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Talvez você já tenha visto um vestido preto com correntes envoltas no torso flanando pelo TikTok. Mas, sabia que essa peça, icônica na história da moda, surgiu muito antes da rede social adorada pela geração Z? Bem antes, na verdade, quando a internet parecia um monstrengo dentro da casa de poucas pessoas com aqueles computadores gigantes.

Batizado Chanel Couture Chain, ou chain dress para os íntimos, ele nasceu em 1992 pelas mãos de Karl Lagerfeld em sua primeira década à frente da direção criativa da Chanel, cadeira assumida por ele após a morte da estilista e em meio a uma fase difícil para a grife, que estava engessada à imagem dos perfumes.

Quando o kaiser começou sua trajetória na maison, em 1983, paulatinamente ele recuperou o crédito da grife mantendo seus elementos clássicos. Adicionava, porém, um senso de modernidade aos modelos e surpreendia ao elevar a dupla de pérolas e tweed ao status de cool novamente.

O estilista Karl Lagerfeld ao lado da alemã Claudia Schiffer, em Paris, em janeiro de 1996. William Stevens/Gamma-Rapho via Getty Images

O estilista entendia como ninguém o que os jovens desejavam, então, arriscou adicionar tendências ao DNA da Chanel com sofisticação ímpar. À vontade para experimentar, sua coleção de alta-costura da primavera-verão 1992 trouxe no corpo da modelo Christy Turlington (na foto ao alto)um vestido com modelagem simples, justo, na cor preta e com correntes de ouro e camélias.

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Criava assim a pedra fundamental do vestido, que, além de uma forma inteligente de atualizar o Little Black Dress, um dos motores da fama de Coco Chanel, foi uma estratégia de marketing para atrair a atenção para as joias da maison, que se tornariam os itens mais rentáveis da época.

CULTURA POP

Naquela mesma temporada, Naomi Campbell usou o vestido em uma campanha publicitária e, a partir daí, a peça se tornou um item atemporal, reverenciado até pela cultura pop, como no mangá Sailor Moon, de 1996, pelos traços da mangaká e fã de moda, a japonesa Naoko Takeuchi. Na série, a peça é usada em uma versão da Sailor Pluto.

Chain dress convertido em figurino da Sailor Pluto, no mangá "Sailor Moon", em 1996.Reprodução

Sobre aquele tempo, Lagerfeld revelou ao portal WWD, em entrevista de 2017, que as expectativas não eram positivas sobre o que ele podia fazer pela casa.

“Quando assumi a Chanel, todo mundo me disse, ‘não toque nisso. Está morto. Não há nada que você possa fazer’. E eu disse a mim mesmo: ‘adoro que as pessoas pensem isso. Agora vamos ver’.” E o mundo não só viu, como passou a vestir.

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O chain dress também chegou ao cinema, no filme Abraços Partidos, de 2009, onde a personagem de Penélope Cruz, Lena, usa o vestido para simbolizar as correntes que sua personagem carrega consigo na trama.

A atriz Penélope Cruz veste o chain dress em cena de "Abraços Partidos", de 2009.Reprodução

Em entrevista à Elle, a figurinista do filme, Sonia Grande, explicou que Chanel e sua visão de mulher funcionavam maravilhosamente bem para representar as fases da personagem e que a própria marca forneceu o “incrível vestido de noite preto com correntes de ouro’’.

“Ela tinha de ser bonita, sem esquecer que a elegância pode ser um caminho direto para a tristeza. Magdalena [personagem de Cruz] nasceu com um destino trágico, um sentimento fatal que a acompanha, que inunda o filme e arrasta o destino do resto do personagem como as heroínas das tragédias gregas”, afirmou à época.

FAÇA VOCÊ MESMO

Como prova de sua atemporalidade, em 2019 a modelo Lily-Rose Depp usou o chain dress no Met Gala e reacendeu a fama da peça, principalmente entre a nova geração fashionista, inspirando usuários do TikTok a criarem suas próprias versões do vestido original dos anos 1990.

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“Aconteceu de uma forma bem ‘do it yourself’ [faça você mesmo]. É óbvio que essa geração é mais proativa com seus desejos, eles não poupam esforços e usam a criatividade para terem o que querem. Isso mostra o quanto eles estão se adaptando a um mundo no cenário de recessão econômica e pós-pandêmico”, afirma a titktoker de moda Rebeca Pfau.

Modelo Lily-Rose Depp usa chain dress da Chanel no Met Gala 2019, em Nova York.Karwai Tang/WireImage

Para ela, Depp, um ícone de moda da Gen Z, foi um ponto importante na viralização da peça, mas outros fatores contribuíram, já que a nostalgia de reviver uma época que não foi sua também move essa geração. Ela cita como exemplos as músicas que viralizaram no aplicativo, como TikTok, da cantora Ke$ha, e I'm Just a Kid’, da banda Simple Plan.

“Esses jovens têm uma relação diferente com a moda. Ao mesmo tempo que enxergam a importância de políticas ambientais e o controle do consumismo, vivem a pandemia que aflora o desejo de glamour e excesso. É perceptível como cada vez mais tendências estão surgindo, principalmente pelo TikTok, e cheias de maximalismo.’’

STATUS ACESSÍVEL

A tiktoker estadounidense Victoria Paris concorda com o ponto de vista de Rebeca sobre essa busca por novidades em um cenário pandêmico, porque os jovens estariam mais encorajados em “tornar o desig mais acessível por qualquer meio necessário. Seja fazendo nós mesmos, seja economizando em uma versão semelhante. Isso é incrível”.

O tiktoker de moda Diego Sfoggia, por sua vez, analisa como algo positivo o fato de a moda estar mais em alta do que nunca entre a juventude imersa nas redes sociais.

“Novas mentes criativas estão sendo descobertas e tendências estão surgindo com potencial de impactar milhares de pessoas. Enfim, há novas oportunidades. O chain dress é um desses exemplos, mas não foi o primeiro, nem será o último deles”, afirma Diego.

Rebeca Pfau adiciona ainda um outro fator, que é o status suscitado pela peça personalizada. “Ela mostra ao mundo os seus talentos e a sua criatividade, principalmente em uma rede social como o TikTok, onde qualidades como essas são sinônimo de viralização e seguidores.”

É claro que tantos likes e visualizações carregam um porém, desses que pode salgar a conta de quem pretenda fazer da ideia um negócio. Em 2021, uma loja online de moda feminina foi acusada de plágio por vender um vestido, por US$ 108, idêntico ao clássico da Chanel. Há limites para tudo.

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