SPFW N55: Igor Dadona, Gefferson Vila Nova, Ponto Firme e Meninos Rei

No primeiro dia de desfiles sequenciais, assuntos sobre identidade, amadurecimento e evolução se repetem nas melhores apresentações.


Ponto Firme. | Foto: Agência Fotosite
Ponto Firme. Foto: Agência Fotosite



A SPFW N55 começou oficialmente na noite de segunda-feira (22.05), com o desfile de João Pimenta, no Theatro Municipal de São Paulo. Na tarde de quarta (24.05), foi a vez da marca Isaac Silva se apresentar na Ocupação Nove de Julho. João celebrou seus 20 anos de passarela com uma retrospectiva e divisão de águas entre seu trabalho como estilista e figurinista. Isa Silva mostrou o tanto que evoluiu desde 2015, quando iniciou sua empreitada na moda.

Identidade, consistência, constância e renovação são conceitos essenciais e divergentes a qualquer negócio e profissional de moda. É uma equação complicada. A lógica do sistema pede mudanças cada vez mais rápidas e frequentes. Sai o velho, entra o novo, que parece que já nasce velho. Ao mesmo tempo, espera-se imagens e produtos bem definidos, inconfundíveis, únicos. A mensagem – ou o propósito, essa palavra terrível que os marketeiros adoram – deve ter alguma continuidade e fazer sentido. Só não vale repetir, tá? Nada de mesmice, clama o mercado (dizem).

Identidade, consistência, constância e renovação (olha aí a mesmice repetitiva) foram assuntos importantes nas principais apresentações da quinta-feira (25.05), quando a semana de moda retomou o ritmo sequencial de desfiles.

 

Igor Dadona

Igor Dadona cansou de falar sobre sofrimento em suas coleções. É que ele não só falava, sentia mesmo. Foram três temporadas carregadas de angústias, medos e melancolia. “Estava sempre relembrando dores e começou a ficar pesado demais. Criar deixou de ser algo prazeroso”, disse o estilista, momentos antes do desfile.

Naquela manhã – único dia e horário em que sua mãe podia assistir ao desfile – Igor virou a página. A escrita continua a mesma, já a sintaxe está mais sofisticada e assertiva. Para tornar o processo criativo mais leve, ele permitiu mais tempo e atenção ao que lhe é interessante, ao que lhe faz bem. Como a arquitetura, uma paixão antiga que só não virou profissão por envolver muitos números e cálculos matemáticos. 

Nas pesquisas sobre espaços e construções brutalistas, um dos seus estilos favoritos, ele caiu numa série de imagens de escritórios vazios. “Amo essa estética meio anos 1990”, confessa. Acontece que essa coleção marca seus 10 anos de carreira. “Aí, decidi juntar as duas coisas: a roupa de escritório com a roupa de festa.”

A analogia não tinha como ser mais representativa sobre o momento em que Igor se encontra profissionalmente. De um lado, tem o desejo pela celebração de sua trajetória e de emoções até então represadas. Do outro, uma nova fase profissional e de negócios. Nos últimos anos, o estilista viu seu empreendimento crescer pela primeira vez.

Para além da associação da alfaiataria com roupa de trabalho, o foco comercial aparece no aprimoramento das peças que fazem mais sucesso com sua clientela. Em especial a camisa. Tem camisa de smoking desconstruída, de seda com poá, oversized, superlonga, com drapeado, com laço no lugar do colarinho, com recorte de tecidos diferentes…

Outra menção necessária vai para os casacos-investimento. Os de lã texturizada com cristais Swarovski são opções preciosas que funcionam para quase tudo. E tem aquele à la Cristóbal Balenciaga, com tecido acetinado e um bordado floral que já apareceu lá na sua terceira coleção. Um ótimo exemplo daquela história de identidade, consistência, constância e renovação.

 

Gefferson Vila Nova

Para sua estreia na São Paulo Fashion Week, Gefferson Vila Nova recuperou elementos que definiram a identidade de sua marca quando esta ainda era dedicada exclusivamente à moda feminina (as regatas com ilhoses dão conta do recado). É que nos meses de lockdown, durante a pandemia de Covid-19, o estilista baiano começou a fazer roupas para uso pessoal e tomou gosto pela coisa. Tanto que, em 2021, ele lançou um e-commerce com propostas para o público masculino.

