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Junto com por favor e obrigada, propósito é uma palavra mágica. Causa. Por causa de. Ou por causo. Como preferem tantas.

Passou junho, que parecia que não iria passar. Nunca. Nem que fosse chegar, junto com, por favor e obrigada, a vacina tomada numa igrejinha do Leme. Agradeci todas as nossas senhoras ali presentes, e olhar para outras mulheres da mesma idade me fez viajar ainda mais: quem seriam elas? Que vida levam? Compartilham das mesmas dores e ansiedades minhas, ficam elas alegres com as mesmas interações (seriam mães?), elas que são todas filhas. Tão diferentes de mim, e tão diferentes entre elas, nas roupas, nos cabelos, nas vozes, traziam ali como denominador o recorte temporal, todas ali juntas naquela hora de graça, aquela hora tão esperada por todas. A moça na minha frente me pede para fotografá-la no ato da agulha no braço. "Pra mostrar pro meu chefe", disse, como se pra provar o motivo de ter faltado ao serviço. Talvez não. Fui sozinha. Não quis pedir pra ninguém tirar foto. Sei lá. Também não postei o papel da vacinação mas registrei a tenda do SUS e as mulheres que me receberam. É sim emocionante. Fiquei com vontade de chorar e agradeci não ter ficado doente. Depois, na ressaca louca da reação, não tem como não pensar no mal estar da própria doença, nas pessoas que perdemos e que poderiam estar ainda entre nós, tantas, e agradeci, de novo e de novo. Feliz em ver amigas, amigos, artistas que amamos, tomando a vacina. Há esperança. Sobrevivemos até aqui.

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Nesse esquisito mês de junho tivemos mais uma edição do SPFW, que acompanhei nesta ELLE e nos instagrams da vida. A moda e sua relevância, as roupas e suas importâncias. Belezas à parte, independentemente de gostos pessoais, emerge e se fortalece uma moda feita com propósito, e a diversidade de nomes e corpos. Para além do formato digital e da linguagem dos vídeos, que abordamos já em uma coluna anterior, a reivindicação por lugares, espaços, falas e narrativas eclipsa as tentativas de modinhas e devolve relevância para processos entorpecidos.

De tudo, de tudo, de tudo, a maior potência é mesmo a do Projeto Sankofa, detonado com a parceria da VAMO (Vetor Afro-Indígena na Moda) e do movimento Pretos na Moda, coletivos disparadores da mudança. E não é de mudança que estamos falando? Apenas por gosto, menciono a Meninos Rei com seus lindos Exus e a Mile Lab, de Milena Nascimento. Certamente ainda vamos ouvir bastante falar das duas marcas e estilistas.

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De quem já conhecemos mais, João Pimenta arrebata mais uma vez o "evento", apontando com seu barroco futurista para a volta de certa exuberância visual que o esperado fim desses tempos deverá trazer. A moda hoje deve emocionar por meio das telas, enquanto ainda a fruição da roupa não retorna ao físico. Isaac Silva, de novo ele, a partir das capulanas e das Havaianas, o clubbing queer fundamento de Walério Araújo, de certa maneira e vibrando em cada distinto diapasão, comovem e nos tiram do lugar do dia a dia do noticiário genocida. A beleza irá vencer a apatia.

É com Liniker na série Manhãs de Setembro que encerramos mais um junho, fechando o semestre e enchendo de afeto nosso coração, nas muitas cenas em que a cantora brilha como atriz ao interpretar a batalhadora Cassandra, nos diálogos (cheios de pajubá) do roteiro rico de Alice Marcone, Josefina Trotta e Marcelo Montenegro, na Amazon Prime.

Vale muito cada um dos cinco episódios, e já deixa gosto para uma segunda temporada essa super bola dentro da O2 Filmes, com direção de Dainara Toffoli e Luis Pinheiro, produzida com capricho por Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck. A série circula, que bom, em 200 países, e o talento desse timaço também, contando com a sempre deliciosa participação de Linn da Quebrada, na já histórica cena em que que elas cantam Sufoco em grande estilo. Confira também via Spotify a trilha sonora mara e a versão emocionante de Liniker para Paralelas. Uma solidão familiar e quente nos invade a alma nessas imagens e nessas músicas, confortadas pela voz e pela presença de Liniker que enche a tela (e a vida). Atravessando a cidade de moto ou no palco da boate Metamorfose's, ela tem a força de um navio cruzando o mar, imponente, firme. Uma força da natureza. Citando a maravilhosa Renata Carvalho, que comece o traviarcado. Há esperança.

PS.: Apontamos para um segundo semestre à luz de Marisa Monte, na visualidade da artista Marcela Cantuaria e na sonoridade harmoniosa e otimista das portas abertas pela cantora. Agora, que a esperança chegue às ruas.

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