Foto Cortesia : Raf Simons
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Vai fazer quase um mês que Raf Simons disse que era "muito importante aquele momento ser sobre roupas". Ele se referia a sua estreia como codiretor criativo na Prada, numa conversa pós-desfile ao lado de Miuccia em si. Nesta sexta-feira, 23/10, o estilista belga apresentou o verão 2021 de sua marca homônima e, no seu site, escreveu: "Não quero mostrar roupas, quero mostrar minha atitude, meu passado, presente e futuro. Eu uso memórias e visões futuras e tendo colocá-las no mundo de hoje".

Não, o Raf não está louco. No mínimo se contradizendo um pouco, mas ainda assim há algum sentido no que ele disse. Como muita gente nesta temporada, seu olhar foi para dentro: para os próprios gostos, paixões, emoções e experiências. Muito do que se viu são elementos já conhecidos de seu repertório: dos moletons à alfaiataria, passando pela silhueta esguia e pelas estampas gráficas e aplicações de fotografias ou imagens. Assim como nas últimas estações, o streetwear veio menos street e mais arrumado (resultado de seus trabalhos à frente da Jil Sander, Dior, Calvin Klein e agora Prada). O colete se destaca como uma das principais novidades, bem como as estampas psicodélicas à la Pucci. E esta foi a primeira vez que o estilista apresentou oficialmente uma coleção feminina dentro de sua própria etiqueta.

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Para além dos códigos da marca, dos ícones de estilo, dos best-sellers, olhar para dentro para Raf significa se reconectar com valores e ideias pelos quais sempre se guiou. Mesmo que, nos últimos anos, a lógica do mercado de luxo e das grandes marcas tenha colocado tudo isso em segundo plano. Com uma estreia muito bem-sucedida na Prada, sua própria grife volta a ser sua válvula de escape.





Não à toa, suas referências nesta temporada são nada menos que filmes e músicas (Isolation, Incubation e Disorder, do Joy Division) que o marcaram e aparecem frequentemente em seus trabalhos: Hair, Alien, Alice No País Das Maravilhas, Zabriskie Point, Pânico, A Hora do Pesadelo, Clube dos Cinco, As Criaturas Atrás das Paredes, O Labirinto do Fauno, Barbarella, Picnic at Hanging Rock, Blow Up.

A maioria é filme de terror ou ficção científica. Quando não são, carregam mensagens existenciais e, não raramente, falam sobre ritos de passagem. E por aí já dá para entender o clima desta estação. O desfile foi apresentado como um vídeo-performance levemente perturbador. Começa com um jardim de cores ácidas, cobertos por uma espécie de musgo radioativo, algumas poucas árvores floridas, redes, uma escada de madeira e paredes de tijolos com alguns buracos. Por eles, os modelos saem engatinhando, quase como que num buraco do coelho que deu ruim ou saiu no lugar errado, bem longe do país das maravilhas.

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Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

Raf sempre foi obcecado por juventude. O assunto é basicamente o cerne de seu trabalho criativo na moda. Aqui, porém, a juventude não é tão enérgica e engajada como a que vocifera, hoje, nas redes sociais. Ela parece entediada, prostrada, frustrada até. Ainda assim, não é exatamente desesperançada. Sabe aquela máxima de você não é fraco, só está cansado. É meio que por aí – quem assistir o vídeo até o final vai entender (sem spoilers).

É que a juventude retratada por Raf aparece ali, aprisionada, limitada. Quarentena que chama? Talvez e muito provavelmente. Logo de cara, o primeiro look traz as palavras welcome e home intercaladas com children of the revolution. Tem ainda uma outra mais expressiva: muted chaos (caos mudo). E para bom entendedor meia – ou duas – palavras bastam. Ao mesmo tempo, podemos ler community, question everything, freedom, teenage dream e we fall like love.

Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

Foto Cortesia | Raf Simons

E aí, a semiótica manda um beijo e mil e uma interpretações. Estaria essa juventude tão ativa e com vontade de mudar o mundo se vendo obrigada e viver entre quatro paredes? Ou será que o próprio ambiente virtual e palco de tantas "revoluções" não seria também uma espécie de aprisionamento? Ou seria tudo aquilo uma lembrança da própria adolescência do estilista no interior da Bélgica num tempo pré-internético, mediado por música e filmes? Raf falou pouquíssimo – quase nada, na verdade – sobre esta coleção, o que permite ainda mais leituras sobre seu trabalho. E melhor assim, afinal, se faz pensar e imaginar é porque está dando certo.




Entenda como a nova realidade está forçando muito estilista a repensar sua própria identidade, processo criativo e o design de moda.

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