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Muito pouco se sabia sobre Daniel Lee quando o grupo Kering anunciou, em junho de 2018, que o britânico assumiria a direção criativa da Bottega Veneta. Até então, o estilista ainda não esteve à frente de nenhuma marca, embora já tivesse passado pela Maison Margiela, Balenciaga e Céline, onde atuou como o braço direito de Phoebe Philo. O que se sabia bem, no entanto, é que a etiqueta italiana precisava de uma reformulação o quanto antes.

Como uma gigante adormecida, a Bottega estava há algum tempo afastada dos holofotes. Com mais de meio século, a marca possui o tal do savoir faire atrelado a seu nome, uma filosofia de design silencioso e a vocação para uma elegância discreta. Em contraste com as bolsas cobertas por logotipos, imediatamente reconhecíveis, os artigos da italiana não eram projetados para anunciar o poder aquisitivo de seus donos, mas sim o suposto bom gosto.

Era sobre uma riqueza quase oculta, renunciando às tendências passageiras e celebrando a dedicação ao artesanato e à história. Tomas Maier, então diretor criativo, parecia entender isso como poucos. O antecessor de Lee ingressou na Bottega Veneta em 2001, quando a grife foi adquirida pelo Grupo Gucci, agora Kering. Sua primeira década no cargo foi marcada por um sucesso significativo, comunicando – e vendendo – para o mais alto segmento do mercado de luxo. Nos seus últimos anos, porém, o crescimento havia despencado e o alemão já não acompanhava mais a corrida.

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Daniel LeeGetty Images

É aí que entra Daniel Lee. De uma só vez, o britânico deu cara nova à consumidora da Bottega Veneta. Sem esquecer completamente das antigas, o foco era numa clientela que aprecia a herança, história e qualidade do luxo, mas que não está interessada nas mesmas fórmulas já cansadas.

Parte de seu apelo vem da combinação inebriante que, pelo visto, sempre foi inerente ao designer. Você não poderá descobrir pelo Instagram o que ele comeu no café da manhã ou onde passa as noites de sexta-feira – o tipo de discrição condizente com a Bottega. Ao mesmo tempo, Daniel estudou na Central Saint Martins, aquela que também formou Alexander McQueen, John Galliano e outros talentos fora da curva, tem uma fissura por música eletrônica e é conhecido por sua coragem de se arriscar visualmente.

Dessa fusão, vem o polimento tradicional e sutil da Bottega Veneta com uma outra roupagem. As bolsas de couro amanteigado ganharam a aparência de uma bola de chiclete, os suéteres de cashmere passaram a ser costurados em longas tiras retangulares e os saltos foram substituídos por botas de borracha. A New Bottega alcançou um status cobiçado, mas, ao mesmo tempo, comercialmente viável. São roupas que causam repulsa e encanto em igual medida, feitas “para morar”, como o próprio Lee já repetiu em diversas entrevistas, mas também para dançar.

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Divulgação

Bottega Veneta, verão 2022.


Diante desse ponto de virada, a grife pôde desaparecer das mídias sociais, sem que suas bolsas parassem de ser postadas por lá. Agora, via influenciadoras, as quais, segundo a marca, não são pagas para isso. Também pôde montar desfiles em lugares fora do circuito tradicional da moda, e garantir a presença de grandes estrelas.

Outro ponto marcante foi o tom de verde que aparece não só nas peças de roupa mas também em instalações feitas pela italiana em diferentes ruas ao redor do globo. A cor, aliás, já é tão inconfundível quanto o vermelho Louboutin, o azul Tiffany, ou o laranja Hermès.

Uma popularidade sem precedentes, um sucesso nunca antes tão instantâneo. Corta para novembro de 2021. Em uma decisão que chocou a indústria, foi anunciado que Daniel Lee estava deixando a Bottega Veneta. Diante de receitas cada vez mais altas, o que teria dado errado? As pistas são repletas de fofocas. O WWD sugeriu que as formas de trabalho do estilista eram difíceis e o seu expediente, muitas vezes à noite, também não agradava a equipe.

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Nunca saberemos o que de fato rolou, porém, para o fim do contrato ter sido antecipado, e bem no meio de uma fase tão próspera, é certo que situações indesejáveis ocorreram.

O não tão novo começo

Poucos dias após a notícia da saída de Daniel, Matthieu Blazy, então diretor de design da etiqueta, foi promovido ao cargo principal. Assim como o antecessor, o nome de Matthieu pode ainda não ser popularmente estrelado, mas já é conhecido e respeitado nos bastidores da indústria há algum tempo.

Nascido em Paris, o designer de 37 anos se formou na La Cambre, em Bruxelas. Enquanto estudava, trabalhou brevemente na Balenciaga com Nicolas Ghesquiere e na Dior com John Galliano (que, ironicamente, substituiria Blazy na Margiela uma década depois). Após a formatura, em 2007, sua carreira ganha forma quando passa a trabalhar em estreita colaboração com Raf Simons. Foi na marca homônima do estilista belga, onde também conheceu o seu marido, Pieter Mulier, atual diretor criativo da Alaia. Lá, Matthieu se tornou o protegido de Raf. Quando o diretor de criação se muda para a Dior, em 2012, diz que gentilmente apresentou o aprendiz à Maison Margiela.

