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O ano de 2022 começa sob o signo da diversidade na música brasileira, à medida que chegam ao cenário cada vez mais artistas além dos padrões pré-estabelecidos no hip hop, no pop, na MPB, na música instrumental ou na eletrônica. De Pernambuco a São Paulo, ELLE destaca abaixo cinco nomes você escutar neste ano que se inicia.

Gilsons

Divulgação/Marina Benzaquem

O trio carioca impressiona inicialmente pelo DNA: é formado por um filho e dois netos de Gilberto Gil, o que motiva a brincadeira do nome Gil-sons, filhos de Gil em inglês. Eles são José Gil, o filho, de 30 anos, e os netos João Gil (filho de Nara Gil), 31, e Francisco Gil (filho de Preta Gil), 27. Em 2019, lançaram em single uma versão delicada de “Várias queixas”, faixa do grupo baiano de samba-reggae Olodum. Os versos “várias queixas/ várias queixas de você/ por que fez isso comigo?/ estamos junto e misturado/ meu bem, quero ser seu namorado” grudaram nos ouvidos brasileiros e tornaram mais séria a brincadeira.

No próximo mês, os Gilsons lançarão seu primeiro álbum, depois de uma série de singles interpretados com delicadeza. O disco trará pela primeira vez composições conjuntas de João, José e Francisco, além de parcerias com Clara Buarque (neta de Chico Buarque e filha de Carlinhos Brown), Julia Mestre e Carlos Rennó. “O lançamento será em 2 de fevereiro (Dia de Iemanjá), uma data muito especial para nós, que já mencionávamos lá no clipe de ‘Várias queixas’, com a narração do Caetano Veloso”, diz José Gil.

“A gente está muito ansioso para sair com shows pelo Brasil. Tivemos um gostinho disso no fim do ano, com várias apresentações, mas agora a situação está mais complicada devido à Covid”, afirma José. Enquanto o futuro não chega, os Gilsons sonham com a estrada no single mais recente, “Duas cidades”, de levada mansa e hipnótica. “Por entre duas cidades voltar pra casa/ por uma longa estrada rever você/ lua cheia de graça no pico do céu/ e o mel/ dendê”, cantam, num balé de vozes mansas que evocam a herança paterna e, indiretamente, da bossa nova.

Tasha & Tracie

Divulgação

Gêmeas idênticas, Tasha e Tracie Okereke, 26 anos, reforçam desde 2019 o levante feminino no hip hop, quando lançaram o EP Rouff (em formato de trio, com a rapper e produtora Ashira), que se seguiu, no ano passado, a Diretoria, assinado pelas duas. Além dos sete raps quebrados, densos e eletrônicos de Diretoria, elas também participaram em 2021 do radical álbum Roteiro pra Aïnouz volume dois, de Don L, na faixa “Auri sacra fames”. “Pode vir que nossos traumas nos deixaram brutal”, rimam ao lado do rapper.

As irmãs nasceram na Casa Verde, na zona norte de São Paulo, e se estabeleceram no Jardim Peri, na região norte paulistana. Carregam o sobrenome do pai nascido na Nigéria. “As pessoas acham que Okereke é nome artístico, mas não, é nosso sobrenome real”, explica Tracie. Notadas inicialmente pelo blog de moda Expensive $hit, elas expressam forte veia ativista também como DJs, MCs e compositoras. “A gente ficou mais conhecida no meio da moda, mas sempre andamos com vários DJs, sempre nos apoiamos muito na música. Fazíamos festas na quebrada, aí resolvemos perder a vergonha e o medo e começamos a tocar”, lembra Tasha.

Diretoria versa sobre moda (“Amarrou”), dinheiro (“SUV”), sexo (“Cheat code”) e tudo isso misturado (“Lui Lui”), enquanto modula a contundência inicial, de quando rimavam “respeita minha buceta ou faço uma na sua cara” (em “Cachorraz Kamikaze”) e “se você não tá na mesa, você tá no menu” (em “Flo Jo”). “Pra ter o que você tem, só precisa de um pai que pague/ pra fazer como eu faço, muita vivência de base/ um salve pras maloqueira cachorra kamikaze”, prosseguem em “Cheat code”. A história ainda está no começo.

Urias

Divulgação/João Arraes

Discípula de Pabllo Vittar, a cantora e compositora transexual Urias, de 27 anos, lançou na quinta-feira (13.01), a segunda parte do álbum Fúria, cuja primeira leva de cinco músicas havia chegado às plataformas digitais em maio do ano passado. Mineira de Uberlândia, Urias conheceu Pabllo em 2015 na cidade, onde a cantora maranhense mora. Como assessora de Pabllo, acompanhou a ascensão da estrela pop enquanto se preparava para o próprio lançamento artístico. Um dos produtores do álbum é o paranaense Rodrigo Gorky, nome por trás de hits de Pabllo, Anitta, Luísa Sonza, Iza e, antes, da Banda Uó e do Bonde do Rolê.

Do primeiro EP de Fúria, Urias emplacou o baladão “Foi mal”, a acelerada “Racha” e a hispânica “Peligrosa” (“danço com a morte, eu gosto do perigo”). No álbum completo, a atmosfera geral é mais soturna do que a dos tecnobregas ensolarados de Pabllo, e comandada por várias modalidades de urgência e ira que a artista procura extravasar. “Tenho uma raiva que me faz seguir/ eu, eu, eu quero tudo, eu quero agora”, sinaliza logo de início, em “Pode mandar”. “Vê se consegue me acompanhar/ o seu atraso só me dá gás/ sua burrice é tipo nitro pra mim/ e o seu ódio só me faz querer mais”, completa em “Racha”, que faz duplo sentido entre a gíria gay para se referir ao sexo feminino e as corridas automobilísticas ilegais, violentas e hipermasculinas.

