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Na última semana, Alexandre Pavão apresentaria mais uma bolsa de seu projeto Love Handbag, em que 100% do lucro é revertido em cestas básicas para a organização beneficente Amor ao Próximo, criada por ele. Mas o lançamento precisou ser adiado para o dia seguinte. É que no exato momento do início das vendas, o site saiu do ar quando quinze mil pessoas acessaram o endereço simultaneamente. Entre os tantos desafios e limitações impostos pela pandemia aos designers independentes brasileiros, essa não é lá uma situação corriqueira.

"Tenho contato com diversas pessoas e empresas e sei como a pandemia não tem sido um momento fácil para o mercado de moda", afirma o designer paulista, em conversa com a ELLE. "Mas as minhas vendas só aumentaram e a marca cresceu muito. Nem sei como explicar", diz. Com uma lista extensa de consumidores e fãs, entre as quais a apresentadora Maisa e as atrizes Manu Gavassi e Fernanda Paes Leme, Alexandre acaba de abrir um ateliê no centro de São Paulo. A conquista marca a primeira vez que a produção da etiqueta deixa o apartamento do designer e ganha um espaço próprio.

MaisaFoto: Pedro Pinho

"Estava trabalhando 24 horas por dia. Domingo estava fazendo bolsa, às duas da manhã, empacotando", conta. Agora, à frente do ateliê, o designer consegue impor limites a si mesmo e, para este novo momento, os planos já são muitos. Pavão pretende aproveitar o espaço para receber os clientes que desejarem encomendar itens exclusivos. Esse é, aliás, um valor notável da marca. "A experiência de comprar algo sob encomenda é sobre valorizar o tempo da outra pessoa. Eu prezo por isso".

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As suas peças já costumam ser limitadas, porque encontrar fornecedores que aceitem realizar tiragens pequenas não é algo exatamente fácil na indústria nacional. Alexandre, porém, prefere pagar mais para produzir menos: "quero a minha produção sempre enxuta. Os itens vão esgotar e as pessoas vão chorar para ter". A exclusividade proposta pela etiqueta, é importante salientar, em nada tem a ver com uma possível falta de acessibilidade. A ideia pode parecer contraditória, mas ele enxerga o luxo a partir de um novo espectro. "Em minha marca, uma pessoa não precisa ser milionária para ter algo exclusivo", afirma.

Prova disso é a chamada Nylon Bag. Nas palavras dele, a tal bolsa "é um produto de design, mas com um valor mais acessível" e é um dos seus maiores sucessos. "Recebo uns 50 directs por dia de pessoas perguntando sobre ela". Isso porque, agora, o item só retornará ao e-commerce em 2022, e em versão repaginada. A última pré-venda aconteceu em abril num esquema semelhante ao programa de segurança da Telfar. Durante as 36 horas em que a peça ficou disponível, foram vendidas mais de 700 modelos.

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Os números são admiráveis e as mídias sociais têm se mostrado essenciais para esse alcance. Ao articular uma comunicação transparente e próxima, Pavão constrói uma relação quase simbiótica com seus seguidores. Em um breve passeio pelo TikTok, não é difícil se deparar com alguém comemorando a chegada de uma bolsa e fazendo o unboxing da encomenda. O designer nem mesmo é dos mais ativos por lá mas, organicamente, os próprios clientes garantem a presença da marca na plataforma.

"Para falar a verdade, eu não tenho um cronograma de postagens. Não sei o que vou publicar amanhã", entrega. A verdade é que Alexandre não está interessado em fórmulas ultrapassadas ou estratégias seguidas por outras empresas nas redes. O seu esforço está concentrado em manter a comunidade já construída pela etiqueta, a partir de conversas genuínas e diferentes daquelas conduzidas pelo mercado.

ANTES DO HIT

Embora o paulista afirme não ser nenhum especialista em marketing, a sua história prova que sempre teve olhar aguçado. "Minha mãe andava com sacolas da minha marca pelas ruas de Marília [cidade em que o designer nasceu], só para instigar a curiosidade das pessoas", relembra. A matriarca, aliás, é inspiração. "Tudo começou com ela, que sempre trabalhou como vendedora até montar uma loja própria, dentro da nossa casa". E foi assim, ainda na adolescência, que ele se aproximou da moda.

Aos 16, começou a vender as primeiras peças e não parou mais. Foi só em 2015 que se mudou para a capital. Na época, ainda trabalhava em outra empresa, como designer de produto, enquanto conciliava o tempo para também dar conta de sua marca homônima. A história mudou de rumo quando um cinto feito por ele caiu nas graças de Anitta. A cantora o usou por seis meses consecutivos, colaborando para que Alexandre ganhasse os holofotes. "Foi uma loucura. Tive um boom e, ao mesmo tempo, estava muito sobrecarregado com o outro trabalho".

Divulgação


O estresse resultou em uma gastrite crônica. "Perdi 15 quilos. Acordava vomitando sangue de nervoso", recorda. Resolveu se demitir e, diz, passou "alguns meses morrendo de medo de a marca não me sustentar", embora estivesse decidido a acreditar nela e "a trabalhar com o que tinha nas mãos".

Essa sempre foi sua premissa. O trabalho com cordas e mosquetões, que hoje se tornaram códigos identificáveis, começou ainda em sua cidade natal: "era o que havia disponível. Comprava na loja de construção vizinha à minha casa". O designer relembra que, por isso, ninguém entendia muito bem o seu trabalho. "As pessoas me perguntavam 'o que você vai fazer com isso?' e eu só dizia 'deixa comigo'", brinca.

E se quando pensamos em bolsas as alças de corrente e bases de couro já nos parecem óbvias, é exatamente a ideia de fugir da obviedade o imã desse designer. "Quero ter um produto que os outros pensem 'como assim existem pessoas que compram isso?'."

De fato, comprar uma bolsa com um cabo de telefone pendurado não é para qualquer um. Alexandre Pavão está quebrando as regras, e, nesse ritmo, não irá demorar para chegar exatamente onde deseja. "Não quero criar só um produto. Quero criar uma marca, uma história, um universo. Quero chegar ao nível em que se eu fizer um simples alfinete, as pessoas fiquem loucas pelo meu alfinete".

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