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Foto: Reprodução
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Eu já estava praticamente embalsamado, pronto para entrar na tumba e dormir, quando resolvi dar uma última olhada no feed de notícias. Decisão errática, com alto potencial de desastre, eu sei, mas dessa vez não foi tão ruim. Foi até inspirador. Já na cama, leio que a Alemanha acaba de declarar seus clubes noturnos como instituições culturais. Não mais estabelecimentos de entretenimento e, sim, "instalações de propósito cultural".

A medida já vinha sendo discutida há anos por ativistas, e foi liderada no parlamento por membros dos partidos Os Verdes, União (CDU-CSU), Social-Democrata e Liberal Democrático. Com ela, clubes e casas de show tornam-se elementos importantes dos planos de desenvolvimento urbano. Em outras palavras, esses estabelecimentos ganham status de marcos culturais e, portanto, têm garantias legais para resistir à exploração imobiliária e à gentrificação.

Em tempos pandêmicos, com boa parte desses negócios de portas fechadas e com prejuízos desencorajadores, a decisão surge como luz no fim do túnel e salvaguarda para quem ainda não decretou falência. Além de fonte de emprego e renda para muita gente, clubes, festas e casas de show contribuem diretamente com a produção cultural e artística. Trata-se de um reconhecimento – tardio, é verdade – da noite no tecido social das cidades.

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Já escrevi aqui sobre como a suspensão do convívio social, tal qual conhecíamos e podíamos, abalou a criatividade. Não por acaso (e com muita nostalgia), me peguei, nas últimas semanas, revendo e relendo coisas sobre momentos de intensa atividade e trocas interpessoais. Depois de assistir The Human Voice, curta do Almodóvar baseado numa peça de Jean Cocteau, voltei pros dois, suas obras e vidas (todas bastante baseadas em encontros e loucurinhas da noite). Teve também Madame Satã, o filme, um livro do Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro nos anos 1920 (cidade maravilha da beleza e do caos desde então) e a autobiografia da Rita Lee.

Entediado e isolado, decidi, num sábado qualquer, pegar a bicicleta e passar na frente das buatchys e bares que mais frequentei (vou me poupar de revelar essa lista). Amigos sabem bem o quanto gosto de lembrar queles tempos, baphos, músicas e looks. Talvez por isso, nunca consegui guardar em lugares de difícil acesso o livro Babado Forte, da (inspiração constante) Erika Palomino, colunista de ELLE e atualmente no comando da comunicação do MAM Rio.

Não sei quantas vezes reli e folheei esse livro. Tudo bem que sou sagitariano, com ascendente em sagitário. Mas para além dos agitos, das gentes, dos excessos e da soltura, sempre achei a noite extremamente inspiradora. Babado Forte documenta isso, e numa época muito crucial para a moda brasileira (ou pelo menos paulista). O embrião da São Paulo Fashion Week surgiu dentro de um clubinho calorento, boa parte dos estilistas, hoje reconhecidos como referências nacionais esfregavam ombros e tomavam drinks duvidosos em lugares sem saída de emergência.

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E isso não é só no Brasil, tá? Yves Saint Laurent, Karl Lagerfeld e Halston perderam boas horas de sono em buatchys como Régine e Studio 54. Jean Paul Gaultier, Claude Montana e Thierry Mugler também não tiveram aquelas ideias revolucionárias trancados em casa. Vivienne Westwood muito menos. O mesmo vale para Alexander McQueen, John Galliano, Martin Margiela, Raf Simons e Hedi Slimane.

Voltando ao território nacional e a tempos mais recentemente, Rodrigo Evangelista, Mateus Cardoso e Alexandre Pavão são alguns nomes que frequentavam e/ou bebiam das/nas fontes das festas de techno, como Mamba Negra, Voodoohop e Sangra Muta.

Mas não precisamos – nem podemos, de modo algum – nos limitar à moda. Todos os grandes movimentos culturais da história surgiram a partir de relações interpessoais em ambientes mais ou menos parecidos com o que entendemos como clube ou casa de show. Pensem nos cafés de Paris e nos salões da Harlem Renaissance, nos anos 1920, nos cabarés da República de Weimar ou nas rodas de sambas do Rio de Janeiro, no começo da década de 1930. Dá para lembrar das festas de rock da virada dos 50 para os 60, das pistas de disco nos EUA nos 70, e depois, nas garagens e galpões das festas de house. Podemos falar ainda das disputas de MCs, nos primórdios do Hip Hop, e, antes, das danças e looks do Soul Train ou dos bares de Blues.

O modo como nos vestimos, os lugares que frequentamos, os drinks que bebemos, a maneira como nos portamos, tudo isso tem a ver com a noite, com os clubes, com as casas de show e, principalmente, com quem os frequentam. Não é à toa que boa parte da produção cultural – e de moda – do momento expressa a saudade disso ou o vazio dessa ausência.

Tempos difíceis, né, amigas?




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