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Cultura

Kaire Jorge, entre o trap e os Racionais MC’s

Filho de Eliane Dias e Mano Brown, ele dá seus passos como sócio da Boogie Naipe, à frente do selo Labbel e nos bastidores do podcast Mano a mano.

Foto: Divulgação/Jef Delgado
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Se você escuta o Mano a mano, já ouviu o anfitrião do podcast, Mano Brown, se dirigir inúmeras vezes a um tal Jorge para perguntar alguma coisa ou refletir sobre o assunto da vez. Talvez você não saiba, mas Jorge é Kaire Jorge, o filho do vocalista dos Racionais MC's e da empresária Eliane Dias. Jorge é uma homenagem a Jorge Ben, de quem Brown é fã confesso. E Kaire tem origem africana, significa "aquele que cuida da terra". Não por acaso, ele vem cultivando seu próprio espaço, enquanto leva adiante um legado de ritmo, poesia e trabalho.

Aos 26 anos, é sócio da Boogie Naipe, criada por seus pais e hoje uma importante produtora artística do país. Seu lado empreendedor não começou na música, mas na moda, com a marca de streetwear Müe, que nasceu em 2013 e encerrou suas atividades dois anos depois. Antes, Kaire trabalhou como ator, ao lado de sua irmã, Domenica Dias, atriz e diretora criativa da marca Yebo, ao lado da matriarca, Eliane. Juntos, protagonizaram Na quebrada (2014), filme de Fernando Andrade, e participaram do clipe "Boa esperança" (2015), de Emicida.

Seu trabalho como produtor artístico começou aos 17 anos com os Racionais. Trabalhando dia a dia com o grupo, ele pôde acompanhar e entender o funcionamento de toda cadeia da produção artística, dentro e fora dos palcos. "Foi um período de muito aprendizado. É claro que tinha esse peso da responsabilidade. Mas eu não estava sozinho nessa, a gente era um time e por isso eu tinha essa força e o apoio da galera que era mais experiente. Pensava, 'manô, se eu errar, vou chorar' (risos), porque não tinha essa bagagem. Ainda bem que não deu nenhum 'xabuzão' por causa da minha inexperiência na época."

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Foto: Divulgação/Jef Delgado

Com formação em marketing e o desejo por ver projetos concretizados, Kaire migrou três anos depois, em 2015, para a produção executiva da Boogie Naipe, que, entre outras coisas, passa por analisar parcerias, contratos, tudo sob o comando da CEO, Eliane. No início de 2020, deu início a uma nova frente da produtora com o selo Labbel Records, direcionado a artistas de trap.

Neste ano, ao lado de um time poderoso, assumiu a produção executiva do Mano a mano, que traz entrevistas de Brown com convidados como Karol Conká, Fernando Holiday, Leci Brandão e Lula. O programa segue invicto na posição de mais ouvido no Spotify desde sua estreia.

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Conversei com Kaire às vésperas do lançamento da mixtape Wokstars, de Yunk Vinu (Labbel) e MC Igu. "Mesmo que eu não seja o artista, o projeto acaba sendo um filho meu também, porque a gente está ali participando de toda construção. Então, é muito gostoso, a gente comemora, celebra, abre champanhe", diz. "Sou um cara muito grato por tudo que já vivi até hoje, tudo que consegui absorver com as vivências que tive, puxando as pessoas para perto de mim para também aprenderem e subirem todo mundo junto como equipe."

Na entrevista a seguir, Kaire, na companhia do seu inseparável cachorro Apolo, fala sobre a responsabilidade de trabalhar com o maior grupo de rap do Brasil e com gerações diferentes de artistas, se mostra bastante aberto em temas como a relação com o pai e o business em família, também comenta a paixão pelo Santos e os planos no automobilismo:

Foto: Divulgação/Jef Delgado

Você viveu um período intenso fazendo produção artística para os Racionais, gerindo projetos. Você se sentiu pressionado ou cobrado?

