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Uma das imagens que mais me marcou durante a semana de alta-costura em Paris foi a da Emma Watson no desfile da Schiaparelli. Na foto, ela aparece ao lado de outros nomes estrelados como Hunter Schafer, Rina Sawayama e Anitta. Diferentemente das colegas de primeira fila, a atriz não estava com um look de impacto, tipo saído da passarela, ela vestia jeans rasgados, camisa branca e uma jaqueta da marca com amplas lapelas redondas. Parecia até que tinha chegado atrasado e não deu tempo de pegar a roupa certa. Ou vai ver que não gostou do que escolheram para ela.

O que importa é que aquele visual pareceu bem mais autêntico e natural do que muita coisa vista na passarela. Convenhamos, tá tudo pasteurizado demais, programado demais, dado demais. Até a revolução estética e mercadológica de Demna na Balenciaga, por mais inteligente e pertinente que seja, não foi tão surpreendente assim. Nem o flerte entre a moda surrealista e feminina de Elsa Schiaparelli com o glamour de Christian Lacroix pelas mãos de Daniel Roseberry.

Rina Sawayama, Hunter Schafer e Emma Watson na primeira fila do desfile da Schiaparelli.Rina Sawayama, Hunter Schafer e Emma Watson na primeira fila do desfile da Schiaparelli.Foto: GETTY IMAGES

Já comentei em textos recentes como os desfiles masculinos deram sinais de cansaço da fórmula caça-clique dos últimos anos. Não que vá mudar ou que seja genuíno, mas não custa sonhar. E parece que a alta-costura vem pelo mesmo caminho. Dior e Chanel, por exemplo, deram um passinho atrás em suas narrativas e apresentações para focar na tradição e excelência de suas ateliês e, sobretudo, na funcionalidade da roupa – algo que está no cerne da couture (afinal, é uma roupa feita sob-medida, exclusivamente para as necessidades e físico da cliente).

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Ainda assim, é tudo compartimentado, moldado para um público e audiência específicos. Claro, tem a identidade e estilo de cada marca, mas ultimamente parece que cada desfile é uma live isolada, sem conexão com todo o resto. E as reações são igualmente direcionadas e previsíveis: as amantes românticas da Maria Grazia, os haters incompreensíveis da Virginie Viard, o fandom deslumbrado do Demna.

Muito já se falou sobre como a internet impactou a indústria, mercado e, principalmente, a criação de moda. Que as redes sociais trouxeram benefícios não se discute, vozes antes nunca ouvidas agora têm espaço, plataforma e vitrine para suas causas, discursos e produtos. Mas isso não acontece de forma abrangente e, sim, isolada.

É como se, antes das redes, toda a sociedade se visse refletida (ou quase) num único grande espelho. Agora, esse espelho foi quebrado e cada um, ou cada grupo, se vê em um caquinho. No lugar de uma só imagem, temos milhares, cada uma querendo aparecer mais do que a outra, numa competição desmedida e descabida que, enfim, deu no que deu no mundo. Vide os níveis de polarização, desigualdade e falta de comunicação. Mas voltando… Nessa quebra de braço, ganha quem grita mais alto, quem brilha mais forte, independente do conteúdo.

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É a máxima do exagero, da hipérbole. Existem alguns estudos e pesquisas bem interessantes que argumentam sobre nossa incapacidade de reagir emocionalmente a pequenas nuances, a sutilezas ou construções estéticas mais profundas.

Maison Margiela.Maison Margiela.Foto: Divulgaçao

E aí chegamos ao desfile da Maison Margiela que talvez nem possa ser chamado de desfile. A apresentação aconteceu num teatro. Era como se uma peça, escrita por John Galliano e adaptada pelo grupo britânico Imitating the Dog, estivesse sendo filmada ali mesmo, com os takes e cenas exibidos em tempo real em grandes telas, tudo transmitido ao vivo. A história é sobre o romance e fuga de um casal de enteados, após conflitos com os pais abusadores. Envolve religião, construções sociais e mais um tanto de violências. Algumas pessoas acharam o roteiro e a encenação insensíveis devido aos tiroteios recentes nos EUA. A interpretação é válida, bem como a da pouca diversidade no casting (pouquíssimo discutida), mas foge do recorte deste texto. Ainda assim, é interessante frisar a escolha pelo gênero Western, essencial e originalmente estadunidense, e sua relação com fetichização da violência e sua imposição nos sistemas sociais, políticos e econômicos dominantes.

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Isto posto, John Galliano, atual diretor de criação da Margiela, sempre foi chegado a teatralidades. Durante os meses mais tensos da pandemia, encontrou no áudio visual uma ferramenta poderosa para esmiuçar seu processo criativo e criar imagens de cair o cu da bunda (perdão o linguajar). Com o retorno às "passarelas", ele elevou a coisa para um patamar jamais visto antes numa semana de moda. Tá aí parte da genialidade do acontecimento e do criador. Mas não é só isso.

O desfile da Maison Margiela é importante porque nos lembra de coisas que já não existem mais. Ou pelo menos não encontram espaço para existir. E não estou falando das roupas feitas à perfeição e de beleza excepcional ou da disposição para assistir um vídeo de 25min no YouTube. A interdisciplinaridade, os diferentes pontos de vista, a costura de histórias, camadas, narrativas e referências, a pessoalidade, a vulnerabilidade, a paixão, o respeito, o estudo, o tempo, a criatividade. Atributos em extinção num mundo calculado e programado por algoritmos, tão raros e escassos quanto um look de alta-costura.

Maison Margiela.Maison Margiela.Foto: Divulgação

Ao longo da apresentação, Galliano estabelece diversos diálogos: com criações de outros estilistas, com obras literárias, cinematográficas, musicais e mais uma infinidade de conexões com produtos da cultura pop. Natural Born Killers, Bonnie and Clyde, Querelle, Dogville, Wild at Heart, The Handmaid's Tale, até o clipe de Telephone, de Lady Gaga com Beyoncé, entram no mix. Isso sem contar nos dramas pessoais, nas próprias paixões e traumas, com fantasmas dos passados sempre voltando para assombrar (os personagens e o próprio estilista).

No desfile de inverno 2018 da Calvin Klein, Raf Simons fez uma analogia bem precisa sobre como Hollywood é ao mesmo tempo reflexo e baliza de uma sociedade em determinados momentos da história. No caso, o estilista belga propunha um olhar crítico à produção cultural estadunidense, de modo um tanto regional, afinal, era a apresentação de uma das marcas mais emblemáticas daquele país.

A mais recente coleção de alta-costura da Margiela faz algo bem similar, não só pela relação com o cinema, mas pelo atravessamento de diferentes camadas sociais, culturais e históricas. Ou, de forma mais coloquial, pelas conversas, conexões e pela recusa de isolamento e limites de um tal manual de condutas digital. E isso vai das roupas, feitas de sobreposições, recortes e retalhos de peças e tecidos diferentes e de épocas distintas, até a miscelânea estética das referências, o roteiro nada linear, quase num looping sem fim, à construção imagética em que a realidade é tão fragmentada quanto sua reprodução em plataformas mil.

Despida de todo romantismo, teatralidade, camadas históricas, referências culturais, paixões e modismos, as perguntas que ficam são: você só existe na sua tela? Sua realidade se resume ao alcance da sua câmera ou a de quem você segue? E o que fica fora do quadro? Por que fica fora do quadro? Quem é o diretor desse filme da vida como ela é? E o que está por dentro, o que desenha secreta ou inconscientemente o que está por fora? São questões complexas silenciadas pela superficialidade da comunicação digital-social, e que voltam à tona quando estamos em modo silencioso ou avião. Já imaginou se essas camadas e limites não existissem? Ou ao menos pudessem ser vistos como um todo? John imaginou. E foi genial.

O look de Emma Watson e as imagens produzidas por Galliano não podiam ser mais díspares. Porém, cada um a seu modo, nos lembram de outras possibilidades, outras experiências, de formas de expressão (visuais e não só) que não precisam ser tão hiperbólicas ou autocentradas. Mais do que isso, nos lembram que existe um tanto mais de coisas para serem consideradas além do clique. E nos lembram sobre o valor de se emocionar e se permitir.

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