Foto: Inez & Vinoodh
PUBLICIDADE

São poucas as revisitações de clássicos bem-sucedidas. A bolsa 11.12, da Chanel, é uma delas. Criada por Karl Lagerfeld, em 1983, ainda em seus primeiros meses na direção da maison francesa, a peça comemora 38 anos, carregando todos os elementos que justificam seu status de ícone.

Moderna, prática e com visual elegante (tudo très Chanel), ela permite infinitas interpretações, limitadas apenas pela criatividade de quem se propõe a explorá-la. Desde que surgiu, inspirada na clássica 2.55, a 11.12 manteve a estrutura retangular e o fecho com os dois C's entrelaçados (sua grande inovação em relação ao fecho geométrico da sua predecessora). Porém, o modelo foi, gradualmente, se libertando dos tradicionais couro preto granulado e do matelassê em losango.

Com Lagerfeld, a bolsa ganhou interpretações em tweeds, tecidos felpudos e matelassês chevron (em formato de V), este último destacado numa campanha de 2015, estrelada por Kristen Stewart. Mais recentemente, Virginie Viard, atual diretora de criação, revistou o acessório com propostas bicolores, brocadas e em tweeds vibrantes. Porém, são as versões clássicas as protagonistas dos dois curtas-metragens dirigido por Sofia Coppola, em celebração ao aniversário do item.




De volta à Rue Cambon

A 11.12, entretanto, não é um ícone a ser celebrado sozinho. Seu estrelato tem raízes antigas, mais especificamente em fevereiro de 1955, quando Coco Chanel voltou a Paris, depois de um longo exílio na Suíça. A data, no caso, foi o que deu nome a 2.55, bolsa mais importante de sua carreira.

PUBLICIDADE

Seu ateliê de costura, no número 31 da rue Cambon, estava fechado desde 1939 e só reabriu quando a estilista retornou à cidade luz. Após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, ela se mudou para o hotel Beau-Rivage, em Geneva, para fugir de possíveis acusações envolvendo sua suposta ligação com os nazistas durante a ocupação de Paris. Ficou lá até 1954.

Assim que retornou, não tardou em retomar os negócios e o sucesso. Foi Hélène de Lazareff, fundadora e editora-chefe da ELLE francesa, a primeira a celebrar a volta de Mademoiselle. Na capa da edição de novembro de 1954, a modelo Suzy Parker evocava a própria figura da estilista, vestindo um conjunto de tweed em tom de vermelho intenso. Poucos meses depois, em fevereiro de 1955, Chanel criaria aquela que seria sua bolsa ícone, a 2.55.


Foto de Coco Chanel com a bolsa 2. Coco Chanel com a bolsa 2.55.Foto: Getty Images

Foto de Coco Chanel com a bolsa 2.55, em Paris.


Mademoiselle – porque Coco jamais se casou – faleceu em 1971, aos 87 anos. Três anos depois, Gérard e Alain Wertheimer – netos do primeiro diretor da marca, com quem a estilista se filiou em 1924 – herdaram a direção dos ateliês Chanel e começaram uma série de mudanças a fim de modernizar a maison. A principal delas foi a contratação do alemão Karl Lagerfeld como diretor criativo.

PUBLICIDADE

Quase gêmeas

Buscando inspiração no passado da casa sem renunciar o desejo de inovar, Lagerfeld encontrou no visual da 2.55 a base para sua nova criação: a 11.12. Ainda que quisesse propor novidades, preferiu manter a maioria dos elementos originais. O tradicional couro em matelassê na forma de losangos é um deles.

Feito com point-droit à máquina (um tipo de ponto usado para aumentar a durabilidade do acessório), a origem desse motivo de costura é incerta. Poderia, talvez, ter sido baseado nas jaquetas e celas das cavalariças do Château de Royallieu, em Compiègne, residência aristocrática de Étienne Balsan, o primeiro grande romance de Chanel. Poderia também ter origem nos vitrais de Aubazine, a abadia em que a pequena Gabrielle viveu depois de ser abandonada pelo pai. Ou ainda, nos sofás e nas almofadas de camurça matelassada que decoravam seu apartamento no mezanino do ateliê na Rue Cambon.

O forro vermelho-borgonha da 2.55 é outra característica que se manteve na 11.12. A cor não apenas foi pensada para facilitar a visualização interna da bolsa, como é uma ode ao tom dos uniformes de Aubazine, vestidos por Chanel diariamente durante anos.

Foto Cortesia | Chanel

Bolsa 11.12, da coleção verão 2021.

O número de bolsos também permaneceu o mesmo: sete. Seis internos e um externo. Levemente arredondado, como um sorriso discreto, esse compartimento traseiro recebeu, entre os artesãos de Verneuil-en-Halatte, região francesa onde as bolsas Chanel são confeccionadas, o apelido de Mona Lisa.

As duas abas (uma interna e uma externa) são outros elementos comuns às duas bolsas – e o motivo pela qual ambas são conhecidas pelo nome de flap bags. Na aba maior, um elemento icônico: o compartimento com zíper, onde Chanel dizia guardar cartas de amor. Nos anos 1990, Lagerfeld introduziu também o modelo single flap, apenas com a aba externa, sem o espaço para bilhetes românticos, para deixar o acessório mais leve.

As alças de metal compridas – que a estilista, cansada de esquecer sua bolsa nos lugares que frequentava, introduziu como uma alternativa para as minaudières – ganharam uma fina tira de couro entre os elos. Um detalhe simples, mas que deu às correntes, possivelmente inspiradas naquelas em que as freiras de Aubazine prendiam suas chaves, um allure de jovialidade.

A principal mudança, contudo, aconteceu no fecho. Enquanto na 2.55 seu formato é simples e geométrico (chamado de fecho Mademoiselle), Karl inovou ao propor os dois C's entrelaçados. Apesar de icônico hoje, esse símbolo só ganhou popularidade internacional depois da entrada do alemão na maison. Foi ele quem revisitou o monograma mais de uma década após a morte da dona das iniciais.



Desejo de luxo

Se entre 1960 e 1970 grandes personalidades foram devotas à criação de Chanel – como Mia Farrow, que durante as gravação de O Bebê de Rosemary (1968) sempre carregava uma 2.55 –, a chegada da 11.12, em 1983, diminuiu consideravelmente a demanda pela peça clássica. Durante os 20 anos seguintes, a bolsa de Karl Lagerfeld se apropriou do sucesso da predecessora , tornando-se uma obsessão fashionista. Foi apenas em 2005, no aniversário de 50 anos da 2.55, que o estilista reintroduziu o modelo na maison.


Atriz Mia Farrow durante as gravação de O Bebê de Rosemary, em 1967.Foto: Getty Image


Hoje, ambas são ícones da casa e compartilham o fascínio do imaginário luxuoso que as envolve. Seja pelas mãos de Lagerfeld ou Viard – ou pelas lentes Coppola, Inez e Vinoodh (que assinam as imagens da campanha) –, a bolsa 11.12 é um ícone imortalizado. Elegantemente moderna, é também a prova de que até os clássicos "sagrados" podem inspirar novas criações, sem se deixar ofuscar.




Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE