Podcast

A vez do Upcycling

De Miu Miu a Balenciaga, neste Pivô contamos como o mercado de luxo abraça cada vez mais essa técnica de reúso

  • A Miu Miu lançou uma coleção de upcycling, transformando peças vintage das décadas de 1930 e 1970 em 80 novos vestidos;
  • Marine Serre, Balenciaga e Viktor & Rolf: o upcycling é usado cada vez mais por estilistas de destaque e grifes de luxo;
  • Yamê Reis, professora de Design de Moda do Istituto Europeo di Design, além de fundadora do Rio Ethical Fashion explica a técnica;
  • E ainda: o ranking das marcas mais valiosas do mundo; o serviço de streaming que promete ser uma grande "biblioteca de moda"; a nova ELLE View com Manu Gavassi; e muito mais!
PUBLICIDADE

Ouça o Pivô em: Spotify | Apple Podcasts | Google Podcasts | Overcast | RSS | Deezer

Se preferir, você também pode ler este podcast:

A Burberry fez um desfile neutro em carbono, a Tommy Hilfiger apresentou a sua coleção mais ecológica até então e Stella McCartney, um dos nomes mais reconhecidos de sustentabilidade na moda, lançou um manifesto recente com palavras-chave fundamentais para a sua grife e todo o setor.

Essas iniciativas, que vêm de diversas direções, mostram que não há marca considerada relevante hoje em dia que não esteja atenta a pelos menos um modelo de economia mais sustentável. E a mais recente é a Miu Miu, que acaba de apresentar uma coleção inteira de upcycle. Neste Pivô a gente fala um pouco mais dessa coleção e aproveita pra explicar essa técnica de reúso, uma das saídas mais inteligentes adotada por estilistas ao transformar o excedente de material desperdiçado em um poderoso recurso.

Eu sou a Patricia Oyama. E eu sou o Gabriel Monteiro. E você está ouvindo o Pivô, podcast que reúne as principais notícias de moda da semana comentadas pela equipe da ELLE Brasil.

O Grupo Prada vem desenvolvendo cada vez mais saídas sustentáveis para as suas marcas. Como nós já havíamos falado no review da coleção de verão 2021 da Prada, aquela assinada pela parceria criativa entre Miuccia Prada e Raf Simons, há um investimento, por exemplo, no nylon regenerado, um tecido que tem sido chamado pela principal casa do grupo de Prada Re-Nylon.

PUBLICIDADE

Isso tem rolado porque, desde o ano passado, a Prada assinou um acordo de sustentabilidade considerado o primeiro do mundo envolvendo uma marca de luxo. A companhia fez um empréstimo de 50 milhões de euros com a empresa de serviços financeiros Crédit Agricole Group, com metas anuais, que envolvem desde o bem estar dos funcionários até a busca de materiais sustentáveis substitutos.

Agora, é a vez da casa mais jovem da família Prada a ganhar uma alternativa mais sustentável. A Miu Miu apresentou na semana passada uma linha de peças vintage redesenhadas, retrabalhadas, em um processo chamado de upcycling, e que tem sido mais abraçado pela moda nos últimos anos.

Peças entre as décadas de 30 e 70 foram garimpadas ao redor do mundo e ganharam um tratamento Miu Miu. Elas receberam bordados, brocados, cristais aplicados, o que resultou em 80 vestidos. Tudo, feito à mão. Ou seja, o luxo segue aí não só pela raridade do artefato, cada modelo é one of a kind, mas também pelo processo artesanal envolvido.

PUBLICIDADE

Os modelos devem estar disponíveis para compra até o final do mês de novembro, e poderão ser encontrados em algumas butiques selecionadas da Miu Miu. Mas duas novas atrizes já deram um preview da coleção. Foram elas a italiana Elisa Visari e a chinesa Chen Ran, que estrearam dois vestidos da linha, no dia 10 de outubro, durante o Green Carpet Fashion Awards. O evento, que tem como objetivo impulsionar práticas mais sustentáveis na moda, costuma acontecer no final de toda Semana de Moda de Milão, e, neste ano, rolou inteiramente online.

Elisa Visari usou um cocktail dress, mais curtinho, da Upcycled by Miu Miu, feito a partir de um modelo original dos anos 60. Laranja, ele ganhou aplicações de pérolas nas golas e mangas bufantes de cetim também perolado. Já Chen Ran ficou com um longo original dos anos 30, que recebeu uma gola brilhosa no lugar do decote e também manguinhas volumosas pra deixar o look glamouroso nada monótono, bem com jeito Miu Miu de ser.

Na gringa, o upcycling, essa técnica de reúso, é a alternativa não só mais de estilistas independentes, mas também de grifes de alto padrão, que desenvolvem produtos desejáveis, contemporâneos, como Emily Adams Bode, da Bode, e Marine Serre, em sua marca homônima. Como a gente também comentou aqui no Pivô, durante a semana passada, enquanto fizemos o review da última coleção da Balenciaga, a grife espanhola anunciou que mais de 90% dos materiais utilizados em seu verão 2021 são sustentáveis ou reutilizados. Ou seja, upcycling.

E, para explicar a potência do reúso na moda, chamamos Yamê Reis, professora de Design de Moda do Istituto Europeo di Design, além de fundadora do Rio Ethical Fashion, previsto para acontecer do dia 30 de outubro ao dia 30 de novembro deste ano, e que vai ter um painel abordando o upcycling:

"O upcycling pode ser uma excelente solução para os estoques gigantes de roupa que a indústria da moda coloca no planeta. E da qual 30% não é vendida, nem nas liquidações, e acabam mesmo nos aterros sanitários. Ou então são incineradas. Algumas grandes marcas já desenvolvem projetos nesse sentido, com bons resultados. Existem inclusive metodologias para criar escala no upcycling, reutilizando partes das roupas que são mais estruturantes, como cós, palas, golas, lapelas. A primeira grande marca que eu vi fazer upcycling foi o Victor & Rolf, numa coleção de alta-costura de 2016, onde as sobras de tecido de uma coleção mais antiga viravam jaqueta, retalhos de peças da coleção red carpet que eram transformados em saias e vestidos. E o resultado tinha um toque artesanal superforte e lindo, muito diferente de tudo o que eu já tinha visto em passarela."

Segundo Yamê, o processo de criar uma coleção por meio do upcycling é completamente diferente de pensar as peças do zero. E, ao contrário do que muita gente possa imaginar, o reaproveitamento exige ainda mais criatividade do designer:

"Essa estratégia tem chamado muito atenção especialmente dos novos designers, porque ela exercita a criatividade e a técnica de uma forma mais radical, exigindo atenção a todo o processo de construção do produto. Ela demanda mais flexibilidade criativa, porque temos que trabalhar com recursos limitados que estão à nossa disposição. Restaurar um produto através do upcycling é um processo mais lento de produção, que demanda mais mão de obra na desmontagem e remontagem das peças, seleção dos resíduos, aproveitamento estético de fontes materiais que muitas vezes são imprevisíveis. Esse dado surpresa do processo é o mais interessante e muitas vezes pode ser feito de forma coletiva, com a participação de toda a equipe, não apenas por um designer, isoladamente. Então, acho que além de ser uma estratégia importante de economia de recursos, num planeta finito, e de criação de mais valor, o upcycling é antes de tudo uma forma potente de contar histórias, dando protagonismo para os processos criativos e também para os que fazem as roupas."

Pelos motivos que Yamê citou e muitos outros que é fundamental destacar, valorizar, o esforço de profissionais brasileiros que também desenvolvem o upcycling aqui em território nacional.

Ele está na produção de vintages poéticos na À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch e Fabio Souza, e da Up, MaJuisi, a marca que é uma colaboração entre o estilista Marcelo Sommer e a Casa Juisi, um dos principais acervos de moda do país.

O reúso é também aplicado em grifes completamente contemporâneas, com cara bem de rua, como a Mig Jeans que, como o nome já adianta, recupera peças de denim. Enquanto a Comas SP consegue destrinchar, por exemplo, uma camisa masculina em vários outros modelos, a Reroupa, como o próprio slogan fala, transforma qualquer roupa em roupa.

O upcycling é a espinha dorsal de trabalhos bastante autorais, de neogrifes, como a Alastra, que estampa grandes nomes da cultura brasileira em seus itens de garimpos, ou da Rochô, a fusão das marcas Roro Rewind e Cho.Project, que desenvolve um belo trabalho de reformulação da alfaiataria com peças já existentes. E são muitos outros nomes, bastante diversos no estilo, que vão surpreender quem tem um pré conceito sobre o que é uma moda mais sustentável. Pesquise Camon Ateliê, Farrapo Couture, Resgate Fashion, Upcyqueen, Think Blue… A gente lembra também que, se quiser checar o nome de cada grifes, este episódio do Pivô, bem como todos os outros ficam disponíveis no site da ELLE Brasil. Acessa lá elle.com.br.

Ranking das marcas mais valiosas do mundo

Você sabe qual a marca de luxo mais valiosa do mundo hoje em dia? De acordo com a empresa inglesa de consultoria de avaliação de marcas Brand Finance, quem está no topo desse ranking é a fábrica de automóveis Porsche. Mas a indústria da moda vem logo atrás. Em segundo lugar na lista vem a Gucci, seguida pela Louis Vuitton.

A Cartier, que em 2019 ficou na terceira posição, este ano caiu pra quarta. Em quinto lugar vem a Chanel e, em sexto, está a Hermès.

Na sequência, tem mais uma representante do ramo automobilístico, a Ferrari, e, em seguida, vem a Rolex. A Dior também tem seu lugar no ranking: ficou em nono lugar, ultrapassando a marca de acessórios Coach, que este ano ficou na décima posição.

Para montar o ranking, a Brands Finance avaliou empresas dos setores de moda, carros, cosméticos e cuidados pessoais. Apesar dos dados indicarem que a pandemia de COVID-19 teve um impacto maior sobre as marcas de moda e de automóveis, o cenário não foi assim tão desolador pra todo mundo. O grupo LVMH emplacou nove marcas no ranking das 50 mais valiosas e registrou um crescimento médio de 19 % no valor de suas marcas, totalizando 39,3 bilhões de dólares.

Aplicativo Volvita

E na última terça-feira, dia 13, foi lançado um aplicativo de moda que promete: o Volvita. Ele se autodenomina uma "biblioteca de moda On Demand" no qual é possível aos participantes reviverem desfiles do passado e darem as suas críticas, agora, no presente. Entre muitas aspas aí é como se fosse um Netflix, um Spotify da moda. Mas não só. O Volvita pode funcionar também como um e-commerce. E a gente te explica.

Na plataforma é possível encontrar vídeos e fotografias de coleções passadas ou um pouco mais recentes. E, se você, por acaso, acabar encontrando uma peça do seu interesse é possível se inscrever na plataforma e entrar para uma lista de espera de uma possível reedição do produto. Uma vez que essa lista de espera tenha um volume significativo, a Volvita entra em contato com a marca responsável para saber se há interesse em uma reedição, a produção de uma nova série desse produto limitada. Se a marca tiver interesse e reeditar a peça, o aplicativo promete te fornecer exclusividade para você nesse item. Ou seja, você terá ele antes de todo mundo.

Eu mesmo confesso que fiquei mexido, porque esses dias mesmo eu lembrei de um tênis, uma parceria entre a adidas e o Jeremy Scot, que deu naquele sneaker de asinhas, um sonho que eu não realizei e adoraria realizar agora…

No aplicativo, é possível navegar pelo nome da marca ou pelo nome do designer e ter acesso a um breve perfil de cada um. Dentre as grifes que já podem ter os arquivos visitados estão Alaïa, Alexander Wang, Tom Ford, Versace e Prada. É possível interagir bastante na plataforma, a ponto do usuário poder sugerir marcas para entrarem no leque de opções, mas a Volvita diz contar também com especialistas, ou "curadores", que ajudam a destacar looks desses arquivo que têm mais chances de voltar.

De acordo com Christiana Grammenos, fundadora e CEO da empresa homônima, dona do aplicativo, essa é também uma saída mais sustentável de moda, porque a nova produção não gera excedente de estoque, porque é feita com base nessa lista de pessoas interessadas.

E, para quem ficou com um pé atrás se as marcas vão realmente querer produzir reedições, ela argumenta o seguinte: "os filmes, as músicas são propriedades ativas que você consegue monetizar continuamente, enquanto que na moda isso não é possível. Ou você pega algo agora ou essa peça parece nunca mais vai existir". Ou seja, assim como plataformas de streaming de filmes e de música ajudaram a descolar uma graninha pra produtores do passado, o Volvitta quer também explorar o valor de peças que já existiram e não mais existem. Seja esse valor poético ou literal.

Dia dos solteiros na China

Há algumas semanas a gente comentou aqui no Pivô que o mercado chinês era um oásis pra indústria do luxo nesses tempos de crise. Enquanto o cenário mundial aponta pra uma retração no consumo, a estimativa é de que a demanda dos chineses por produtos de luxo cresça 30% este ano, de acordo com um levantamento do Boston Consulting Group.

E, pelo jeito, a moda está apostando alto nisso. A Dior anunciou que vai lançar uma coleção cápsula especialmente pro dia dos Solteiros na China. Focada em acessórios, a coleção traz peças como a frasqueira de couro de cordeiro com pesponto cannage e as espadrilhas apresentadas na cruise collection. Os produtos vão estar à venda somente online, como, aliás, é realizada a maioria das vendas no dia dos Solteiros.