Os temas mais lentos são contemplados ainda em “Aposta” (“mal sabe chupar/ mas fala pro mundo inteiro que sabe fazer geral gozar”), a romântica “Explícito” (em dupla com o brasiliense Hodari) e “Tanto faz”, que no entanto não dispensam tons mais agressivos e se aceleram progressivamente, manifestando novos variações dos sentimentos negativos que são a bússola de Fúria. O tom provocativo sobe em “Cadela”, que reage ao horror da transfobia com versos como “já deu pra entender que eu sou uma mina, cara/ vai ter que admitir/ que até seu rapper favorito não para de me ouvir” e “eu vou marcar meu território/ tirando onda usando macho de acessório/ senta, deita, late, corre”.

OQuadro

Divulgação

O hip hop é a linguagem do coletivo OQuadro, que lançou há dois meses seu terceiro álbum, Preto sem açúcar. O grupo formado em Ilhéus lidera a cena rapper baiana, ao lado de nomes como Baco Exu do Blues, Afrocidade, Vandal, Rap Nova Era e Beirando o Teto. O que distingue OQuadro é o formato de banda, com guitarra, baixo, bateria etc., raro no hip hop nacional e porta aberta para referências musicais que vão do reggae ao samba-reggae, do rock baiano de Raul Seixas (citado em “Ascende”) ao afrobeat, do manguebeat pernambucano à música eletrônica de pista. A combinação de beats eletrônicos com as possibilidades de uma banda enriquece o novo trabalho com qualidade e diversidade musical incomuns no hip hop.

O título Preto sem açúcar remete à monocultura cafeeira, mas também ao modelo escravagista que moldou a Bahia e o Nordeste movidos a cana de açúcar. De fato, não há açúcar no álbum nem mesmo em momentos mais solares como “Campo minado”, com a rapper baiana Cronista do Morro. Entre os convidados, somam-se também Jorge du Peixe, da Nação Zumbi (em “Asas”), Russo Passapusso, do BaianaSystem (“Meu game”), o trio Tuyo (“Santo”) e as cantoras Xênia França (“Caça”) e Ellen Oléria (“Kalishnikov”), entre outros.

O ponto alto é “Não vai passar batido”, em levada reggae, que manda recado transparente: “Tem quem mata em nome de Cristo/ e se faz de santo/ a branquitude que roubou nosso lucro/ playboy antirracista, antifascista, apoia o preto na internet, mas na rua atravessa a pista/ filhos de uma pátria colonialista/ eles sabem que não vai passar batido/ cada gota de sangue no chão/ cada tiro/ cada lágrima da mãe por seu filho/ eu não ando só”. O conselho incendiário aos ouvintes é nítido em “Ascende”: “Acende o pavio e apavora”.

Amaro Freitas

Divulgação/Jão Vicente

Lançado no ano primeiro semestre de 2021, Sankofa é o terceiro álbum instrumental de Amaro Freitas, depois de Sangue negro (2016) e Rasif (2018). Criado no bairro de Nova Descoberta, na periferia de Recife, Amaro nasceu numa família evangélica e percorreu um caminho incomum para um menino negro nordestino periférico, mas infelizmente rotineiro quando se trata do Brasil. Pianista de jazz, devoto do estadunidense Chick Corea, ele tem sido mais acolhido e admirado no exterior do que em seu país natal, faz mais shows na Europa e nos Estados Unidos do que aqui e lança seus trabalhos pelo selo inglês FarOut.

A misturança que corre no sangue e no cérebro de Amaro torna extraordinária sua música. O título Sankofa remete à África, a erudição que aprendeu acima de muitos obstáculos remete à cultura europeia ou estadunidense, e ele fala com carinho das canções bregas nordestinas e dos raps dos Racionais MC’s. Começou tocando louvor na igreja e já frequentou a MPB, acompanhando Milton Nascimento e Criolo em releituras de “Cais”, do primeiro, e “Não existe amor em SP”, do segundo. Recentemente, atravessou novas fronteiras ao tocar com a cantora pop Manu Gavassi, no single “Gracinha”.

O pianista conheceu primeiro Thelonious Monk e Dizzy Gillespie, e só depois Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e outros instrumentistas brasileiros. Nessa longa viagem, reaproximou-se dos sons locais, notadamente os nordestinos, que se insinuam sutilmente em peças como “Baquaqua”, “Cazumbá”, “Batucada”, “Nascimento”, “Afrocatu”, “Encruzilhada”, “Sangue negro” etc.

No caminho de volta, deparou-se com um antecessor maiúsculo, que viveu história muito parecida com a dele, o maestro negro Moacir Santos, também pernambucano e autor de clássicos dos anos 1960 em compasso de bossa negra, afro-samba, samba-jazz, jazz-maracatu... Diferentemente de Moacir, que se radicou nos Estados Unidos até a morte, em 2006, Amaro não planeja se mudar do Brasil e cumpriu quarentena em São Lourenço da Mata, na zona da mata pernambucana, onde moram seus pais, com todos os sons ao redor.

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