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A criadora de conteúdo Yasmim Fassbinder, 27, percebeu que havia algo errado quando estava fazendo uma série de stories em que se maquiava. Ela terminou o visual e se achou linda no espelho. Mas, na hora de fazer a foto, achou que a pele, mesmo maquiada, não estava bonita o bastante e sentiu vontade de usar um filtro para disfarçar. "Foi quando me toquei que estava começando a me achar bonita apenas quando usava um filtro", relembra ela.

Dentro de casa e sem maquiagem a maior parte do tempo, muitas pessoas passaram a enxergar mais de perto suas pele naturais. Há também as incontáveis videoconferências, que fazem com que sejamos impactados pela nossa imagem na telinha no canto o tempo todo. Situações como essas têm nos feito pesar a mão nos filtros do stories. "Ainda temos a sensação de que não podemos aparecer sem maquiagem ou descabelada nos stories, principalmente quem leva o Instagram para o lado mais profissional", diz Yasmim.

Diante da perspectiva de mostrar, na internet, um rosto que não é seu, algumas pessoas passaram a fazer o movimento contrário: o de abrir mão dele. Desde que teve a reflexão sobre se sentir bonita apenas na sua versão "photoshopada", Yasmim seguiu o caminho de outras criadoras, como Niina Secrets, que decidiram fazer um "detox" de filtros. Ela está sem usá-los há cerca de um mês. "Era para ser uma semana, mas ver outras mulheres tomando a mesma atitude me inspirou. Agora, uso apenas filtros mais divertidos, não os de beleza".

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Yasmim Fassbinder do lado esquerdo maquiada e sem filtro e, do lado direito, com filtro. A criadora de conteúdo digital Yasmim Fassbinder resolveu parar de usar os "filtros embelezadores" Yasmim Fassbinder

De acordo com a política de uso do Instagram, os filtros de cirúrgia plástica (aqueles que mostram modificações radicais no rosto da pessoa) são proibidos para resguardar a saúde mental dos usuários. Os de embelezamento (com modificações mais suaves), no entanto, são liberados. Normalmente, eles alisam a pele, afinam o rosto e o nariz, além de aumentar os lábios, dando praticamente um rosto novo ao usuário.

Yasmim conta que, uma vez, mandou uma foto usando um filtro para os amigos perguntando se deveria fazer os procedimentos estéticos que lhe proporcionariam aquela imagem. Ela não é a única a passar por esse dilema. O Google registrou, em julho, um aumento de 4800% nas buscas pelo termo "rinoplastia", impulsionado pelo fato de famosos e criadores de conteúdo terem aproveitado a quarentena para fazer intervenções estéticas. Em 2017, um estudo da Academia Americana de Cirurgiões Plásticos revelou que a motivação de 55% das pessoas que fizeram rinoplastias em 2017 foi o desejo de sair melhor em selfies, como já contamos na matéria "Os filtros do Instagram estão mudando nossa aparência na vida real?".

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Dados como esses foram parar em um filtro chamado Perfect Face, o primeiro de embelezamento da criadora de filtros para o Instagram Bruna Kuntz, 21, do Rio de Janeiro. Mas ele é um pouco diferente dos tradicionais. Nele, o rosto da pessoa começa digitalmente harmonizado, mas vai se desmontando enquanto os dados são expostos. "A camada de embelezamento costuma bombar, por isso os criadores continuam criando. Mas, quando vi pessoas do movimento corpo livre indo contra eles, decidi fazer algo que representasse esse assunto", diz a designer. Até o momento da entrevista, a criação de Bruna já havia tido mais de 17 mil compartilhamentos e por volta de 4 milhões de impressões.

Foram dados como os apresentados por Bruna que impactaram a criadora de conteúdo Mariana Cyrne. Com mais de 50 mil seguidores, ela também embarcou, neste mês, em um desafio para abrir mão dos filtros. "Eu discuto aceitação do corpo nas redes sociais, de naturalizar outros padrões, mas percebi que não estava naturalizando outras características, como a pele imperfeita", diz ela. "Eu pegava o celular para algo trivial nos stories e já ia procurar algum filtro. E, analisando, os que eu costumava usar, eles sempre tinham essa pegada de deixar o rosto liso, afinar o nariz e aumentar os lábios. Entendi que isso era hipocrisia, que ia muito na contramão do meu discurso."

Mariana está lidando bem com o processo de mostrar suas rugas e manchinhas nas redes. "Está sendo muito positivo olhar para as minhas olheiras e meus cravos, mas tive certa dificuldade em aparecer sem maquiagem, sem me preocupar se estou com cara de sono, de cansada". De fato, lidar com esse primeiro estranhamento pode não ser fácil para todo mundo.

Mariana Cyrne do lado esquerdo maquiada e sem filtro e, do lado direito, com filtro. A criadora de conteúdo digital Mariana Cyrne também decidiu fazer o exercício de aparecer sem filtros para seus seguidores.Mariana Cyrne

A consultora de moda Amanda Máximo, 32, por exemplo, tem muito receio de aparecer nos stories "de cara lavada". "Tenho muitas marcas de acne, então sou bem insegura com a aparência da minha pele", afirma. Já a empresária Tatiana Lopes, 35, tem impressão que, na foto, todos seus "defeitos" ficam mais aparentes. "A rosácea fica mais evidente, alguma espinha ou sinais de envelhecimento", diz ela. "Às vezes, é inconsciente usar o filtro, já está no automático."

Tanto a empresária como a consultora acreditam que serão julgadas por aparecerem sem a camada fotográfica, que não serão ouvidas ou não terão seu espaço no meio de tanta gente "perfeita" que é o Instagram. "Acho que as pessoas não vão me achar tão inteligente ou maravilhosa quanto eu sei que sou, é até contraditório o que estou falando", complementa Tatiana.

"É que a cara lavada realmente é difícil. É uma exposição, é se confrontar em uma realidade nua e crua, sendo que estamos acostumados o tempo todo a ter a pose perfeita, a pele perfeita, a maquiagem", diz Mariana Cyrne. "É uma busca incessante pela perfeição. As pessoas que viram a nossa referência nas redes sociais usam o tempo todo. Sempre existe o corpo que almejamos, a pele que almejamos. Então, usar o filtro nos aproximaria desse ideal."

Por isso, tanto Mariana como Yasmim concordam que a responsabilidade de alertar sobre o exagero do uso de filtros de Instagram está, em parte, nas mãos dos criadores. "Inspiramos muito as pessoas, então nos verem falando sobre esse assunto tão relevante pode não fazer elas pararem de usar filtro, mas pelo menos vai causar a reflexão", fala Yasmin.

Bruna Kuntz alerta, ainda, que os designers de filtros também devem colocar a mão na consciência antes de fazerem mais uma "camada de embelezamento". "Foi um pouco por causa disso que eu criei algo que vai contra esse movimento de deformação facial. Tem meninas crescendo com filtro. Imagine uma garota de 12 anos que só se acha bonita com uma camada que afina o nariz? O nosso trabalho pode ter impacto na relação dela com o corpo e com a autoestima", finaliza ela.



"O frizz é uma das últimas coisas que você derruba da ditadura do liso", afirma a hair stylist Luciana Safro que explica, junto com outras profissionais, por que a cultura de combate ao frizz que é especialmente intensa no Brasil não faz sentido.

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