OCIMAR VERSOLATO DO AVESSO: PÁGINAS OCULTAS

A sociedade mais polêmica e turbulenta de sua carreira; o desenvolvimento de uma linha de beleza e de um carro próprio; o fim de uma vida intensa; e os motivos de uma trajetória praticamente esquecida pela moda brasileira.


Ocimar Versolato do Avesso



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O livro O Brasil na Moda é um calhamaço de 1.278 páginas, dividido em dois volumes. Foi lançado em 2004, pela editora Caras, com o objetivo de se tornar uma obra de referência no setor. O projeto de Paulo Borges e do diretor criativo Giovanni Bianco traz fotos de campanhas, catálogos e editoriais produzidos em várias décadas. O texto, editado pelo escritor João Carrascoza, apresenta personalidades da moda brasileira de diferentes áreas e gerações: estilistas, fotógrafos, modelos, jornalistas e por aí vai.

Essa caixa com os dois volumes de capa branca com desenhos em relevo e o título escrito em preto na lombada é figurinha fácil nas estantes dos fashionistas do país. Se você tem esse livro em casa ou conhece alguém que tenha, vou pedir pra você abrir o volume 1 entre as páginas 389 e 392. 

Lá, entre o fim do verbete sobre a ex-modelo e cenógrafa Mari Stockler e o começo do verbete sobre o estilista Reinaldo Lourenço, o texto some. E, no lugar dele, estão três páginas e meia cobertas por retângulos pretos. Hoje, a gente vai contar qual a relação entre essa curiosa diagramação e Ocimar Versolato.

Eu sou Patricia Oyama. Eu sou Gabriel Monteiro e este é Ocimar Versolato do Avesso, o podcast da ELLE Brasil que conta a história do primeiro estilista brasileiro a desfilar na semana de moda de Paris, a dirigir uma maison internacional e a entrar para o calendário da alta-costura. E que, apesar de todos esses feitos, foi praticamente esquecido pela moda nos dias de hoje.

Neste quarto e último episódio, vamos acompanhar a mais turbulenta sociedade de Ocimar, a investida no setor de cosméticos e os últimos dias do estilista.

(Fernanda Tavares) – Oi, poderia experimentar o novo modelo Ocimar Versolato?
(Vendedor) – Claro, por aqui!
(Fernanda) – Nossa, que lindo! Queria experimentar um pretinho desses.
(Narrador) – Novo Citroen C3 Ocimar Versolato. Vista esse carro.
(Fernanda) – Ficou perfeito em mim, você não acha?
(Narrador) – Citroen C3 Ocimar Versolato

Esse é o comercial do Citroën C3 Ocimar Versolato, que foi ao ar em junho de 2004. Pois é, a exemplo de grifes como Hermès e Dolce & Gabbana, Ocimar também teve um modelo de carro para chamar de seu. Aliás, se você escutou o primeiro podcast da série Do Avesso, vai se lembrar que Clodovil também deu seu nome a um veículo. No caso, o Monza Clodovil.

Mas, a julgar pelo número de ofertas de veículos usados que você encontra em uma busca pela internet, o carro de Ocimar teve uma adesão bem maior que a do Monza de Clodovil – que, estima-se, teve por volta de 12 unidades vendidas. O veículo foi comercializado nas cores prata e preto e, entre outros diferenciais, tinha bancos de couro, disqueteira para cinco CDs e o nome C3 Ocimar Versolato espalhado por pontos estratégicos, além de vir com uma bolsa de viagem de mão e um chaveiro desenhados pelo estilista. Em um vídeo de divulgação do lançamento, Ocimar explicou que a sua atuação foi nos detalhes:

“Minha parte foi de tentar trazer uma sofisticação ao produto, ao C3, que já existia. E essa sofisticação, como toda a sofisticação é toda feita de detalhes. O interior preto, dentro do carro, que é uma coisa que me incomodava em todos os carros que eu sempre tive, e o banco de couro, que é muito mais agradável que de tecido ou qualquer outro material… E os detalhes foram indo. Quer dizer, tudo o que a gente podia mexer pra sofisticar mais o C3, eu fiz.”

A escolha da garota-propaganda do comercial que você ouviu também foi uma decisão de Ocimar. Trata-se da top Fernanda Tavares, que  estava começando a carreira em Paris quando conheceu o estilista naquele desfile de alta-costura na Place Vendôme, em 98. Aos 17 anos, a modelo tinha ouvido falar da fama de difícil de Ocimar e contou pra gente que estava um tanto temerosa antes do primeiro encontro com ele.

“Sabe quando você vai, assim, esperando? Porque eu já fui… A gente já é tão… Em várias situações, assim, na moda, a gente é tão… não é bem tratado, vamos dizer assim, quando a gente tá começando, né? Por estilistas incríveis. Então, eu já fui, tipo, assim… Meu Deus do céu, seja o que Deus quiser. E foi maravilhoso, sabe? Ele foi uma pessoa, assim, super simpática, educadíssima. E era nessa época da alta-costura, que ele tava no auge lá.”

Depois daquele dia em Paris, Fernanda faria muitos outros trabalhos com Ocimar. Entre eles, o lançamento em 2003 da camiseta criada pelo estilista para o programa Fome Zero, ação social do primeiro governo Lula para combater a fome no país. Virou definitivamente a modelo preferida do designer e também uma amiga. Nada mais natural, portanto, que ela fosse a estrela do lançamento do C3 Ocimar Versolato. 

A collab do estilista com a marca de carros, por sinal, também foi fruto de uma amizade. E aqui começa a história da sociedade mais turbulenta e polêmica de Ocimar.

(Ocimar) – “Meu business é vender roupa, se eu não tiver roupa, eu não vou existir. Eu não vou viver de passarela a minha vida inteira, eu acho isso até patético. Então, numa certa hora
(Dória) – Patético e frustrante, ficar só no show-off…
(Ocimar) – Eu tinha…Só ficar subindo na passarela e dando entrevista pra quê? Fiz isso durante 10 anos da minha vida, tá ótimo, meu ego tá super satisfeito, agora eu quero o produto e quero vender.(Dória) – E agora você tem essa oportunidade.

Esse é um trecho de uma entrevista de Ocimar Versolato no programa Show Business, apresentado por João Doria na Rede TV, no início de 2005. Pois é, a gente até esquece, mas o ex-governador de São Paulo é jornalista e se tornou conhecido no Brasil primeiro como apresentador de TV.

(Dória) – É você, a Sandra Habib, tem mais alguém que participa?
(Ocimar) – Eu e a Sandra. A sociedade, só eu e a Sandra. A Sandra se ocupa da parte operacional da empresa.
(Dória) – Sandra é a parte de gestão, você a parte de criação.

Sandra Habib é casada com Sergio Habib, presidente da JAC Motors no Brasil e fundador do Grupo SHC, um gigante do varejo automotivo. Foi ele que trouxe a Citroën para o país e, na época em que o carro de Ocimar foi lançado, ele era o presidente da montadora francesa aqui.

Sandra era cliente de Ocimar desde que ele morava em Paris, já tinha entre 38 e 42 vestidos do estilista, segundo contou em uma entrevista à coluna de Mônica Bergamo, publicada na Folha de S. Paulo, em dezembro de 2004. Estava sempre no casarão da Rua Panamá e os dois se tornaram amigos muito próximos. Naquele 2004, a amizade virou uma sociedade, anunciada em agosto, com a abertura de duas lojas em São Paulo, uma na rua Haddock Lobo e outra no shopping Morumbi, mesmo bairro para onde Ocimar havia se mudado. E isso era apenas o começo.

“Ocimar, você inaugurou no ano passado sete lojas, 15 milhões de reais pra cima de investimento. Não foi ousadia demais pra você, num país com crise, com dificuldade, lançar uma grife de luxo já com lojas nos melhores shoppings, melhores endereços de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília?”

Quando essa entrevista foi feita, a nova empreitada de Ocimar estava há apenas cinco meses no mercado. E o tamanho do negócio e a rapidez na expansão, como se vê, impressionaram até João Dória. Em valores atualizados pelo IGPM, os 15 milhões citados corresponderiam a quase 56 milhões de reais nos dias de hoje.

Nessa conversa, a gente fica sabendo de outro números: a menor loja tinha 300 metros quadrados e, a maior, 900. A empresa empregava 300 funcionários diretos e mais 1500 pessoas indiretamente. 

A coleção tinha nada menos do que 800 itens. E estamos falando não apenas de quantidade, mas também de uma diversidade de ofertas que chamava a atenção. Havia desde sportswear e peças casuais, como jeans, camisas e trench coats, até vestidos com preços em torno de 30 mil reais. A marca mantinha linhas feminina e masculina, e toda uma ala de acessórios, que incluía anéis e abotoaduras, cintos e sapatos de couro.

Ou seja, a empresa de Ocimar passou de um ateliê com roupas sob medida para uma estrutura industrial, que tinha que abastecer as araras e vitrines de sete lojas em três cidades diferentes.

“Foi um furacão. A gente não dormia. Era produção, tinha que entregar, a loja ia ficar pronta, cadê todos os materiais, cadê todas as roupas… No meio de todo esse turbilhão, a gente tinha que fabricar tudo aquilo.”

Quem você acabou de ouvir e acompanhou essa transição radical da marca foi Douglas Roque, que começou a trabalhar com o estilista na rua Panamá, logo que ele voltou ao Brasil.

Douglas tem uma carreira tão diversificada que vale a gente fazer um parênteses aqui pra dar um resuminho do currículo dele. Ele começou como empreendedor no ramo de alimentação e teve o primeiro contato com a moda quando trabalhou na loja da Benetton, na rua Oscar Freire. Foi parar no ateliê de Ocimar por indicação do maquiador Carlos Carrasco, com quem a gente vai conversar ainda neste episódio. Depois do trabalho com Ocimar, Douglas passou a dar consultoria para marcas de moda, foi sócio de uma fábrica de sapatos femininos, montou uma empresa de e-commerce, lançou um aplicativo de segurança pública, trabalhou com marketing esportivo de futebol americano e agora, há quase sete anos, mora na Itália, onde trabalha no ramo imobiliário.

É provável que você já tenha visto matérias sobre casas à venda por 1 euro na Itália. Então, foi o Douglas que apresentou essa possibilidade para o Brasil, juntamente com um sócio italiano. Ele trabalha em conjunto com as prefeituras de pequenas cidades, que querem atrair novos moradores para estimular o desenvolvimento urbano.

Bom, com toda essa informação sobre Douglas Roque, fica mais fácil entender o papel multifunções que ele teve na empresa de Ocimar. Na época do ateliê da rua Panamá, ele era o responsável pelo atendimento às clientes. Tirava as medidas, passava para as costureiras e acompanhava toda a produção das peças. Quando a nova sociedade teve início, ele continuou coordenando o sob medida, mas passou também a cuidar do visual merchandising das lojas e a participar do desenvolvimento de produtos, indo atrás de materiais e fornecedores. Ah, e ele era o modelo de prova da linha masculina também.

“Então as roupas que tenho dele, até hoje, são sob medida pra mim. Pensa que luxo: eu sou uma pessoa que tem roupas sob medida do Ocimar!”

E, contrariando a fama que Ocimar tinha em Paris, Douglas não tem nenhuma reclamação do ex-chefe em relação aos sete anos em que trabalhou com ele. Pelo contrário:

“Óbvio, ele era extremamente exigente com as coisas que a gente tinha que fazer, mas ele era uma pessoa doce em relação a isso, sabe? Obviamente, ele não tinha paciência com a pessoa que não ia muito com o pensamento, ou era meio lento em relação a pensamento, essas coisas. Ele não tinha muita paciência, não. Mas, no geral, ele era uma pessoa muito bacana.”

Douglas conta que, com Ocimar, aprendeu a ter uma visão global do processo. E que a notícia do fechamento das lojas pegou todo mundo de surpresa.

“Foi um dia bem estranho, porque estava todo mundo lá, pediram uma reunião com todo mundo e, nessa reunião, disseram: ‘Muito obrigado, amanhã ninguém mais abre, ninguém mais precisa vir’.​ No outro dia, estava fechado. Eles falaram que iam manter algumas lojas abertas só até entregar, até fechar tudo. Então algumas pessoas ficaram ainda para encerrar o negócio em si: alguns vendedores, alguns gerentes. Mas aí já não era mais o Ocimar; a sociedade já tinha sido encerrada. Foi bem brusco. Bem brusco.”

Então, foi isso: no dia 31 de março de 2005, na véspera do seu aniversário de 44 anos, Ocimar viu ruir mais uma sociedade. As sete lojas, abertas há apenas sete meses ou menos, foram fechando uma a uma, começando pelo ponto do Shopping Pátio Higienópolis.

“Eu fiquei bem aborrecido, porque… Tudo para dar certo. Não sei o que deu errado na parte da conta. O projeto era muito audacioso, mas tinha tudo para dar certo. Talvez alguns erros de cálculo ali, não sei qual foi a ideia de todo mundo. Mas talento não faltava, coisas lindas não faltavam, clientes não faltavam. Então não sei o que aconteceu no final.”

Se Douglas ficou aborrecido, imagine Ocimar Versolato. O último capítulo do seu livro é todo dedicado à sociedade com um casal que ele chama de Natasha e Tony. O estilista aponta problemas que vão desde os termos do contrato, que não davam a ele nenhum direito administrativo, até os possíveis motivos para o fechamento das lojas.

Critica escolhas e métodos da administração, como a precificação das peças e salários muito acima do mercado pagos a alguns colaboradores. Aponta ainda uma certa má vontade para resolver questões como o pagamento a fornecedores, que consequentemente não entregavam os pedidos, acarretando na interrupção da produção e atrasos no cronograma. Faltavam itens básicos, como linhas e zíper, descreve o estilista.

Segundo Ocimar:

“Para resumir a história, acabamos encerrando a sociedade de forma nada amigável. E com muitas perguntas sem respostas. Uma delas é por que alguém investiria tanto dinheiro em um negócio, muito mais do que o anunciado, para fechá-lo seis meses depois? E como tiveram coragem de dispor da marca Ocimar Versolato, construída ao longo de anos com muita seriedade e profissionalismo, de maneira tão inconsequente?” 

A gente procurou Sandra Habib pra ela contar o seu lado da história. Sandra não quis gravar entrevista, mas mandou algumas mensagens pelo WhatsApp. Ela diz que Ocimar tinha realmente um enorme talento, mas também era irresponsável e mal-agradecido, entre outros defeitos, na mesma proporção. Cita alugueis atrasados da casa no Jardim Europa que ela teria pago para ele. E escreve ainda:

“Investi numa fábrica com várias costureiras de alta costura, máquinas bordadeiras etc. Abri várias lojas maravilhosas. 

Ele  somente conseguiu entregar uma única coleção. Durante 7 meses com as mesma roupas nas araras e sem novidades as vendas caíram. A operação se tornou inviável. Não tive outra opção a não ser encerrar, fechar as lojas, liquidar roupas que já estavam há quase um ano em estoque e demitir o pessoal. Da noite para o dia ele se tornou o meu maior inimigo. Não me atendia, não mais falou comigo, virava a cara quando me via, contratou um advogado, me processou etc. Obviamente perdeu a ação.”

Sandra encerra a troca de mensagens dizendo que Ocimar foi a maior decepção que teve em seus anos de vida adulta e que só essa lembrança já a entristeceu, porque ela realmente gostava muito dele e considerava Ocimar o seu melhor e mais querido amigo. 

Como se vê, dez anos depois, o fim dessa sociedade ainda é um assunto sensível pra Sandra Habib, assim como para os familiares de Ocimar que a gente entrevistou. E, para o estilista, foi um abalo forte, que ele não queria demonstrar em público, como conta o paisagista Alex Hanazaki.

“E nesse período, eu lembro que ele se recolheu, né? Se afastou, mas percebia que ele tava, ele não queria falar com ninguém. É. Eu ligava para ele, ele falava: “Ai, não tô bem ainda para falar”. Eu acho que ele se isolou no Rio de Janeiro, se eu não me engano, junto com o Ney Mato Grosso.”

Alex conheceu Ocimar no início dos anos 2000 e chegou a fazer o paisagismo de algumas lojas do amigo. Junto com a arquiteta Raquel Silveira, que a gente ouviu no episódio passado, e o médico Fabio Jennings, que a gente ainda vai escutar, ele formava um grupo de amigos que foi muito próximo de Ocimar nessa última fase, no Brasil. E Alex acredita que a dissolução dessa sociedade teve consequências inclusive para a saúde do amigo.

Logo depois que Ocimar retornou do período de isolamento no Rio, eles voltaram a sair, e uma noite combinaram um jantar. Mas o estilista não apareceu, porque havia sido internado em um hospital, após sofrer um infarto.

“Só ali já foi, sei lá, não sei quantos stents no coração. Acompanhei toda essa cena. Então, isso era reflexo muito claro do que ele sofria, né? Sofria calado.”

O cantor Edson Cordeiro, que acompanhou todas as quedas da carreira de Ocimar, fala um pouco mais sobre como o amigo lidava com esses baixos.

“E eu sempre ficava muito preocupado quando caía. Eu falei, como é que ele vai lidar em não ser o foco, em não poder sustentar o glamour que ele gostava tanto? Eu tinha muita preocupação. Será que ele vai segurar agora? E ele levantava. E aí, né, de repente ele tinha esses altos e baixos, porque ele falou uma coisa importante pra mim. Ele

falou assim, essas pessoas são tão cafonas, imaginando que o Lagerfeld nunca caiu, que o Mugler nunca faliu. Só cai quem arrisca, e eu nunca vou deixar de arriscar.”

Então, em 2007, Ocimar Versolato estava pronto pra arriscar novamente.

“Esse meu primo falou assim: ‘Nossa, hoje eu conheci o Ocimar Versolato. Parece que ele é famoso’. E eu já conhecia o Ocimar. ‘Nossa, o Ocimar Você conversou com o Ocimar?’ ‘É, conversei!’ Falei: ‘Que legal, pô, o cara é um gênio’. Eu sempre admirei ele. E aí meu primo teve contato com ele de novo. Eu falei assim: ‘Pergunta para ele se não quer lançar um perfume com o nome dele’. Foi bem assim!”

Esse que a gente ouviu agora é Marcelo Terra. Marcelo mora hoje nos Estados Unidos, onde trabalha com concreto e construção. Em 2007, ele morava em Itapetininga e já trabalhava com concreto, mas paralelamente, tinha também uma empresa de cosméticos populares, com venda de porta a porta, chamada DNA Brasil.

O primo que ele menciona trabalhava numa fábrica de ternos e conheceu Ocimar quando o estilista procurava um fabricante para produzir os ternos que ele estava criando para a inauguração do Hotel Fasano, no Rio de Janeiro.

“E aí meu primo, acho que da próxima vez que se encontrou com ele, falou: ‘Ocimar, meu primo mexe com perfume, tem uma linha de perfume e perguntou se você não quer lançar um perfume com o nome dele’. ‘Ah! Pede para ele vir conversar comigo.”

Marcelo foi conversar com Ocimar e adorou o estilista. Ocimar, por sua vez, disse que sempre pensou em lançar algo assim e combinou deles amadurecerem a ideia. Bem, a ideia não só amadureceu como cresceu exponencialmente.

“E aí começou. De um perfume virou quase mil itens, né?”

Durante dois anos, Ocimar trabalhou intensamente na pesquisa e no desenvolvimento dos produtos, que incluíam várias tonalidades de batom, sombra, base, delineador, enfim, uma linha completa de maquiagem, além de loções corporais e 13 fragrâncias, todas unissex. Marcelo conta que Ocimar criou até as embalagens, que eram prateadas, com o nome do designer escrito em preto.

“Ele desenhou, ele escolheu a cor. Ele ia comigo mas fábricas pra ver a produção, ver a qualidade. Ele participou 100% de tudo. De tudo que você imaginar.”

Diferentemente do público alvo de Ocimar na moda, os cosméticos da marca miravam na classe média, conta Marcelo. A ideia era oferecer um produto acessível, de ótima qualidade e com um visual de artigo de luxo. E uma das explicações para eles conseguirem trabalhar com um custo baixo era justamente a onipresença de Ocimar nos processos, que possibilitava uma equipe enxuta. O desenvolvimento das fragrâncias, Marcelo conta, levou quase um ano.

“E ele misturava as coisas. Então ele queria as essências básicas. Ele virou como se fosse um químico testando na casa dele. Eu ia toda semana na casa dele. E ele misturando, colocava um pouquinho de uma coisa, um pouquinho de outra. ‘Não, mas aqui eu preciso de tal coisa’. É assim. Foi incrível. Foi uma experiência fantástica trabalhar com ele.”

Na criação da linha de maquiagem, Ocimar contou com a ajuda valiosa do maquiador Carlos Carrasco. Com uma carreira de 44 anos, Carrasco é um dos profissionais de beleza mais experientes em atividade no Brasil. Ele conheceu Ocimar ainda na fase de Paris e, quando o estilista voltou, fez o make dos desfiles na Casa de Criadores, entre outros trabalhos. 

“Ele trazia para mim as amostras para eu testar e ver se esse produto era viável ou não. Aí ele me ligava e ele falava, passa aqui em casa. E aí eu pegava o meu carro, eu ia para a casa dele, ele abria a caixa de Pandora com os produtos dele em desenvolvimento, né? E aí eu ajudei muito ele nessa coisa de textura, de fixação, de pigmento, do cheiro da cosmética, porque ele tinha uma coisa com cheiro muito peculiar, né? Ele tinha… E a marca dele tinha um cheiro que era dele. Nenhuma outra marca, eu acho que tinha o mesmo cheirinho que tinha. as coisas do Oci.”

O lançamento da Ocimar Versolato Cosmetics, enfim, foi marcado para o dia 7 de maio de 2009, no hotel Emiliano, em São Paulo, e contou com a presença de nomes como Gloria Maria, Mel Lisboa, Alicinha Cavalcanti e outros vips. Afinal, os cosméticos de Ocimar poderiam até ter como público alvo a classe média, mas o luxo nunca saía do seu criador. O catálogo da marca, na verdade, não era um catálogo: era praticamente um livro de moda, com direção de arte do próprio designer e fotos assinadas por Rogério Mesquita, que hoje mora em Bali, na Indonésia.

“E aí eu tô fotografando a natureza aqui. Engraçado que eu comecei fotografando a natureza, aí fiz moda, publicidade e agora eu voltei pra onde eu comecei.”

Com Ocimar, Rogério também fez as fotos do álbum Beijo Bandido, de Ney Matogrosso, que acabou levando o troféu de melhor projeto visual de 2010 no Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira. Mas o primeiro trabalho do fotógrafo com o estilista nunca chegou a ser concluído. Trata-se de um livro em que vestidos do designer foram fotografados em new faces, ou seja, modelos que estão começando na carreira.

“Um dia a gente ia almoçando, eu falei assim: ‘Ocimar, você tem que ter um livro onde os estudantes de moda falem sobre você, sobre as suas técnicas, sobre as suas falas. Porque ele era uma pessoa muito engraçada.”

Esse é Dinho Batista, que convenceu Ocimar a fazer um livro pra deixar pra posteridade e apresentou o estilista ao fotógrafo Rogério Mesquita. Ele é assessor de Fernanda Tavares, designer e, há 20 anos, é instrutor de passarela, ou seja, ele ensina modelos a andar de salto com algumas técnicas que desenvolveu. Na nossa conversa, Dinho contou que a produção do livro foi uma verdadeira força-tarefa.

“E ele começou a trazer vestidos mais maravilhosos de clientes. Eu lembro que veio vestido de Nova York. Tinha um amigo que ia trazer vestido de Paris. E ele tava falando com um amigo que fazia assessoria de algumas princesas lá dos Emirados, pra trazer roupa de princesa também, que ele tinha feito com essas mulheres. Uma coisa assim. Ele começou a articular as pessoas. Economicamente, ele não tava tão bem, mas todo mundo dizia assim: vamos fazer, vamos ajudar, vamos realizar esse negócio.”

Foram feitas várias fotos, mas, apesar do mutirão pra fazer o projeto acontecer, ele foi abortado no meio do caminho por desentendimentos nos bastidores. Dinho se recorda que o motivo da briga foi uma questão com a agenda das modelos, que ia ter que ser alterada por causa da São Paulo Fashion Week, e o estilista não admitia a troca.

“E aí eu falei assim, eu falei: ‘Ocimar, eu vou me ausentar do livro por um tempo. Não dá agora, porque eu acho que você tem que melhorar o seu humor. Você tem que melhorar a sua dinâmica de lidar com a gente pra eu poder voltar. Ele falou: ‘Você vai se arrepender’. Eu falei: ‘Eu sei que eu vou me arrepender, mas eu vou me ausentar, depois a gente volta.”

O livro nunca foi retomado. Rogério tem as fotos guardadas em seus arquivos e você pode conferir algumas delas na reportagem sobre este podcast, publicada no volume 22 da ELLE impressa, lançado em dezembro. E, como o assunto é livro, a gente vai esclarecer agora o mistério das páginas negras de O Brasil na Moda, mencionado na abertura deste episódio.

Como já deu pra imaginar, a tinta preta que cobre três páginas e meia do livro esconde o verbete que falava sobre Ocimar Versolato. E a explicação pra isso é que Ocimar não autorizou a publicação de imagens dele nem da entrevista feita para o livro. Numa reportagem publicada pela Folha de S. Paulo na época do lançamento, o diretor criativo Giovanni Bianco diz que o estilista tinha assinado uma autorização, mas depois mandou uma carta dizendo que não queria estar no livro. Já Ocimar declarou que não tinha assinado nada. Abre aspas para ele: “O que disse foi que poderia autorizar se me apresentassem o material pronto. Achei amador, não estava no nível do meu trabalho.”

A gente procurou o co-autor do livro e criador da São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, que não quis gravar entrevista. Mas confirmou que o problema da publicação foi a ausência da autorização de Ocimar. “Não daria mais para imprimir o livro, a solução foi pintar a página”, escreveu Paulo em mensagem no WhatsApp.

Uma das perguntas que norteou este podcast é entender por que Ocimar Versolato foi praticamente esquecido pela moda brasileira. Como se vê no caso desses livros, ele próprio teve uma participação direta nesse processo. Mas não se trata só disso.

Mario Canivello, assessor de imprensa de alguns dos maiores nomes da classe artística brasileira, entre eles, Chico Buarque e Sonia Braga, foi amigo e assessor de Ocimar. Ele respondeu as nossas perguntas por escrito e avalia que os desafetos que o estilista criou na imprensa especializada ao longo de sua carreira ajudaram a consolidar esse apagamento após o fim da sociedade com Sandra Habib. Abre aspas para Canivello:

“Com a perda das lojas, veio gradativamente a perda dos holofotes. Obviamente não foi uma ação orquestrada da imprensa, mas os jornalistas que ocupavam posições de poder e que haviam tido desavenças com Ocimar nunca mais abriram espaço para ele depois desse momento.”

O maquiador Carlos Carrasco aponta ainda um outro motivo que nada tem a ver com o gênio difícil de Ocimar. A memória curta generalizada que assola o Brasil.

“Não existe memória. Eu acho que em tudo no Brasil, né? O Brasil… A gente tem um problema muito sério, que é… O Brasil precisa e gosta da juventude. O Brasil precisa e gosta… Está aí. E aí, quando você envelhece, você perde um valor. É diferente na Europa, por exemplo. Eu tenho amigos da mesma época que eu, que eu fiz desfiles na Europa, eu fiz coisas na Europa junto com eles, e que eles continuam num patamar muito maior. Eles são os mais caros por causa da experiência. Aqui no Brasil, não. Então, existe uma coisa que é o esquecimento, é uma falta de memória mesmo. Em tudo. Não é só na moda. Eu acho que em todos os nichos tem esse esquecimento, porque está sempre precisando de um novo. É sempre o novo, é sempre o novo. E eu acho genial, eu também já fui novo um dia, acho genial. Mas a gente não pode esquecer, não pode perder a memória de quem lutou, de quem fez. É a mesma coisa você perguntar para uma mulher hoje e ela não saber quem é a Simone de Beauvoir. Então, é cair no esquecimento uma luta.”

Para a jornalista Lilian Pacce, o motivo do apagamento de Ocimar tem relação com a falta de consistência na carreira do estilista.

“Porque não teve consistência. Então, o Ocimar foi um estilista de fase. Fases rápidas para a moda. Muito rápidas. Você pode ver que cada fase dessa deve ter durado, no máximo, três anos cada uma, e daí, com intervalos de silêncio e mistério absoluto. Porque o Ossimar também gostava dessa coisa do mistério. Se ele estava por baixo, ele não queria que ninguém soubesse do que estava acontecendo. E talvez essa questão… A moda é muito cruel também, porque a moda muda, não é? E se você, de alguma maneira, não… Se você não criou um estilo de verdade, ou se você não acompanha as mudanças, você fica para trás. Então, acho que ele não teve tempo de construir uma identidade dele, que você olhasse e falasse, isso aqui é o Ocimar. Então, acho que para o público, ele nunca criou uma identidade. Por isso que ele não… Que ele chegou… Surgiu e sumiu, não é?”

Por fim, há também a explicação de Raquel Silveira, que adaptou uma frase que costuma ser usada na política para a seara fashion:

“Eu acho que a moda não carrega feridos. Não carrega, né?”

Voltando pra linha do tempo de Ocimar. Pouco depois do lançamento da sua marca de cosméticos, o estilista deixou os sócios tocando a empresa no Brasil, que funcionava em um esquema de franquias, e saiu do país novamente. Dessa vez, tendo Milão como destino.

A partir de 2010, então, Ocimar Versolato some de vez do radar da moda e da imprensa. Mas não ficou parado. A empreitada com os cosméticos durou até 2011, quando a sociedade acabou, dessa vez, sem dramas de nenhum lado. Ocimar continuou a criar figurinos para os show de Ney Matogrosso e já planejava uma nova mudança em sua vida, como lembra Alex Hanazaki:

“Naquele na naquele período ele já estava com um assunto meio de… Ele falava assim: ‘Olha, com moda não dá para ganhar dinheiro’. Então eu tenho que fazer alguma coisa que me dê dinheiro porque aí sim depois com dinheiro eu faço a moda que eu quero’. Ele falava isso.”

Ocimar, lembra Alex, dizia que nunca mais queria ter sócios na vida. E que tinha chegado à conclusão de que o melhor caminho para ganhar dinheiro era entrar para o mercado financeiro. Passou a estudar o assunto com obstinação, como acontecia com tudo aquilo que se dispunha a fazer, para montar um fundo de investimentos.

De Milão, Ocimar se mudou para Luxemburgo. Segundo amigos, a mudança já visava negócios futuros, já que Luxemburgo tem taxas mais atrativas para empresas do que a França, por exemplo. Era lá, no pequeno país europeu encravado entre França, Alemanha e Bélgica, que o estilista tinha fincado residência em seus últimos anos de vida. Mas ele não estava lá quando sofreu o AVC fatal. 

“Ele tava na minha casa hospedado. Então, ele tava com as coisas dele, ficou hospedado, ele ficava às vezes hospedado em casa ou em casa ou na casa do Alex. Dessa vez ele ficou em casa. Eu recebi a notícia porque ele ia viajar no outro dia, eu tinha falado com ele, fica em casa à vontade e chegou no outro dia, eu acordei, ele não tava, não tinha, eu disse ah, deve ter dormido na casa de alguém, do Alex ou, que ele era bem notívago, né? Ele sempre ficava acordado até uma tarde. Ah. E aí, foi pro trabalho e depois eu recebi a ligação. De que ele tinha passado mal e que tinham levado ele no pronto-socorro.”

Este é o médico Fábio Jennings. Naquele dezembro de 2017, Ocimar estava de passagem pelo Brasil, hospedado na casa dele. No dia 3, um domingo, o estilista havia passado o dia com Alex Hanazaki e a estilista Adriana Bittencourt. À noite, Ocimar se deu conta de que havia esquecido um remédio na casa de Alex e os dois combinaram de se encontrar de novo pra devolução do medicamento e aproveitar pra jantarem juntos em um restaurante japonês no Itaim. 

Alex voltou pra casa depois do jantar, mas tudo indica que Ocimar resolveu dar uma esticada na noite. 

“E aí, no outro dia eu fui trabalhar e quando eu recebi um telefonema de manhã falando que ele tinha tido um AVC e tava no hospital, né? E lá no hospital, parece que deu entrada com uma pessoa não conhecida, porque acharam ele a alguém ligou ah de madrugada falando que tinha uma pessoa passando mal, na rua tal, tal, tal.”

Ninguém sabe dizer ao certo em que circunstâncias Ocimar teve o AVC, mas Alex acredita que havia alguém com ele no momento, que chamou o socorro. No hospital, ele viu na tela do celular de Ocimar piscar uma mensagem de uma pessoa perguntando se ele estava bem, que tinha ficado preocupado com ele.

Alex também viu uma mensagem de Sebastião Salgado e entrou em contato com o fotógrafo pra avisar do acontecido. Um dos compromissos de Ocimar quando voltasse para a Europa era passar em Paris para finalizar o vestido que Lélia Salgado usaria na cerimônia de posse do marido como membro da Academia de Belas Artes da França. Mas o vestido nunca foi finalizado.

Quatro dias depois de ser internado, Ocimar Versolato morreu. E foi enterrado em sua cidade natal, São Bernardo do Campo.

A morte de Ocimar, em 8 de dezembro de 2017, aos 56 anos, pegou os amigos de surpresa. Nos últimos tempos, ele estava em sua melhor forma. Havia emagrecido, parado de fumar, estava se cuidando. Nas fotos mais recentes, parecia até mais novo do que quando havia se mudado para Milão.

O próprio Ocimar, no entanto, sabia que poderia não ter muito tempo de vida. Depois daquele ataque cardíaco relatado por Alex Hanazaki, o estilista sofreu outros dois infartos, em Luxemburgo, que ninguém do círculo próximo ficou sabendo, com exceção da sobrinha Yasmine.

Foi em 2015. Ele era muito preocupado com o meu aniversário. Então em 2015 eu fiz 20 anos e ele me preparou uma viagem surpresa pra Nova York que era a primeira vez que eu iria conhecer. E levou o pack completo: que era minha avó, minha mãe e eu. As três Marias. E fomos a Nova York e depois ele já estava morando em Luxemburgo e minha mãe e minha avó voltaram pro Brasil e ele pediu que eu ficasse. Então ok, eu falei ok, fico, não tem problema, estávamos em Londres, perdemos voo. No dia seguinte, a gente conseguiu chegar em Luxemburgo, dormimos, e no dia seguinte eu encontrei ele quase desmaiado na cama. Conseguimos falar com o Fabio. Eu não falo nada de francês, não conseguia nem chamar uma ambulância, porque não tinha como. Então eu ajudei a colocar a meia de compressão e ele foi não voltando mas com possibilidade de ir dirigindo ao hospital. Ele foi dirigindo ao hospital. Quando ele entrou, ele entrou direto na UTI porque ele estava infartando.”

Ocimar fez a sobrinha prometer que não contaria sobre o ocorrido com ninguém. E uma semana depois do susto, foi com ela dirigindo, de Luxemburgo a Mônaco, assistir à final de um campeonato de tênis. Dois anos depois, apenas um mês antes de morrer, Ocimar sofreu o terceiro infarto. E novamente pediu segredo à Yasmine. 

“Esse eu não estava com ele. Eu estava em Madri e ele foi socorrido por um amigo em Luxemburgo, mas ele me chamou e eu fui correndo a Luxemburgo. E nesse terceiro já tinham avisado que ele tinha 3 meses de vida com esse coração, que ele não ia aguentar esse coração e foi aí pela primeira vez que eu vi ele preocupado.”

Yasmine manteve sua promessa e só revelou as duas ocorrências à família após a morte do tio. E Ocimar, apesar de não ter falado sobre os infartos como ninguém, dava sinais de que algo estava diferente, como conta Hanazaki.

“No final da vida dele, ele já estava uma pessoa meio que… Parecia outra pessoa, na  verdade. Parece até que ele já meio que sabia um pouco. É, porque ele tava uma pessoa muito mais doce. Muito mais, ah, uma pessoa muito mais, eh, não queria mais embates, sabe?”

Pedro, o sobrinho, diz que o estilista ficou ainda mais próximo da família e que pela primeira vez teve uma conversa em um tom mais emotivo com ele. Já a irmã, Omara, conta que sentia o irmão mais leve e divertido, num espírito de querer curtir a vida. 

Depois do primeiro infarto, Ocimar procurou se reconciliar com alguns amigos. Uma dessas reaproximações foi com Corinne Lucquiaud, com quem ele havia rompido no início da sua escalada para o sucesso. Em uma viagem a Paris, o estilista pediu para se encontrar com a francesa e se desculpou, contou Corinne.

“And then he called me up, you know, he sent me a text that I want to see you. I’m coming to Paris for the perfume. I want to see you. So then we became friends, you know, and he apologized.”

Mas, apesar do perigo de morte iminente, Ocimar também tinha muitos planos. Estava trabalhando no figurino de um novo show de Ney Matogrosso e planejava uma exposição de fotos: imagens abstratas, tiradas da arquitetura que ele observava nas cidades que visitava. Sobre a empreitada no mercado financeiro, Omara relata que ele passou a dominar o assunto e estava indo muito bem na área.

E aí fica aquela dúvida. Se ele tivesse tido mais tempo, será que a moda ainda veria mais um renascimento de Ocimar Versolato?

O DJ Eduardo Corelli pode ter uma pista. Naquele mês de dezembro de 2017, quando ele chegou pra tocar no club Jerôme, na Consolação, numa quarta-feira, um colega avisou que um amigo tinha ido atrás dele no sábado.

“Quando eu cheguei, falou: ‘teve um amigo seu que veio sábado aqui, um careca’. Obrigado, amigo meu careca, todo mundo já está 60 menos, eu falo que a minha geração é 60 menos, tá todo mundo careca. Careca de óculos, falei, obrigado. ‘Veio no sábado, perguntou se ia tocar e foi embora quando falaram que você toca na quarta’. Eu, whatever, né, quem será que veio aí me procurar no sábado.”

Edu esqueceu do assunto e continuou tocando. E tomou um susto quando Ocimar surgiu na sua frente, na maior animação, acompanhado do DJ Felipe Venâncio.

“Ele chegou, o Venâncio chega de mão dada com ele, de cabeça baixa na cabine tocando Silvestre, vejo ele, foi uma surpresa, eu falei, viado! ‘vim te buscar porque 2018 a gente volta pra Paris pra fazer alta-costura.’”

Ocimar Versolato do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil e faz parte da série Do Avesso, que resgata grandes nomes da moda brasileira. O primeiro biografado foi Clodovil Hernandes, que teve sua trajetória destrinchada em seis episódios, também disponíveis nas principais plataformas de áudio.

Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. 

Este episódio usou trechos do programa Show Business, apresentado por João Doria, na rede TV e do vídeo de divulgação do C3 Ocimar Versolato e do comercial desse mesmo veículo.  

 

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