Claro que tem essa cobrança interna, porque é uma responsabilidade. São 30 anos de carreira (do grupo), né? Querendo ou não, carrego um legado já construído. No trabalho, é mais responsabilidade ainda. Tudo é levado em consideração: como você vai se portar, como vai tratar as pessoas, se comunicar, o respeito com as outras pessoas. Foi um período de muito aprendizado. É claro que tinha esse peso, mas não estava sozinho nessa, a gente era um time e por isso tinha essa força e apoio da galera que era mais experiente. Todo mundo indo junto.

E o show é isso: você tem que tentar antecipar o problema. Se não antecipar, tem que improvisar e resolver. O que não pode acontecer é o espetáculo parar. Então, você se desdobra ali e o espetáculo continua (risos). Deu para diluir esse peso, essa preocupação e transformar isso em outras coisas para poder fazer o trampo fluir. Tive o privilégio de trabalhar com caras muito experientes. Faz totalmente parte da construção da minha trajetória todos os processos (da produção artística) A gente erra, aprende, erra de novo, aprende, né? E é nesse processo que eu acredito e que tem totalmente me ajudado no trabalho que faço hoje.

Você acaba sendo uma ponte que conecta um artista de 30 anos de carreira com outro que tem 24 anos de idade, Yunk Vinu. Como você observa isso?

É engraçado porque acabei sabendo lidar com as duas gerações. Estou imerso nesse mundo do trap. Tenho 25 anos, meu artista tem 24. Então, a gente curte as mesmas coisas, ouve as mesmas músicas, vamos aos mesmos lugares, a gente tem essa sinergia por conta da idade, mesmo. Com os caras (os Racionais) é o seguinte: a gente quase não ouve rap, a gente escuta muito funk, soul, R&B, é uma parada que é dos caras. Em vez de ouvir rap, a referência dos caras são os anos 70 e 80. Mas essa parte artística já é muito aguçada na molecada, o que falta para eles é bagagem, experiência, vivência, um mentor. Nas escolhas a serem tomadas, acabo tendo uma relação diferente do que se tivesse tendo um papel só de empresário – essa relação fica mais fria, né? Acabamos tendo uma relação mais próxima, uma sinergia, muito respeito. A gente se desentende, discorda, depois sempre chegamos num acordo e assim caminha. Já com os caras é diferente pois eles já são estabelecidos no mercado, tem um nome, uma marca. O tipo de trabalho é outro, os projetos e as equipes são maiores, a responsabilidade é outra. Geralmente, a gente divide muito as ideias com os quatro (Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock), mas eles já têm a ideia meio que pronta, sabem como querem todo o processo, já tem algo estabelecido ali. O que faço é levar sempre opções e novidades, uma variedade de projetos para a gente estar em constante movimento. O que eu aprendo com os meninos também levo para eles. O que sei e aprendo lá trago para cá pa passar aos meninos. Acabo sendo, realmente, uma ponte!

"Querendo ou não, carrego um legado já construído"

Como você estabelece essa relação de trabalho com a sua família?

Quando fui trabalhar com meu pai, ele era o artista. Tive momentos muito bons com ele, vários da minha infância que eu lembro: jogos do Santos, jogos de várzea, os rolês pelo bairro, viagens. Na adolescência, tínhamos horários diferentes e isso fez com que a gente desse uma afastada. Às vezes, ele estava gravando e quando chegava, eu já estava dormindo. Durante o dia, ele estava em casa, mas eu saía muito cedo para estudar e passava o dia fora. Então, entre os meus 13 e 17 anos, ficamos afastados, mas por conta de compromissos. Nos reaproximamos nessa fase dos shows (quando Kaire trabalhava como produtor artístico dos Racionais). Na maioria das vezes, dava certo, as coisas fluíam, mas às vezes dava errado também. E os quatro são muito exigentes, muito metódicos, o nível de cobrança é bem alto. Foi uma fase de aprender a ouvir mais, de entender que ali estou como funcionário, como um produtor, para ouvir e evitar debater. Mas a minha relação com meu pai é muito tranquila, só nos dois primeiros anos (de trabalho) foi bem intenso porque tinha alguns problemas do processo que acabavam refletindo na nossa relação entre pai e filho.

