Moda

Balenciaga e Gaultier apontam para moda de carne e osso

Demna Gvasalia critica ausência em tempos de avatarização da vida com constelação de estrelas, de Dua Lipa a Nicole Kidman, enquanto Olivier Rousteing homenageia o guardião da performance na alta-costura.

Foto: Divulgação Balenciaga
Balenciaga e Gaultier apontam para moda de carne e osso
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Jogue no lixo da memória os tênis sujos instagramáveis, os looks esportivos de pegada pop, as megaproduções que apontam para os temas do noticiário. Esvazie o copo materializado pela moda e o que sobra? O vazio. Não o existencial que remói tudo por dentro, mas o da imagem tátil, aquilo que está parado à nossa frente, mas é bloqueado pelos filtros das redes sociais e pela preocupação sobre como nos apresentamos no universo virtual enquanto que, em carne e osso, caminhamos para o nada, para a ausência que dará vida a um avatar. Demna Gvsalia acendeu alertas sobre esse futuro.

O desfile da Balenciaga nesta semana de alta-costura, realizado na manhã desta quarta-feira (6.7) e que é o segundo depois de a marca voltar ao calendário que havia deixado há mais de cinco décadas, começou exatamente pelo que seria nosso look real em uma vida avatarizada.

BalenciagaFoto: Divulgação

Vestiríamos um macacão liso, daqueles de borracha usados como traje de surfe e que já apareceu pontualmente na passarela do estilista. Nas mãos, haveria apenas a fôrma de uma bolsa, a base que, tal qual a roupa, seria lida pelo dispositivo enfiado na nossa cara num futuro dentro do metaverso. No desfile, essa bolsa também é caixa de som, uma sacada esperta da marca para agradar à clientea mais jovem sempre conectada ao bluetooth.

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Na nova realidade virtual, nada seria tingido do preto total que Gvasalia aplicou nos primeiros looks, mas por um tom vivo, porque, segundo dizem os especialistas que estudam o metaverso, a ausência de cor não seria reconhecida pelos gadgets.

As máscaras do futuro apresentadas ali não lembravam os óculos de realidade estendida já disponíveis no mercado, eram capacetes de vidro que escondiam toda a extensão do rosto, como se o estilista alertasse para a anulação de cada indivíduo incógnito, um adjetivo que, aliás, batiza um dos vestidos suntuosos desfilados pela Balenciaga.

É importante entender os porquês dessa introdução, embalada por um poema que versava sobre o amor, um sentimento que precisa de contato real para se desenvolver. Só aí chegamos à pergunta que a grife parece fazer: o que perderíamos se a ausência fosse a constante de nossas vidas, e mais, de nossas roupas?

Partindo pela moda, as texturas da alta-costura, seara que utiliza o toque para tornar o tecido uma escultura vestível, desapareceria. Então, Gvasalia começa a jogar com as nuances desses relevos, que surge em um primeiro look, ainda preto, e em um segundo, prateado, ambos feitos de brilho texturizado.

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São vestidos com ombros delineados, que dão destaque para as linhas do corpo, ora curtos, ora alongados, como o branco de tweed que finaliza esse bloco de contemplação.

BalenciagaFoto: Divulgação

Na sequência, o estilista georgiano põe os pés no chão, e mistura conjuntos de calças jeans com blusões, amassados e estruturados, que não perdem o foco arquitetônico. A escolha tem a ver com a vontade do diretor criativo em levar os preceitos da couture a uma moda descomplicada, de certa forma mais acessível, embora a palavra talvez não caiba exatamente nos preços que devem ser cobrados nas araras.

Calças de couro, robes com golas enormes, camisaria prensada a quente para deixar os aviamentos arregaçados na medida. Cada detalhe dessas peças “de rua” carrega um trabalho específico de alta-costura.

BalenciagaFoto: Divulgação

Gvasalia versa sobre o que une os mundos real e virtual, o tempo. Alguns brincos e parte das chokers presas aos pescoços são, na verdade, relógios com correntes maximizadas, lembranças de que o presente é muito mais interessante e não vale perder as horas projetando um futuro intangível ou acorrentado ao passado.

