Samba da Uva impulsiona o afroturismo no Rio Grande do Sul

Na região do Vale do Taquari (RS), o evento criado pela empresária Miriam Santiago Krindges surpreende ao juntar a pisa da uva com uma roda de samba.


miriam santiago promove o afroturismo
Miriam Santiago Krindges, criadora do Samba da Uva. Foto: Divulgação



O que acontece quando o vinho e o samba se encontram? Pergunte para Miriam Santiago Krindges, que mantém a vinícola Sítio Rosa do Vale, na região do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Durante a vindima, que acontece de janeiro a março, ela realiza uma pisa da uva fora do óbvio, em que as músicas italianas saem de cena para dar lugar à roda de samba, que interpreta desde clássicos de Martinho da Vila e Beth Carvalho até pérolas do pagode anos 1990.

É  o Samba da Uva, que neste início de ano está marcado para os dias 11, 18 e 25 de janeiro, e traz visibilidade para o afroturismo, uma modalidade em que a história e cultura negra são protagonistas de rotas e experiências turísticas

Nascida em Clementina, no interior paulista, Miriam mudou-se para Poço das Antas (RS) em 2012, quando conheceu o marido, o produtor rural Irani Krindges, em um site de relacionamentos. Nos primeiros anos em que viveu na pequena cidade de dois mil habitantes no Vale do Taquari, Miriam chegou a atuar como advogada, que é sua formação, mas o sonho da maternidade a levou para outro caminho. 

Com o nascimento da filha do casal, Dandara, em 2019, a empresária teve a ideia de transformar a propriedade rural da família em atração turística. Composta por um casarão construído em 1912, o sítio dedica-se à fruticultura e abriga uma plantação de figos, que divide espaço com bergamotas, pitaias e uvas.

Mas, antes de tudo, Miriam foi atrás de capacitação. Ao ingressar em um grupo de representantes do turismo local, porém, ela sentiu um incômodo ao notar que, além de ser a única pessoa negra e dona de empreendimento, só se falava sobre modelos de turismo europeu na região. E, assim, teve a ideia do Samba da Uva, uma combinação que pode soar inusitada à primeira vista, mas faz todo o sentido no contexto do afroturismo. 

A experiência começa pela visita ao parreiral da propriedade e a colheita. Depois, as uvas são despejadas em uma tina grande, onde várias pessoas as esmagam com os pés na cadência do samba. A pisa da uva é embalada por uma roda de samba comandada por grupos locais. E, durante a festa, o público pode degustar alguns rótulos produzidos ali mesmo. 

afroturismo no mundo do vinho

Vinho e afroturismo: um brinde à ancestralidade. Foto: Divulgação

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Como o parreiral, que existe desde 2007, é composto somente de uvas de mesa, Miriam adquire uvas viníferas de cidades próximas como Caxias do Sul e Garibaldi para a produção de seus vinhos. Enquanto o branco moscato de Alexandria (R$ 150) e o tinto Cabernet Sauvignon (R$ 120) fazem parte da linha batizada com o nome da propriedade, os espumantes brut branco e rosé (R$ 58 cada um) integram a linha Samba da Uva, que nasceu juntamente com o evento.  

Em breve, está previsto o lançamento de uma linha de vinhos de mesa suave (um pedido por parte dos visitantes), além de um espumante sur lie, que não passou pelo processo de dégorgement e as leveduras se mantêm na garrafa. Disponível em edição limitada, o rótulo, que faz parte da linha Inquietudes, vai se chamar Dos Búzios (R$ 458), uma referência ao movimento liderado por homens negros em Salvador (BA) no final do século 18. 

Na entrevista a seguir, Miriam conta sobre a origem do projeto e os seus planos para o futuro. 

O que levou você a deixar a carreira no Direito e investir no turismo?
Quando a Dandara nasceu, em 2019, eu quis me dedicar à maternidade. E, quando chegou o momento de voltar ao mercado de trabalho, o turismo estava se fortalecendo aqui na região, graças ao Cristo Protetor, a maior escultura de Cristo do Brasil, em Encantado (RS). Daí surgiu a ideia de abrir a minha propriedade para visitação. Com isso, eu ficaria mais em casa, mais perto da minha família e acompanharia o crescimento da minha filha.

Como surgiu a ideia de se dedicar ao afroturismo?
Quando entrei em um programa de capacitação no Vale do Taquari (RS), que era formado por representantes do turismo, percebi que era a única pessoa negra e dona de um empreendimento na região. Isso me trouxe certo incômodo. Nós estamos em uma região com comunidades quilombolas, como Vovô Teobaldo, Arroio do Meio e Lajeado, que têm uma cultura riquíssima, mas só se falava sobre um modelo de turismo europeu. Assim, eu entendi que precisava trazer visibilidade para esse tema.

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O Samba da Uva teve início nesse contexto?
A pisa da uva é uma experiência que as pessoas gostam muito de vivenciar na serra. Mas eu não podia usar música italiana, porque estou numa região onde predomina a cultura alemã e poderiam me acusar de apropriação cultural. Quem diria. (risos) Então, decidi colocar o samba, que entendo como parte da minha cultura e da minha história. Outra coisa que eu quis foi usar uma tina grande, em que várias pessoas podem fazer juntas e de forma circular. Isso tem tudo a ver com a cultura africana.   

Qual é a ligação do Samba da Uva com o afroturismo?
Certa vez, uma historiadora me disse: “Essa pisa é kemética”. “O que é isso?”, perguntei. Ela me respondeu que, no Egito Antigo, existia a civilização kemética e lá eles tinham um processo de vinificação feito por pessoas negras. Quando ela me mandou fotos das pirâmides, havia hieróglifos com pessoas negras fazendo vinho exatamente como eu tinha imaginado a nossa pisa da uva. Por isso que eu digo que é uma memória ancestral. 

Como tem sido a receptividade do público com a experiência?
Quando as pessoas descobriram, simplesmente surtaram. Todo mundo queria participar. O Samba da Uva viralizou e foi uma experiência que trouxe muita visibilidade para minha vinícola, porque é muito disruptiva e diferente. E o mais legal é que pessoas de diferentes lugares, cores e religiões, se divertem e interagem entre si. No final, todo mundo está se chamando pelo nome, se abraçando e cantando junto. O samba tem esse poder de unir as pessoas. 

De que forma você acredita que pode impulsionar outras mulheres negras a ocuparem esses espaços?
Eu acho que o afroturismo tem muito potencial, porque você consegue conhecer os locais sob um outro olhar. Eu me aproximei do pessoal das comunidades quilombolas da região e começamos a desenvolver um roteiro nosso. Porque as pessoas querem vir aqui e, também, conhecer outros lugares. Eu espero ver, cada vez mais, pessoas negras no mundo do vinho, porque precisamos ocupar esse espaço que é nosso. O vinho precisa ser visto como uma tecnologia negra.

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