É a primeira vez que uma marca de luxo toma uma iniciativa do tipo pra essa data, que, já faz alguns anos, marca um pico de vendas do mercado chinês. No ano passado, o evento registrou, por baixo, 38,4 bilhões de dólares em vendas.

O dia dos Solteiros é comemorado no dia 11 de novembro e essa escolha no calendário tem um motivo: o 1 representaria uma pessoa solitária, que, junto de outro número 1, formaria um par. Outra explicação mais poética diz que o 11 do 11 representa quatro galhos nus, que, por sua vez, representariam homens solteiros.

Agora, se você acha que o evento tem origem em alguma tradição milenar chinesa, desculpe, a gente vai ter que te decepcionar. A comemoração surgiu não faz nem 30 anos e foi criada por estudantes da Universidade de Nanquim, em 1993, como um contraponto ao dia dos namorados. Mas quem popularizou mesmo a data foi o site de compras Alibaba.

A empresa queria um novo acontecimento no calendário pra esquentar as compras entre a Golden Week, que acontece em outubro, e o Ano Novo chinês. Em 2009, o Alibaba negociou descontos com algumas empresas para compras online feitas no Dia dos Solteiros, que já era popular entre os jovens. Com o tempo, mais empresas aderiram aos descontos nessa data, que acabou se tornando um dos dias mais importantes pro comércio do país. É como se fosse uma mega Black Friday. No ano passado, teve até show da Taylor Swift em Xangai, organizado pela Alibaba, pra promover a data

O sucesso é tanto que já se vê várias tentativas de importar essa comemoração pra outros países, incluindo o Brasil. Por enquanto, o dia do solteiro é comemorado por aqui no dia 15 de agosto, mas passa meio batido, né? No máximo, rende alguns bons memes nas redes sociais.

E a falando em rede social, a dica de hoje é a nova edição da ELLE View, a nossa revista digital mensal, que traz como tema justamente esse mundo louco das redes sociais. Este mês, a gente mergulhou na história do Instagram, do Twitter, nos grupos de Facebook e em outras plataformas pra entender como essa forma de se relacionar online mudou e continua mudando a nossa vida.

Pra isso, a gente falou com diversos especialistas no assunto: acadêmicos, artistas, usuários, influencers, ativistas e muitas outras outras pessoas que estudam esse fenômeno.

Você assistiu o Dilema das Redes? Se não assistiu, pelo menos já deve ter ouvido o barulho que esse documentário está fazendo. Pois é, pra essa edição, a gente conversou com o diretor do filme, Jeff Orlowski, e com o Tristan Harris, o especialista em ética que trabalhou no Google e é um dos principais entrevistados nesse documentário da Netflix.

E a capa? Ah, pra capa a gente trouxe uma veterana nas redes sociais: a Manu Gavassi, que navega muito bem nesse meio, como poucas pessoas conseguem.

A Manu fez um ensaio incorporando as personas que existem dentro de nós e se manifestam na internet, como aquela que adora flertar e transforma qualquer rede em Tinder, aquela que posta looks que ninguém entende e aquela que tá sempre falando que vai sair das redes e nunca consegue fazer isso Além disso, a Manu deu uma super entrevista pra Nathalia Levy em que falou sobre a vida antes e depois do BBB, contou como ela lida com as críticas, como ela equilibra exposição e privacidade online… Olha, não poupou saliva, viu? Acho que é uma das entrevistas mais completas que a Manu Gavassi já deu.

A edição tem ainda entrevista com Emicida, tem reportagem sobre os YouTubers de Beleza, conta como o Instagram mudou a moda, fala de meme, fala de arte e política nas redes, sem contar que tem uma supermatéria aqui do Gabriel, que traçou uma linha do tempo dos autorretratos, de pinturas do século 17 às selfies.

A ELLE View de outubro já está no ar, disponível para assinantes. Se você não assina, vai lá no nosso site que dá tempo de fazer a assinatura e conferir essa edição fresquinha.

Lembrando que se você quiser sugerir, perguntar, conversar com a gente… Enfim, participar do próximo episódio do Pivô, basta entrar em contato por uma das redes sociais da ELLE Brasil ou pelo nosso grupo do Facebook, o ELLE, O Grupo.

Este episódio usou trechos das músicas The 3 R's, de Jack Johnson, The Bitch Is Back, de Elton John, Girls Just Wanna Have Fun, de Cindy Lauper, e Deve ser horrível dormir sem mim, de Manu Gavassi.

E nós ficamos por aqui. Eu sou Patricia Oyama. E eu sou o Gabriel Monteiro. Siga lPivô Podcast em sua plataforma de preferência para que seja notificado toda vez que um episódio novo estiver no ar. Até semana que vem!

Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE