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Tem muita coisa acontecendo. Mas acabo voltando para o desfile de alta-costura da Balenciaga. E se a couture é território de sonho, é para lá que eu vou. É o desfile de número 51, o segundo de Demna, que, como se sabe, trouxe de volta a maison para as atividades de altissíssimo luxo e luxúria deste que é o mais exclusivo território da moda. Disse ele em entrevista que é o que mais gosta de fazer, de tudo o que faz. Olha, dá pra notar. O que podemos dizer é que essa paixão transparece em cada detalhe do desfile, que recomendo vivamente em um imediato YouTube. Porque como nas melhores apresentações, nada substitui ver as roupas em movimento, em lugar de ver somente as fotos, bidimensionais. Fico imaginando estar dentro da sala, os tapetes brancos, a atmosfera de missa solene, religiosa, sagrada mesmo, o ar suspenso de tensão. Ninguém respira.

Escrevo sobre este desfile porque ele, de muitas formas, me faz lembrar por que gosto de moda.

Quando começaram a sair os primeiros posts com Kim Kardashian no desfile, confesso que torci o nariz. Não vejo graça alguma nessa histeria em torno dela, nunca me conectei com nada desse culto, acho tudo exagerado, tedioso, só não totalmente previsível porque, sei lá, sempre aparece algum fato novo que não faz a menor diferença na fila do pão. Não, até faz. Entendo a potência midiática ali, mas tenho preguiça mesmo. Daí vi a loucura com a mãe, a criança na primeira fila, o desespero dos fotógrafos em torno da turma e me deu mais preguiça ainda. Só que sou fã de Demna. Vejo tudo o que ele faz e entendo seus motivos mesmo quando ele erra. Numa insônia, decidi ver. Perdi o sono de vez e então comecei a devorar cada segundo dessa grande sinfonia. Cuja trilha ele gravou ao vivo, tendo como maestro seu namorade, Loik Gomez, que também desfilou.

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Nesta mesma Elle, meu colega Pedro Diniz faz uma consistente (e mais técnica) análise do desfile, que também recomendo a leitura. Bem como o post de Giuliana Mesquita, no Instagram.


Aqui, nessas mal-traçadas linhas, não vou falar de metaverso. Dedico-me à emoção, e a exaltar Demna como o grande criador de imagens de nossos tempos, o principal artífice da moda como tradutora do zeitgeist, mesmo na alta-costura que, por seu esnobismo, não poderia estar mais desconectada da mesma fila do pão e do nosso dia-a-dia aqui, feito de tristezas diárias no noticiário e na vida real. Tá, voltemos ao sonho.

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Demna sonha com amor um futuro em que seres com cabeça de insetos / avatares, como se disse, em roupas de neoprene japonês escandalosamente bem cortadas e bem acabadas, como se espera do gênero. Mesmo ali, já surpreende. Desdobra os códigos da couture e da elegância com pegada avant-garde, projetando-os para frente, para esse tal futuro que, em verdade, já é o hoje. Os rostos cobertos, ele vem se exercitando neles desde quando era assistente do mestre Martin Margiela, só que é quando caem as máscaras (ou os escudos do anonimato em material tecnológico feito pela fábrica de carros Mercedes) que a alma e a fragilidade humanas emergem, por entre as cordas da orquestra que toca lá de Budapeste na música linda do compositor Gustave Rudman.

Corpos dissonantes entram em cena, mulheres com jeitão de alta-sociedade, meio trêmulas, meio mais velhas; Elise Douglas de cabelo molhado e luvas brancas; as exóticas… Escolha seu personagem favorito ali. O meu é uma loura com uma capa goticona, enorme, atravessando uma floresta imaginária e enfumaçada. Talvez seja projeção.

Roupas com pegada de rua, a mega t-shirt, os jeans, as parkas, as jaquetas bufantes, as cores "erradas", as bainhas sem acabamento, elementos que vêm das calçadas em suas proporções desajambradas para sacudir a bourgeoise. O "masculino" vem em novas formas, sobre-humanas, com quadris e cinturas surreais. A elegia / ironia ao romantismo feminino transborda no absurdo dos vestidos que não passam pelas portas, ao estilo espanhol da casa do estilista dos estilistas, Cristobál, ele mesmo, terminando com um vestido de noiva

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Naomi Campbell, rainha, vem em uma de suas mais memoráveis participações, trazendo a grandeza de uma ancestralidade e de uma força, de uma propriedade, que engole uma Nicole Kidman claudicante em irônica cauda prateada de bombom. Sempre tive pouca paciência para celebridade em desfile, distrai os olhos, então prefiro ver modelos de verdade como Bela Hadid no look 100% Balenciaga por Demna que ela elegantemente apresenta ao seleto público ali aboletado (look 54), releitura do vestido Infanta do original espanhol, por sua vez inspirado em Velásquez, que abre a série desta silhueta que vai explodindo até a idílica noiva rendada que também não passa na porta.

Veja e reveja, cada vez absorva uma camada da inteligência de Demna, que tira a couture da mão dos super ricos para colocá-la na cultura pop e na internet. Tem muita coisa acontecendo.

PS: Erika diz que é mentira que ela quase perde o desfile, ia ver de qualquer jeito. ;-)

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