Daí que os rostos surgem na cena, com tops do calibre de Bella Hadid, trajada com um longo verde de frente única com ombros abertos no espaço e longas luvas de baile, e Naomi Campbell, que surgiu em um enorme vestido bolo, todo plissado, com uma gola tomando todo o tronco até a nuca.

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BalenciagaFoto: Divulgação

Os volumes de Cristóbal Balenciaga ganharam as costas de vestidos acetinados, e suas caudas, os corpos de estrelas pop como a cantora Dua Lipa, que apareceu com um vestido curto amarelo elétrico, e Nicole Kidman, majestosa num longo prateado construído em moulage.

BalenciagaFoto: Divulgação

Musa de Gvasalia, a empresária Kim Kardashian apareceu de cara limpa, quase minimalista para seus padrões, em um vestido preto decotado, com a parte de baixo cortada em uma fenda enorme. Etérea, ela mostrou uma imagem desconectada do estardalhaço virtual que a tornou símbolo dessa vida digitalizada, cujas bases são opostas aos pilares táteis da alta-costura.

BalenciagaFoto: Divulgação

Demna nos lembra que a beleza da moda está naquilo que se pode sentir e admirar. No último look, o da noiva, um arquétipo que já é praxe no final dos desfiles de couture, ele abre ainda mais as estruturas da silhueta bolo e forra todo o look branco com um véu de flores prateadas bordadas no tule. Pesado, o look encapsulava a ideia de beleza extrema, palpável, o oposto da ausência do início desta apresentação. Uma grande homenagem à couture em estado bruto.

BalenciagaFoto: Divulgação

À tarde, houve uma outra homenagem, só que direcionada a um ícone vivo, de carne e osso. O estilista Olivier Rousteing foi o convidado para assumir nesta temporada a apresentação da grife Jean Paul Gaultier, estilista que por muitos anos foi o guardião performático da temporada.

E foi exatamente performance que o francês que hoje dirige o estilo da Balmain entregou. Rousteing rememorou à audiência quem melhor embaralhou os gêneros –um padrão que, aliás, também foi perseguido por Gvsalia em seu desfile –, quem estruturou os panos para colocar o corpo em evidência e, no início dos 1980, ajudou a colocar a alta-costura no mainstream.

Jean-Paul GaultierFoto: Peter White/Getty Images

O estilista pesou a mão nos sutiãs cônicos da turnê Blonde Ambition, de Madonna, nos corsets usados como roupa de festa e, com reverência ainda maior ao couturier do pop, nas listras de marinheiro usadas pela primeira vez por Gaultier no desfile Homem Objeto, de 1984.

Um tanto confuso em blocos que uniam as estruturas vertidas pela Balmain com uma saraivada de referências às latas dos perfumes Le Male e Classique, ícones da perfumaria mundial lançados por Gaultier, Rousteing tentou abraçar o maior número de referências possíveis.

Jean-Paul GaultierFoto: Peter White/Getty Images

Passearam ali os terninhos com risca de giz –eram, na verdade, aplicações de brilho–, os jeans recortados em bermudas, desajustados pelo corpo, e também os longos com efeito de látex que já foram relidos exaustivamente nas passarelas mas, nesta, ganhou um selo de autenticidade.

A apresentação foi um verdadeiro pout porri da produção prolífica de Jean Paul Gaultier em seus melhores momentos. Não pareceu preguiçosa, porém, porque Rousteing tem nas mãos um talento raro de levar harmonia à arquitetura do corpo, como nas propostas em que joga com a camisaria e os pedaços do smoking para criar longos P&B que são a cara da marca.

Jean-Paul GaultierFoto: Pascal Le Segretain/Getty Images

Performático, o desfile encontrou na temporada um lugar de exaltação ao que vimos no início do dia, um espaço de reflexão sobre os sonhos de costura realizados, vestidos por alguém de carne e osso, algo que nenhum NFT ou novo mundinho virtual pode conjurar por mais sedutor que um escape da realidade possa parecer neste momento.

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