É aí que Matthieu Blazy se torna o designer-chefe da Maison Margiela Artisanal, a linha de alta-costura. Embora o parisiense mantivesse o anonimato pelo qual o fundador da casa também era conhecido, Suzy Menkes declarou em 2014: “Não se pode manter um talento desses em segredo”. É que as coleções de Blazy eram altamente elogiadas. O inverno 2014 foi uma delas. Tendo escolhido a dedo os melhores materiais, desde sedas francesas do século 18 até jaquetas japonesas dos anos 1950, o estilista apresentou peças que você não podia distinguir quais haviam sido criadas do zero e quais haviam sido transformadas depois de encontradas.

Reprodução/Instagram

O seu trabalho mais conhecido na Margiela, porém, foi as máscaras de diamante vistas no inverno 2013, que Kanye West levou para o figurino da turnê Yeezus. Da casa de alta-costura, Matthieu se mudou para a Céline. Phoebe Philo havia o recrutado e lá trabalhou junto a Daniel Lee. Em 2016, quando Raf Simons assume a direção criativa da Calvin Klein, o designer volta a trabalhar com ele. Finalmente, em junho de 2020, é escolhido pelo grupo Kering como diretor de design da Bottega Veneta.

Agora, Matthieu Blazy segue os passos de Sarah Burton, Alessandro Michele e Virginie Viard. Todos eles, antes em posições secundárias, foram escolhidos para liderar as marcas Alexander McQueen, Gucci e Chanel, respectivamente. Pelo visto, a estratégia de buscar um nome internamente anda funcionando.

No entanto, nem sempre um bom número dois será um bom número um. Às vezes, ele pode ser bom em traduzir a visão do diretor criativo. Quando se trata de Matthieu, porém, o designer parece ter ponto de vista próprio – e ele, em algum nível, se encontra com a de Lee. Dadas algumas semelhanças entre o trabalho dos dois, é improvável que a sucessão inicie uma mudança sísmica na Bottega. Certamente, os executivos da marca não desejam uma modificação como a de Michele na Gucci, ainda mais quando as finanças estão tão sólidas.

Por trás do culto a um diretor criativo, há uma equipe inteira que é também corresponsável pelo sucesso de uma marca ou de um produto. Nesse caso, Matthieu fazia parte dessa equipe. Seria ingênuo afirmar que o famigerado tom de verde, por exemplo, foi criado no vácuo, um único produto da imaginação de Daniel. O mesmo vale para as bolsas, as botas e a forma de fazer alfaiataria. Imaginar que toda uma coleção deriva de um só profissional pode fazer parte do jogo. É como se fosse aquele nome que vende o ingresso. Mas essa é uma perspectiva, no mínimo, distorcida da realidade.

Bottega Veneta, verão 2021.Divulgação

Caso Matthieu abandone os principais sucessos vistos durante a era de seu antecessor, os itens restantes podem se tornar ainda mais cobiçados e revendidos nos próximos anos, como as peças de Tom Ford na Gucci e de Marc Jacobs na Louis Vuitton. Ou podem ser como um fogo de palha, tendências que irão desaparecer rapidamente. É difícil dar certeza. Novos começos são emocionantes e aterrorizantes em igual medida. Há o mistério do desconhecido, a chance do novo.

Porém, há uma sensação de que o grupo Kering priorize a necessidade de continuidade, até pelo desejo de manter os novos clientes adquiridos nos últimos anos. É uma abordagem que parece funcionar para a Saint Laurent que, agora, sob o comando de Anthony Vaccarello, segue os passos dados por Hedi Slimane.

De novidade, Blazy deve buscar o crescimento do segmento masculino, onde possui experiência, a introdução de novos manuseios do couro e intrecciato (aquela trama característica da Bottega), a redução das loucurinhas propostas por Lee e o resgate de seus tempos de alta-costura na Maison Margiela. Pense em menos techno, mais artesanal.

Divulgação

Se a italiana irá manter as estratégias de marketing ousadas – incluindo zero mídias sociais –, ainda não se sabe. Mas pode nos dizer algo o fato de que, desde a nomeação, o parisiense apagou algumas de suas fotos mais pessoais no Instagram. O passo de comunicação já anunciado é o apoio dado ao retorno da Butt, a revista trimestral fundada em 2001 para homens gays.

Dez anos após seu último lançamento, a publicação irá apresentar a 30ª edição, tendo a etiqueta italiana como sua única anunciante. “Como marca, às vezes, você quer simplesmente apoiar algo que acredita. A Butt é uma dessas coisas”, afirma a Bottega em comunicado. “A revista tem um significado para muitos que trabalham na nossa empresa, que adoravam a sua visão de mundo atrevida. Não importa onde crescemos, ela sempre nos fez sentir em casa. Esperamos fazer o mesmo para a nova geração”.

A decisão de apoiar um conteúdo sobre liberdade sexual para a comunidade LGBTQIA+ está relacionada à maneira alternativa de se conectar com o público, consolidada pela marca durante a era de Lee.

Resta ver como Matthieu Blazy levará adiante uma empresa que também ajudou a impulsionar. A sua estreia como diretor criativo está prevista para o dia 26 deste mês, durante a semana de moda de Milão, marcando o retorno da Bottega Veneta, após três temporadas de desfiles itinerantes ao redor do mundo. Nós vamos acompanhar de perto. Aguarde!

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