No desfile do dia 25 de maio, seu casting era majoritariamente composto de homens. Tempos atrás, daria para dizer que a coleção também era assim. Ainda bem que estamos em 2023 e entendemos que roupa não tem gênero. E Gefferson sabe bem disso. Quando começou a diversificar sua gama de produtos, misturou elementos convencionalmente femininos com masculinos.

Desta vez, a inspiração no modernismo brasileiro, principalmente nos trabalhos de Roberto Burle Marx, deixou tudo bem uniforme ao reduzir as linhas da coleção a formas simples, cortes geométricos e caimento afastado do corpo. Como nas últimas estações, saem na frente as camisas oversized e as calças de alfaiataria soltinhas, só levemente largas na proporção.

 

Ponto Firme

O Ponto Firme é a prova de que nem todo sucesso na moda se mede com régua comercial. Criada pelo estilista Gustavo Silvestre em 2015, a iniciativa começou com aulas de formação técnica em crochê para sentenciados no presídio masculino Adriano Marrey, em Guarulhos. Em 2021, a vontade de expandir a ação deu vida à Escola Ponto Firme, com cursos de crochê para quaisquer pessoas em situação vulnerável – incluindo egressos do sistema prisional –, que hoje colaboram com a apresentação e demais projetos, tudo devidamente remunerado.

Desde a estreia na SPFW, em 2018, os desfiles do Ponto Firme inovam em formato, casting, conteúdo, mensagem, significado, profissionais, criatividade e roupa. Para a 55ª edição do evento, o coletivo ocupou a passagem de pedestre embaixo do Edifício Copan, no centro de São Paulo, numa parceria com a marca de calçados Rider. E o crochê, a origem de tudo, serviu de base para outras experimentações têxteis.

Ao investigar a dualidade entre a mão e a máquina, o estilista e seus alunos se concentraram no paetê, muitos deles cortados à laser e costurados em tramas de crochê de ponto aberto. O resultado são listras, padronagens e efeitos ópticos que, de longe, chegam a confundir os olhos. “Existe um preconceito em torno dos trabalhos manuais, então nosso ponto de partida é sempre a inovação”, disse Gustavo, em conversa com a ELLE.

Com uma cartela de cores vibrantes sobre bases pretas, algumas peças são confeccionadas a partir de resíduos que iriam para o lixo: garrafas de água se transformam em bolsas esculturais e fios plásticos encontram vida nova em faixas decorativas. 

Há ainda uma minuciosidade de detalhes e acabamentos que Gustavo sabe bem de onde vem: “Dá para perceber que nessa coleção tivemos a força feminina na criação”. O designer explica que, graças ao crescimento do projeto, a escola passou a receber um número expressivo de mulheres refugiadas.

 

Meninos Rei

Em entrevista antes do desfile, os irmãos Céu e Júnior Rocha afirmam que a nova coleção da Meninos Rei tem como objetivo “massificar os produtos da marca, torná-los pop e acessíveis para todo mundo”. Os castings das quatro apresentações na SPFW dão conta do recado – são provavelmente as seleções de modelos mais diversas que o evento já viu numa só passarela.

Sobre a acessibilidade dos produtos, já é outra história. Na estação passada, a dupla baixou o tom dos volumes e extravagâncias para apresentar propostas mais próximas do dia a dia de muita gente. Agora, a alfaiataria elaborada, com balonês e assimetrias, retomam o protagonismo. É parte da identidade da Meninos Rei – e grife veste um tanto de celebridades, artistas e performers –, mas ofusca as novidades e complica a assimilação para o cotidiano.

Era preciso uma boa dose de atenção para notar as novas estampas do ilustrador baiano Leonardo Barbosa. O mesmo para a mistura de estampas e para as novas proporções dos blazers, camisas e vestidos derivados da alfaiataria. As jaquetas puffers eram difíceis de perder, ainda que sem tanto destaque.

É louvável e emocionante assistir a passarela cheia e vibrante. Para quem acha repetitivo, fica aí o questionamento se não é sintoma da realidade brutal que corta e atravessa a sociedade brasileira. Porém, o volume de propostas somado à exuberância do espetáculo desviam demasiadamente o olhar para o que realmente importa: a roupa.

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