe como caminho possível reter nas mãos a atenção e a harmonia, que nesses tempos de dispersão profunda, acabam nos escapando e fazendo muita falta.

PUBLICIDADE

Atenção e Harmonia. Quantas vezes você já pensou sobre essas duas características, que são verdadeiros pilares para o desenvolvimento humano?

Há muito tempo que eu nem me lembrava que essas palavras existiam.

Ichigo-Ichie tem duas traduções possíveis, e não tão distintas entre si, que são: "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade". Segundo os autores do livro, o primeiro registro escrito do Ichigo-ichie foi encontrado em um caderno de anotações de um mestre da tradicional cerimônia do chá Yamanoue Soji, em 1588, e dizia: "Deverá tratar teu anfitrião como se o encontro só ocorresse uma única vez durante tua vida".

E essa síntese do Ichigo-Ichie é a que mais importa neste 2020, ano em que convivemos intimamente com a possibilidade da morte. É fato que uma das únicas certezas da vida é a de que caminhamos para o final dela, ou seja, a morte física. Enfatizo o "física" porque venho de uma tradição espiritualista que entende a morte como rito de passagem para outro estado de existência/ consciência. Nas filosofias espirituais de origem Iorubá, bem como em muitas práticas religiosas não ocidentais, apostamos na ancestralidade como certeza da continuidade e ligação entre a presença física e a existência espiritual.

PUBLICIDADE

Mas diante de uma ameaça dada por uma crise sanitária, um vírus ainda pouco conhecido em sua extensão e complexidade, isso adquire contornos que nos assustam e tiram a paz relativa dos nossos dias turbulentos.

Em resumo, a essência do Ichigo-Ichie, essa filosofia que representa o conceito de transitoriedade ensinado pelo zen-budismo, é saber que o que acontece agora não se repetirá novamente, ainda que tudo possa parecer igual.

Depois de ler esse livro, penso que o tédio ocidental, potencializado pelo nosso desconforto nas segundas-feiras e nossa euforia das sextas-feiras, se dá porque não enxergamos que "tudo muda o tempo todo".

Os momentos são únicos e trazem ensinamentos que nos passam despercebidos, potencializando nossas incertezas porque sentimos que não usufruímos deles o bastante para abastecer nosso potencial de transformação interior.

Nosso tempo não está alimentando nossa alma. Porque estamos desconectados dele, logo, ele parece sempre igual.

E não podemos alcançar um estado de transformação social/coletiva se não concluímos nosso percurso de aprimoramento interno.

Ichigo-Ichie nos convida a escutar, observar, degustar, tocar e respirar com consciência. Ou seja, colocar os cinco sentidos em conexão total com a realidade que nos cerca, atingindo, assim, a atenção e harmonia que pode transformar nossos dias em acontecimentos e ensinamentos únicos.

Encarar esse trabalho nos leva a perceber que nossos cinco sentidos estão adormecidos e entorpecidos pelo ritmo frenético das sobrecargas impostas pelo cotidiano acelerado. Estamos robotizados. E por isso o distanciamento foi tão traumático para a maioria e, para alguns, bateu como grande ameaça: só conseguimos estar presentes fisicamente, embora os encontros físicos sejam tomados pela nossa pressa individualista, que não permite viver o momento por inteiro.

Nossa presença tem sido ausência.

Deixamos a mensagem para responder depois, adiamos os encontros, priorizamos as zonas de conforto e esperamos no vazio do imediatismo respostas espontâneas para as buscas que não fazemos.

Ichigo-Ichiê nos ensina a não acreditar nas coincidências, pois quando o fazemos, nos desconectamos dos sinais. No "pré-covid", muitos sinais foram dados. Todo mundo pode reconhecer algum ou alguns desses sinais. Nesse momento onde tudo se tornou areia movediça, a grande lição é viver cada momento. Com consciência e responsabilidade, individual e coletiva, ainda que o grande desafio seja driblar aqueles que ainda estão envoltos no apego à ignorância negacionista. Se conseguirmos trazer presença aos nossos dias, observando, escutando, degustando, tocando e respirando com profundidade, nem que sejam as memórias de tempos onde o contato físico não era uma ameaça, sairemos rumo a 2021 entristecidos com as perdas, mas fortes o bastante para construir outras formas de se relacionar com nós mesmos e com o mundo novo que já está em construção.

Boas Festas.




Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE