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Louis Vuitton | Foto: Divulgação
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Apesar dos pesares, esta foi uma temporada de desfiles bem interessante. Coleções consistentes, boas estreias, tendências interessantes e mais influências externas, que ressoaram nas passarelas e esquentaram discussões. Ainda assim, os últimos dias da semana de moda de Paris pareceu preso num assunto já bem conhecido: a obsessão pela juventude. Ou melhor, a obsessão de ser ou parecer jovem. Existe uma diferença, é sutil mas existe.

O desejo de aparentar jovialidade é o que está por trás da estética dominante nas passarelas, campanhas, editoriais, publicidade, TV, cinema e em tudo mais que nos bombardeia visualmente. A juventude, por outro lado, pode ser um estado de espírito, pensamentos, ideais. Um tem a ver com roupa, o outro, com atitude.

Quem acompanha a maratona de desfiles deve lembrar que, em setembro passado, o verão 2022 da Miu Miu foi bastante criticado não pelas roupas, mas por quem as vestia. Os conjuntinhos cáqui de minissaia, camisa, tricô ou blazer, tudo cropped, foram apresentados em modelos extremamente magras. Produto da obsessão jovem que pauta a criação de imagem desde os anos 1960.

Quase seis meses depois, contudo, aquele mesmo look apareceu em capas de revistas e cliques de estilo de rua em corpos dos mais diversos. Uma atitude bem sintonizada com uma das definições de juventude.

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Segundo o dicionário, juventude é aquele período da vida do ser humano compreendido entre a infância e o desenvolvimento pleno. Mais do que uma fase de formação, é uma fase de possibilidades, de sonhos. Para Nicholas Ghesquière, diretor de criação da Louis Vuitton, é a época mais livre e sem padrões na forma de vestir.

É uma ideia atraente para as mentes mais criativas da moda. Rei Kawakubo já falou repetidas vezes como o olhar ingênuo e inocente de quem ainda não foi exposto aos preconceitos e padrões da sociedade tem enorme potencial criativo. Jonathan Anderson, na Loewe e na JW Anderson, concorda. Mas foi Virgil Abloh quem melhor trabalhou o tema. O designer estadunidense, então responsável pelo masculino da Louis Vuitton, dizia que devíamos olhar o mundo através dos olhos de uma criança ou adolescente. Só assim poderíamos superar e derrubar as opressões que nos são impostas e, então, evoluir.

Louis Vuitton, inverno 2022. Louis Vuitton, inverno 2022.Foto: Divulgação

Entre esculturas do século 19, no Musée D'orsay, o desfile da LV começa com uma série de looks de calças de alfaiataria usadas com camisas, gravatas estampadas e blazers oversized. É uma imagem bem mais descomplicada do que a das últimas coleções, mas ainda carregadas dos elementos que compõem o repertório de Ghesquière. A começar pelas proporções e mix de referências. Desde que estreou na maison, em 2013, o estilista vive revistando épocas e estilos passados com um olhar moderno, quase futurista. Aqui não é diferente, só de um outro ponto de vista.

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As saias armadas do verão 2022, por exemplo, chegam em versões de camisetas com uma espécie de cachecol de veludo estruturado na barra. As rendas opulentas vêm num quê de lingerie em vestidos com camadas transparentes sobrepostas a fotos de adolescentes feitas por David Sims nos anos 1990. Vestidos florais são combinados a camisas de rugby ou tricôs alongados e assim por diante.

As combinações são absurdas, mas desejáveis. A mensagem que fica não é a de dar ctrl c+ctrl v. Mas da possibilidade de criar algo novo ou além do óbvio com aquilo que já conhecemos. É usar o que quiser, como quiser e leave the kids alone.

Miu Miu, inverno 2022. Miu Miu, inverno 2022.Foto: Divulgação

Miu Miu, inverno 2022. Miu Miu, inverno 2022.Foto: Divulgação

Dar cara nova a velhos conhecidos do guarda-roupas é uma ideia que também aparece no inverno 2022 da Miu Miu. Miuccia Prada continua explorando o conjuntinho que anda bombando por aí, mas em versão esportiva. Os croppeds viram camisetinhas pólo e recebem listras contrastantes na barra e na gola, tipo uniforme de tênis.

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Algumas saias são pregueadas, mais compridas e usadas com a calcinha de cetim aparecendo. Apesar da barriga menos exposta, a cintura continua baixíssima, com cintos na altura do quadril e a versão de Miuccia do shorts-cintos do começo dos anos 2000 (provavelmente influência da stylist Lotta Volkova, que assinou esse e o desfile anterior e anda bem obcecada pela reprodução ipsis litteris da estética Y2K).

Outra novidade é a volta linha masculina após 14 anos fora das passarelas. São peças não muito diferentes das femininas que contribuem para ampliar a abrangência da imagem e das roupas. Porém, entre meninos e meninas, os corpos continuam altos e magros. Se já vimos que o look funciona e faz sucesso em outros biotipos, por que a resistência?

Herm\u00e8s, inverno 2022. Hermès, inverno 2022.Foto: Divulgação

Herm\u00e8s, inverno 2022. Hermès, inverno 2022.Foto: Divulgação

Na Hermès, a busca pela imagem jovem se confunde com a vontade de atrair uma nova clientela. Em uma tentativa de modernizar a etiqueta e torná-la mais atrativa para consumidores de gerações mais recentes, a diretora de criação Nadège Vanhee-Cybulski enxuga silhuetas, diminui comprimentos e propõe uma moda com shorts, transparências ousadas e meias 7/8. O resultado é uma ruptura no tipo de imagem que se associa à maison. Nem tanto pelas formas ajustadas e comprimentos curtos, e mais pelo alinhamento às tendências mais improváveis da estação, como as peças tipo armadura sci-fi e referências kinky.

Ainda assim, há boas peças que fazem a diferença – no desfile e em tudo que vimos na temporada: os vestidos midi elegantes com recortes listrados de couro com transparências, os modelos de seda amarrados na cintura e os casacos de couro alongado ou de lã, com corte arredondado e apenas um leve toque de influência equestre.

Chanel, invenro 2022. Chanel, invenro 2022.Foto: Divulgação

É difícil pensar em Chanel e não lembrar de alguma peça de tweed. O tecido se tornou parte essencial da identidade da marca e também da evolução da história da moda. Desde sua criação, a trama era usada apenas em roupas masculinas até que, em 1954, Coco Chanel decidiu incorporá-la ao guarda-roupa feminino. A história vocês talvez já conheçam. A estilista era apaixonada pelo Duque de Westminster e em uma das fugas românticas do casal para Escócia, ela acabou se encantando pelo material à base de lã.

Para o inverno 2022, a diretora de criação Virginie Viard decidiu homenagear a história desse pilar emblemático da marca. Para tanto, trabalhou com o tweed em várias peças, silhuetas e modelagens em que ele não costuma ser visto: jaquetas em cores psicodélicas, calças larguinhas e até em vestidos de festa.

A coleção tem um toque jovem bastante bem-vindo e até inesperado, já que o tecido é comumente associado a terninhos clássicos e uma imagem mais senhoril. Alguns looks, aliás, se conectam diretamente com algumas das tendências mais comentadas, visualizadas e repostadas no TikTok. Pense em vestidos de alcinha usados com uma infinidade de colares – um deles é uma minibolsa em forma de baú –, minissaias com cropped, casacos bordados combinados a shortinhos jeans, meias ⅞ e galochas – bem como em um foto de Coco Chanel no país britânico. E talvez até um tanto parecido demais.

Em alguns momentos, a sensação é de um apego demasiado a estilos e referências passadas. Não se trata de jovialidade, mas de contexto, de fazer sentido para o aqui e agora. O styling com as meias de tricô e sapatos baixos contribuem para uma silhueta pesada, puxada para baixo, com cara de figurino. Vai na contramão da proximidade com a realidade das consumidoras que Virginie tanto preza. É um daqueles desfiles que pede um olhar atento, com análise individual de cada peça. Quem se dispor a tal tarefa vai encontrar casacos com detalhes utilitários em alinhamento perfeito à tendência da estação, vestidos de corte simples e preciso e acessórios extravagantes na medida para contrapor a funcionalidade e formalidade em alta na temporada.

Valentino, inverno 2022. Valentino, inverno 2022.Foto: Getty Images

E enquanto a Chanel se dedicou a um material específico, a Valentino se ateu a uma cor. Em parceria com a Pantone, a casa italiana chegou a um tom de rosa só seu. Segundo o diretor de criação Pierpaolo Piccioli, a ideia era evitar quaisquer distrações e permitir que os espectadores pudessem focar nos detalhes, nas construções e silhuetas.

A precisão do corte das roupas aqui não é novidade. Desde que assumiu o posto em vôo solo, o designer vem entregando coleções de tirar o fôlego, cheias de boas ideias. Agora, porém, elas ficaram apagadas pela saturação de magenta. Havia apenas alguns looks pretos, verdadeiros respiros que se destacam justamente pela diferença. No passado, Pierpaolo mostrou propostas tão abrangentes e exuberantes que o inverno 2022 parece limitado em comparação.

Rendeu likes mil. Fotos de celebridades e influenciadores vestidas da cabeça aos pés no Pantone exclusivo da Valentino eram divulgadas e postadas como se fossem a principal atração. A coleção ficou de pano de fundo. De fato, não acrescentava muito ao repertório já conhecido da marca. Mas se a ideia era evitar distrações, talvez o objetivo tenha sido alcançado. Pouco se falou sobre o fato de que o discurso pró-diversidade física e etária do desfile excepcional de alta-costura, em janeiro, foi deixado de lado. Em relação a isso, a tokenização de corpos curvilíneos e mais velhos choca mais do que o rosa.

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