Com a minha mãe na Boogie foi um período em que saí da produção artística, fiquei um ano e meio sem fazer produção para focar no escritório. Com ela, a relação é mais próxima, claro que também tem uns problemas, mas a gente sempre resolve juntos. Com Racionais, com meu pai, a gente ajustou muita coisa.

Você é um jovem preto, em cargo de liderança. Como se sente nesse lugar? E como faz para manter a lucidez e o pé no chão?

Olha eu me sinto, me sinto muito... Estou me sentindo, o lance é esse (risos)! Sou um cara que tenho muito orgulho da minha trajetória, por não me deixar abalar por críticas externas ou opiniões alheias que apareçam no decorrer do meu processo. Sou muito pé no chão. Não preciso ficar me deslumbrando. Tenho muito esse lance familiar. O business é familiar. O resultado de fazer um business legal, de ter uma parada bem organizada, bem construída vai refletir não só para minha mãe, para mim, mas para o meu filho, para o da minha irmã. Como falei, esse legado já está construído. Os caras (os Racionais) fizeram um trabalho muito árduo, eles abriram o Mar Vermelho no Brasil (risos).

"Os caras (os Racionais) fizeram um trabalho muito árduo, eles abriram o Mar Vermelho no Brasil (risos)"

Santos e carro, essas duas paixões são herança de família?

São heranças (risos). Meu pai é santista, ele disse que quando eu nasci, a primeira roupa que ele colocou em mim foi um uniforme do Santos. Como falei, muitos momentos que tive com meu pai foram em jogos do Santos. Depois que nasci, o clube foi campeão várias vezes, peguei uma fase muito boa. Essa paixão pelo Santos me traz uma memória afetiva familiar muito boa.

O carro eu acho que é herança também, tanto do meu pai quanto da minha mãe. Ela conta que quando eu nasci, ela dirigia um Opala 6 cilindros marronzão, que era muito barulhento, mas eu dormia no carro confortavelmente. Comprei um carro depois de ter feito Na quebrada, estava trabalhando com produção também e havia juntado uma grana. Aí financiei, já me endividei logo, já entrei nesse mundo (risos). Mesmo que seja um carro baratinho e tal, estava dentro desse universo, que eu gosto bastante. O automobilismo no Brasil está muito distante da periferia e dos pretos, né? É um esporte muito elitizado. Para começar, você tem que ter a máquina. O Lewis Hamilton teve apoio do pai desde muito pequeno. Ele é 1 em 1 trilhão, exceção à regra. É bem complicado estar ali dentro. Meu objetivo é poder entrar em alguma categoria amadora de automobilismo para poder desfrutar também dessa paixão pelos carros e pela performance. Não é só o carro em si que me apaixona, é a performance, o conjunto.

Kaire em 10 batidas:
Moda e estética: totalmente necessárias.
Redes sociais: atualmente, são ferramentas.
Uma saudade: da adolescência, dessa fase.
Número 1 da sua playlist: tô ouvindo muito aquele (MC de trap0 do Rio de Janeiro, TZ da Coronel (dono do hit "Anota Placa").
Se pudesse dizer algo pra você mesmo mais jovem, o que seria? Continue acreditando nos seus sonhos, continue fazendo o que você acredita.
Uma memória: 2011, Pacaembu, Santos campeão da Libertadores, coisa linda (risos).
Um álbum do Racionais: Nada como um dia após o outro dia.
Um disco de rap gringo: gosto muito muito do 2001 do Dr Dre (The Wash).
Ídolos: Minha mãe e meu pai.
Como você se definiria em uma palavra: paixão.

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