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Por trás dos fios de cabelo branco e óculos escuros enigmáticos, Karl Lagerfeld viveu um caso de amor com a maison Chanel. Quando assumiu a marca, em 1983, se preocupou em resgatar e reviver os ícones mais emblemáticos da casa fundada por Coco Chanel, em 1909. Entre eles, a jaqueta clássica, que debutou nos anos 1950 e segue como referência de estilo atemporal até hoje.

Contudo, a peça demorou um tanto para fazer sucesso entre as francesas. Na época do seu lançamento, as consumidoras locais estavam em outra vibe: uma bem mais romântica e pautada por valores femininos tradicionais. Quando ela finalmente deu certo, se tornou emblema de uma nova representação da mulher na sociedade. E nunca mais saiu de cena.

As primeiras experiências de Coco Chanel com o guarda-roupa masculino foram fruto de dois romances ainda no início do século 20. O primeiro foi com o herdeiro francês Étienne Balsan, que a introduziu ao universo da equitação e da aristocracia decadente. O segundo, com o empresário inglês Boy Capel, referência em elegância britânica e seu grande amor.

Em um mundo de demi-mondaines extravagantes, Chanel era a irrégulière perfeita: andrógina e fascinante, seu estilo pessoal se destacava entre o de outras mulheres especializadas em acompanhar homens ricos. Incentivada (e financiada) por esses protetores, as primeiras boutiques da estilista conquistaram rápido sucesso.

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Foto de Coco Chanel em seu apartamento. Foto: Getty Images

Suas criações em tecidos leves e fluidos, como o jérsei, representavam novidade e ruptura. Conforto, liberdade e mobilidade eram as filosofias de Mademoiselle, todas em sintonia com as mudanças no estilo de vida feminino. Os ares masculinos das coleções iniciais acompanharam outras criações igualmente bem recebidas pelo público, como o perfume Chanel Nº5, de 1921, que representou um divisor de águas na vida de Coco.

A consumação do flerte de Chanel com o imaginário masculino, porém, pareceu a princípio atrasada. Quando lançou o tailleur de tweed, em 1954, o conjunto representou um contraponto desconfortável ao ideal de feminilidade em voga, principalmente na França. Na ausência temporária da estilista, que fechou o ateliê e se mudou para a Suíça na década de 1940 (durante ocupação nazista e seguindo acusações de suposta colaboração com os alemães) o ímã das mulheres assumiu a forma de Christian Dior.


O "costureiro dos sonhos" reacendeu o desejo por silhuetas acentuadas e pelos clichês de feminilidade e, pela primeira vez, Chanel e seu nouveau-chic pareceram démodés. Ao contrário de Londres e Nova York, que se mostram abertos ao retorno de Coco, Paris relutou em aceitar de imediato a elegância sóbria de Mademoiselle.

Mas a relutância não durou muito e logo veio o sucesso, ainda que não tão meteórico como no início do século. Ainda assim, o investimento da costureira em modelos leves e práticos e a insistência em aproveitar elementos das roupas masculinas, como os bolsos (reais, já que muitas roupas femininas tinham versões falsas deles), se converteu em desejo.

Jacky Kennedy com seu tailleur Chanel.


As jaquetas, a princípio pensadas para o dia e feitas de tecidos confortáveis, como lã, jérsei e tweed escocês, ganharam versões de noite, mais elegantes, em seda e lamê. Nos anos 1950, Lesur, Moreau e Dormeuil eram alguns dos principais fornecedores de lã para os ateliês Chanel, enquanto os tweeds macios eram comprados com Mahlia Kent, que produzia exclusivamente para a estilista.

Atestando modernidade, Mademoiselle combinava o nylon com outras fibras sintéticas para dar leveza ao item. As mangas, levemente curvadas, facilitavam o movimento dos braços, e as peças não traziam entretelas, material usualmente costuradas por dentro para dar estrutura. Em vez disso, a forma desejada era alcançada com costuras meticulosas e uma corrente dourada presa na parte interior da barra – uma adição funcional para ajudar no caimento que acabou se tornando igualmente icônica.

Em matéria de cores, os tons neutros são os clássicos, mas vermelhos, rosas, azuis e dourados também figuraram nos primeiros anos de vida da jaqueta. As blusas, feitas para completar o conjunto, eram do mesmo tecido e tom do forro, enquanto os botões eram cuidadosamente selecionados e, por vezes, pintados à mão. O resultado era luxuosamente harmonioso.

A popularidade da peça sofreu com o crescimento dos movimentos da juventude dos anos 1960. Em Londres, por exemplo, a minissaia conquistou as ruas e, em Paris, a alta-costura perdeu espaço para o prêt-à-porter. Com a morte da estilista em 1971, suas criações se silenciaram mais uma vez.

Passarela do verão 2008 de alta-costura.

Foi Karl Lagerfeld, o alemão contratado para assumir a direção dos ateliês Chanel, em 1983, quem revitalizou os ícones da marca, entre eles a bolsa 2.55 e a jaqueta clássica. Na primavera de 1984, por exemplo, ele introduziu versões de jeans e, em 1991, com paetês. Ao longo dos anos 1990, também combinou com minissaias e calças de couro, ressignificando o visual a cada temporada. Na temporada de alta-costura de primavera em 2008, uma versão enorme e de concreto foi construída no centro da passarela no Grand Palais, em Paris – uma das apresentações mais memoráveis da marca.

Em 2011, ao lado da editora Carine Roitfeld, Lagerfeld comandou o lançamento de um livro todo dedicado à história e savoir-faire da peça, o The Little Black Jacket. Após a morte do estilista, em 2019, Virginie Viard decidiu apostar no visual tradicional da jaqueta, investindo em versões sofisticadas de cores sóbrias e marcando uma reaproximação à estética original da peça.

Instantaneamente reconhecível, o item está entre os clássicos mais flexíveis da moda. Em quase sete décadas de presença em passarelas, vitrines e guarda-roupas, é um ícone incansável e atemporal – uma criação verdadeiramente Chanel.

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